Futuro do Minhocão vai passar por plebiscito, mas a comuniadde da região que deveria decidir

Minhocão, em São Paulo (Rovena Rosa/Agência Brasil)

O Plano Diretor da cidade de São Paulo já definiu que o elevado João Goular, popular Minhocão, será fechado para os carros em 2029. No entanto, ainda há muita dúvida sobre o que fazer com sua estrutura. E a notícia desta quarta (9) é que pode haver um plebiscito para a população escolher o destino do viaduto.

Essa foi a proposta aprovada pela Câmara de Vereadores da capital paulista, e ainda depende da aprovação do prefeito Bruno Covas. Seriam três opções: desmontar totalmente o elevado, deixá-lo inteiramente como um parque horizontal (como a Highline de Nova York, referência automática sempre que se fala nisso) ou o desmonte apenas entre a Praça Roosevelt e o Largo Santa Cecília, deixando o resto como parque horizontal.

A ideia soa democrática: tira o debate do universo político e deixa para as pessoas decidirem. Bem, ela é democrática, mas talvez não seja a melhor. Afinal, deixaria para milhões de paulistanos que não ligação com o Minhocão decidirem o que fazer com ele. Para muita gente, o único impacto do elevado no dia a dia é o papel no sistema viário. Mas isso já está definido: o viaduto será fechado. O plebiscito diria respeito apenas ao que fazer com a estrutura, o que tem papel nulo na vida de quem não mora ou circula pela região.

Seria muito mais justo criar um método para que as pessoas que vivem no entorno do Minhocão pudessem decidir. Elas que sofrem com o impacto urbanístico, imobiliário e visual do elevado, e elas que poderiam aproveitar os benefícios de uma área de lazer feita em cima dessa estrutura. Ou seja, esses paulistanos que teriam mais elementos para tomar a decisão mais justa para a realidade da região.

Claro, definir um plebiscito apenas para moradores — ou pessoas registradas em zonas eleitorais — de uma região poderia criar dificuldades políticas e até legais. Mas seria muito melhor se as pessoas que seriam impactadas com o resultado do plebiscito não corressem o risco de terem suas posições ofuscadas por milhões de pessoas que vivem do outro lado da cidade.

Antecipar feriado não visa apenas baixar a taxa de isolamento

Avenida 9 de Julho, em São Paulo (Reprodução Google Street View)

Corpus Christi mudou de 11 de junho para 20 de maio. O dia seguinte virou o Dia da Consciência Negra, originalmente em 20 de novembro. Como 22 de maio virou emenda, 23 e 24 são fins de semana e 25 de maior virou o novo feriado de 9 de julho, São Paulo criou um superferiadão de 6 dias. A meta, como outras medidas infrutíferas: aumentar a taxa de isolamento social na capital paulista.

Essa é a versão oficial, e o resultado da política é bastante contestável na questão da quarentena. No final das contas, milhares de paulistanos aproveitaram para passar o feriadão fora da cidade, congestionando rodovias e levando a movimentação nas ruas (e eventualmente o Sars-Covid-2) para o interior e o litoral.

Mas há uma pegadinha nessa medida. Ao antecipar feriado, as autoridades paulistanas não estão apenas forçando a atividade econômica a parar nesses dias. Elas estão também permitindo que, lá na frente, quando a quarentena já tiver acabado, as empresas terão menos interrupções para feriados.

Considerando que o setor empresarial tem pressionado pela reabertura da economia, um pequeno agrado não soa ruim. E certamente muita empresa prefere pagar esses feriados agora, quando o consumo está baixo, do que em julho ou novembro, quando a atividade estará maior.

Rodízio ampliado: como esperado, pior para o transporte público

Saíram os primeiros números do rodízio ampliado em São Paulo. De fato, menos carros circularam pelas ruas, 1,5 milhão de acordo com a Companhia de Engenharia de Tráfego da capital paulista. No entanto, como esperado, mais gente teve de se apertar no transporte público: só nos ônibus foram 6,2% a mais, e houve relatos de superlotação em estações de trem e metrô.

Veja mais aqui e aqui.

Prefeitura de São Paulo faz de tudo para não fazer o que precisa: bloqueio total

Bruno Covas, prefeito de São Paulo, anunciou uma mudança na regras do rodízio de veículos na cidade. Ao invés de restringir a circulação de carros com placas com dois números específicos no final de cada placa, agora a definição será por placa de final par ou ímpar (em dia ímpar, podem circular carros com placa de final ímpar). Isso vale a partir da próxima segunda (dia 11) e seria mantido até nos fins de semana. Além disso, estaria em vigor durante todo o dia, não apenas na hora do rush.

No reflexo imediato, a medida até parece fazer algum sentido. O rodízio passa a atingir 50% dos carros, ao invés dos 20%. Nisso, as autoridades paulistanas apostam que conseguiriam, enfim, aumentar o índice de pessoas que ficam em casa seguindo a quarentena.

Basta pensar um minuto a mais, porém, para perceber como a intenção pode até ser boa, mas ela provavelmente piorará as coisas. E que, no fundo, a prefeitura sabe muito bem o que precisa fazer, e não faz com medo da repercussão em alguns setores: o bloqueio total, ou lockdown.

Não adianta proibir que metade dos veículos circulem na cidade se o motivo para muitos desses deslocamentos continuam existindo. Em alguns casos, o rodízio até manterá a pessoa em casa naquele dia. Mas, em muitos casos, o indivíduo sai porque ainda está trabalhando. Alguns o fazem de carro, e terão de recorrer ao transporte público, onde se encontrarão com os milhares ou milhões que já estão em metrôs, trens e ônibus por falta de opção.

O resultado é que o transporte público tende a ficar com mais aglomerações, um cenário ainda melhor para a transmissão do novo coronavírus. Permitir que uma parcela dessas pessoas continuassem usando o carro até seria melhor. Porque, para baixar efetivamente a circulação de pessoas, as autoridades precisam atacar o motivo de muitos desses deslocamentos: o trabalho que não é essencial.

A questão é que decretar o bloqueio total desagrada parte do eleitorado e muitos empresários. Assim, as autoridades paulistas tentam encontrar soluções alternativas que têm efeito nulo, se não for negativo.