O retrato de uma Buenos Aires sob os efeitos da crise

O mundo anda em uma fase de descrença da população com as autoridades tradicionais e a capacidade delas de melhorar a vida das pessoas. O mau humor dá o tom quando se fala de política, por exemplo. Mas já houve momentos piores, sobretudo para os latino-americanos. A segunda metade da década de 1980 teve crise econômica atrás de crise econômica em vários países, hiperinflação era comum, greves gerais ocorriam com constância e após uma ou outra revolta popular, pintavam manchetes chamando algum lugar de “cidade da fúria”. Tudo por causa de Buenos Aires, e de uma música que assim batizou aquele momento da capital argentina.

A virada da década foi cruel com os argentinos. O Plano Austral, pacote econômico que criou uma nova moeda (o austral) em 1985, começou a fazer água em 1987. No ano seguinte, o governo de Raúl Alfonsín decretou moratória e, em 1989, o Banco Mundial suspendeu a ajuda ao país. A inflação, que já era alta, disparou: foi de 9,6% em fevereiro para quase 200% em julho. No total, o aumento de preços somou 3.079% em 1989 e 2.314% em 1990. Era esse o clima do país quando a banda Soda Stereo gravou o álbum Doble Vida, que teve como primeiro single “En la Ciudad de la Furia”.

A música é uma alegoria em que um homem alado representa os jovens portenhos. Eles tentam voar e se sentem cada vez mais amarrados e sem perspectivas em uma sociedade nervosa e tensa com sua situação (Nada mudará / Com um alerta de curva / Em suas caras vejo o temor / Já não há fábulas / Na cidade da fúria). O cenário se torna tão crônico que é tratado quase como um destino, algo incontornável (Buenos Aires se vê / Tão suscetível / É o destino de fúria / O que persiste em suas caras). No final, fica ainda um suspiro de esperança de que um dia chegará a vez dessa juventude (Me verá voltar…).

“En la Ciudad de la Furia” talvez tenha sido a principal composição de Gustavo Cerati, um dos maiores nomes da história do rock latino-americano. O guitarrista faleceu em 2014, após passar quatro anos em coma como consequência de um AVC sofrido em Caracas.

Veja o clipe de “En la Ciudad de la Furia”, do Soda Stereo. Aqui está a letra, com tradução.

Texto publicado originalmente para a newsletter do Outra Cidade. Para assiná-la, clique aqui.

[Galeria] Onde as pessoas se reúnem para protestar em cada cidade

Espaços públicos são mais que áreas de lazer e convivência dentro de cidades. Praças, parques e avenidas sempre foram importantes para as pessoas se reunirem e manifestarem sua vontade. Seja como demonstração de solidariedade após uma tragédia a, mais comum, protestos contra determinada política pública ou contra a situação em geral de uma cidade ou país.

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Desde 2013, os brasileiros redescobriram essa vocação dos espaços públicos, desde os protestos contra o aumento da passagem de ônibus, que se transformou em manifestações contra os serviços públicos, contra a corrupção, contra a Copa do Mundo, contra o governo Dilma Rousseff e, mais recentemente, contra seu impeachment. A lei protege esse direito a manifestação, ainda que essa seja uma questão polêmica dentro de setores da sociedade brasileira.

Veja abaixo como praças e avenidas tiveram papel importante em diversos momentos de insatisfação popular pelo Brasil e pelo mundo:

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Alta da conta de luz ameaça os clubes de bairro em Buenos Aires

Mauricio Macri assumiu o governo argentino com a promessa de fazer ajustes em diversas áreas. Uma delas foi o fim do subsídio a diversos serviços, como a água e a energia elétrica. Com isso, as contas repentinamente tiveram aumentos significativos. Para reduzir o impacto da medida, o governo criou a tarifa social para aposentados, desempregados, quem não tem mais que duas moradias e famílias de baixa renda. Mas um grupo ficou no limbo: os mais de 400 clubes de bairro.

