Veja quais são as cidades brasileiras com maior número de eleitores

A campanha eleitoral começou (não sei se dá para dizer “finalmente começou”, pois há dúvidas se é algo que a população esperava com ansiedade) e dezenas de milhões de brasileiros irão às urnas decidir o futuro de seus municípios. Apesar de o pleito ficar um pouco ofuscado pelo processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, trata-se de um momento importante pelo estágio da sociedade brasileira. As pessoas começam a mudar a forma de ver sua relação com os locais em que vivem, e o primeiro palco em que esse fenômeno se manifesta são as cidades.

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A população rediscute o espaço urbano e, por tabela, a forma como as autoridades lidam com ele. As eleições municipais representam uma grande oportunidade de as pessoas mostrarem que tipo de política desejam dos futuros gestores públicos.

Para esse início oficial da campanha eleitoral, vamos mostrar quais as cidades que mobilizarão mais pessoas em 2 e 30 de outubro. Apontamos as 15 capitais e as 15 não-capitais (não dá para dizer que são cidades do interior, pois a maioria desses municípios fica na região metropolitana das capitais) com mais eleitores registrados no TSE.

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A onda de gastronomia representa uma boa oportunidade para Belém

O que é? O público da TV Liberal, afiliada da Globo em Belém, elegeu o Ver-o-Peso como o maior símbolo da capital paraense. Um sinal da importância do mercado para a cidade, e que serve de lembrete de como ele tem um potencial para projetar a cidade, sobretudo em um momento em que a gastronomia virou um tema da moda no mundo.

Viver novas experiências, conhecer sabores inéditos

“A última fronteira gastronômica mundial.” É um título pomposo, que até soa exagerado, mas deve ser respeitado quando o responsável por ele é um dos maiores chefs do mundo. Foi assim que o espanhol Ferran Adrià se referiu à Amazônia, uma grande região do planeta com uma enorme biodiversidade, que proporciona milhares de ingredientes desconhecidos de muitas pessoas de fora. O que inclui mesmo no resto do Brasil. Bom para as pessoas que vivem na região e conhecem esses sabores. Melhor ainda para as cidades que puderem usar essa fama para capitalizar na onda mundial por gastronomia.

A comida demorou um pouco para virar tema da moda no Brasil, pelo menos em massificação. Ela veio nos últimos anos, e teve grande impulso com a criação da nossa versão do programa Masterchef. De qualquer modo, a TV a cabo já trazia programas desde a década passada, trazendo para uma parte do público brasileiro todo o crescimento desse assunto em diversos países do mundo.

Essa onda criou um novo público, o de entusiastas da comida. Pessoas que querem incluir experiências culinárias no seu dia a dia, incluindo nas férias. Vários lugares do mundo ganharam projeção, sejam países antes ignorados (Vietnã), regiões (Sichuan, China), cidades (Nova Orleans-EUA) ou mesmo estabelecimentos comerciais (Macelleria Cecchini, Panzano-ITA). O Brasil já tem suas referências, como o restaurante DOM e as churrascarias rodízio. Mas a tal “última fronteira gastronômica mundial” segue de fora. E, se for para se trabalhar nisso, já há um candidato natural.

O brasileiro Alex Atala apresenta o Ver-o-Peso ao espanhol Ferran Adrià. Os dois estão entre os melhores chefs do mundo (Divulgação)
O brasileiro Alex Atala apresenta o Ver-o-Peso ao espanhol Ferran Adrià. Os dois estão entre os melhores chefs do mundo (Divulgação)

O Mercado Ver-o-Peso, em Belém, já tem projeção no meio turístico. Localizado em um edifício histórico à beira da Baía do Guajará, é um dos pontos turísticos da capital paraense, foi visitado por alguns chefs internacionais que resolveram conhecer os tais sabores da Amazônia e até tem festival gastronômico. Nesta semana, foi eleito pelo público da TV Liberal, afiliada belenense da Rede Globo, como o principal símbolo dos 400 anos de Belém, que serão completados em 12 de janeiro de 2016. O mercado deixou para trás o Círio de Nazaré, o Túnel das Mangueiras, o Forte do Presépio e o bairro da Cidade Velha.