Na Argentina, sobretudo em Buenos Aires, essas instituições têm um papel social importante. Elas funcionam como centros de lazer e eventos da comunidade, oferecendo opções esportivas e culturais para a população local – principalmente crianças e aposentados – e disponibilizando a estrutura para os colégios vizinhos. Há clubes de bairros nobres, com altas mensalidades e boa estrutura, mas a maior parte se localiza na periferia e vive dos recursos que a região oferece.

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Eles funcionam como uma mistura dos clubes sociais brasileiros com as escolas de samba e projetos sociais de bairro. Oferecem aulas de diversas modalidades esportivas e artísticas, organizam eventos comunitários e centralizam ações em torno do bairro. Alguns chegam a ter equipes profissionais de futebol, como Yupanqui, San Telmo, Deportivo Merlo e Deportivo Riestra, mas sempre em divisões quase amadoras, servindo mais como opção de lazer para os moradores da região no fim de semana do que como forma de rentabilizar.

Os clubes são instituições privadas e suas principais fontes de renda – mesmo para os clubes com equipes de futebol, e aí não confundir com os times da primeira divisão – são as mensalidades dos sócios, os restaurantes e os eventos. No entanto, muitos começaram a sofrer nas últimas décadas. Em um fenômeno semelhante ao do Brasil, o surgimento condomínios com estrutura própria de lazer fez que muitos sócios deixassem de frequentar os clubes. O impacto para eles não é grande, mas a comunidade que se beneficiava dos serviços tem sofrido.

Aula de música no Círculo La Paternal (Facebook/Circulo La Paternal)
Aula de música no Círculo La Paternal (Facebook/Circulo La Paternal)

Em 2013, o governo da Cidade Autônoma de Buenos Aires (equivalente ao governo do Distrito Federal) criou uma lei específica para os clubes sociais, que teriam mais flexibilidade para uso do solo para atividades esportivas e culturais em benefício da comunidade. Mas isso não mudou o fato de que muitas das instituições continuam trabalhando com o dinheiro contado, cobrando mensalidades quase simbólicas – algumas não passam de 30 pesos, ou R$ 7,50 – para ser acessível à população do bairro.

Nesse cenário, o fim repentino do subsídio da conta de luz teve um grande impacto. O Yupanqui pagava mil pesos (R$ 252) por mês e viu a tarifa chegar a 11 mil pesos (R$ 2,8 mil, ou 1.000% de aumento). Com 900 sócios que pagam uma mensalidade média de 90 pesos (R$ 22,7), a energia absorve 13% do faturamento. “Não podemos aumentar a mensalidade. Teria de ser um aumento muito alto, mas este é um clube de bairro e de interesse social. A última coisa que queremos é nos tornar um clube elitista”, afirmou o presidente Ricardo Prado em entrevista ao Clarín.

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O Yupanqui é conhecido na Argentina justamente por ser pequeno e ter poucos recursos. Tanto que seu time de futebol foi escolhido para estrelar uma propaganda da Coca-Cola em 2001. Na oportunidade, o clube foi apresentado como o dono da menor torcida do país.

A situação do Yupanqui preocupa, mas há clubes em situação ainda pior. O El Talar arrecada cerca de 22 mil pesos (R$ 5,5 mil) com as mensalidades. Desse montante, 30% tem de se destinar à conta de luz desde o reajuste. “Estamos feridos mortalmente, muito preocupados e remando em doce de leite [expressão argentina que significa algo como ‘tirando leite de pedra’]. Só de pegarmos a conta de luz e somarmos com as outras contas e os salários dos funcionários, a conta dá zero”, comentou Javier Fidanza, vice-presidente do clube. “Com as demais despesas de operação, terminamos no vermelho.”

A proposta dos clubes é amortecer o aumento, subsidiando de 40 a 50% da diferença entre a tarifa antiga e a atual. Ainda assim, seria algo temporário. O governo argentino criou uma lei em janeiro de 2015 para dar mais fôlego financeiro aos clubes de bairro pelo país. No entanto, o texto ainda não foi regulamentado e, por isso, não foi aplicado. Macri ainda não colocou o tema na pauta, mas não depende apenas da administração nacional, pois o debate também precisa da participação de entidades representando os clubes e dos governos das províncias.