No entanto, a divulgação do espaço ainda é discreta. Sabe-se que o prédio do Ver-o-Peso tem valor histórico e que se encontra produtos diferentes do Mercadão de São Paulo ou do Mercado Central de Belo Horizonte. No entanto, não se faz um trabalho para mostrar o quão especial aquele lugar pode ser, o quão inédita seria a experiência de quem o visitasse (e não há nada que a geração atual mais ame do que “viver experiências inéditas”). Como fazer isso? Divulgação tradicional (publicidade), mas levar chefs famosos e a mídia para conhecer, levar chefs paraenses para eventos pelo resto do Brasil e o mundo, criar novas receitas com ingredientes locais e torná-los conhecidos como o açaí ficou.

Claro que pouca gente, no Brasil ou no mundo, faria uma viagem até Belém apenas por causa de seu mercado. Mas ele seria o chamariz principal para puxar todas as demais atrações da cidade, e não são poucas. Em um mundo que talvez nunca tenha falado e valorizado tanto a boa comida, a capital paraense tem uma oportunidade muito boa para se projetar.

Como um muro asfixia Belém 2 mil anos após seu filho mais ilustre

O que é? Belém fica a apenas 10 km de Jerusalém. No entanto, é nesse espaço que está a fronteira entre Israel e a Cisjordânia. Quando o governo israelense construiu um muro separando a terra de judeus e de palestinos, criou um cenário de sufocamento econômico para a cidade em que acredita-se que Jesus tenha nascido.

A violência que mata uma cidade

Uma manjedoura, com um bebê ao centro, seus pais e alguns animais de fazenda ao redor. A imagem de um presépio é bastante conhecida e se torna particularmente recorrente na semana do Natal. Ela celebra o nascimento de Jesus, que para as religiões cristãs ocorreu na data que hoje é contada como 25 de dezembro do ano 1. A cena retratada teria ocorrido em Belém, mas, com medo de uma determinação do governador Herodes de matar todos os meninos nascidos na cidade, a família fugiu para o Egito e, depois, se instalou em Nazarém, no norte de Israel. Uma trajetória praticamente impossível hoje.

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Pouco mais de 2 mil anos depois, Belém é uma cidade que agoniza. Sua economia era baseada no turismo religioso – impulsionado pelas visitas cristãs à Igreja da Natividade, construída supostamente no local em que Jesus nasceu, judaicas à Tumba de Raquel – e no fato de estar a apenas 10 km ao sul de Jerusalém. Muitos moradores de Belém dependiam da capital israelense para conseguir um emprego ou realizar negócios ou do pouco de terra cultivável na região.

Com o aumento das tensões entre árabes e israelenses, o governo de Israel decidiu erguer um muro separando seu território da Cisjordânia. Belém estava do lado palestino, e os 10 km para Jerusalém subitamente se transformaram em um mundo inteiro de distância. Trabalhar e fazer comércio se tornou inviável para a maioria. Viver da terra também, pois o muro também a separou da cidade natal de Jesus.

Palestinos tentam passar por ponto de checagem do muro em Belém para trabalhar em Jerusalém (AP Photo/Emilio Morenatti)
Palestinos tentam passar por ponto de checagem do muro em Belém para trabalhar em Jerusalém (AP Photo/Emilio Morenatti)

A comunicação com Israel ficou afunilada nos pontos de checagem do muro. É por eles que os moradores de Belém que ainda trabalham em Jerusalém precisam passar todos os dias, mas dependem da obtenção de um passe especial. Turistas têm um pouco mais de liberdade, mas muitos pacotes turísticos passaram a incluir visitas bate-volta a partir de Jerusalém. Sem pessoas se hospedando por muito tempo, hotéis, lojas e restaurantes da cidade também perderam muitos clientes.

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Com essa asfixia geográfica que se transformou em asfixia econômica, a cidade começou a agonizar. O desemprego passou de 50%. Milhares de cristãos se mudaram para o ocidente, reduzindo a população de Belém de quase 30 mil para 25 mil em menos de dez anos. O muro virou alvo de protestos, e hoje está cheio de grafites feitos pela população para manifestar o sonho de paz – o de que, pelo menos, o muro caia.

As Nações Unidas declararam que as partes do muro que entram em território palestino são ilegais e o Papa Francisco até rezou nele durante sua visita à Palestina em 2014, mas a quantidade de atentados terroristas caiu drasticamente em Israel e motiva a manutenção das estruturas. Enquanto isso, a cidade que ficou marcada pelo nascimento de uma das figuras mais importantes da história há cerca de 2 mil anos não consegue ver o futuro.