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É fácil entender qual interesse de um terrorista ao escolher Barcelona para realizar um atentado. É uma das cidades mais famosas e turísticas do mundo, e qualquer ação teria uma repercussão muito maior do que se fosse em outro lugar. Foi o que aconteceu nesta quinta, quando uma van avançou pelas Ramblas (calçadão mais movimentado da capital catalã), matando 13 pessoas, vindas de nove países diferentes.

Nesse momento de dor, é bom lembrar como Barcelona e o mundo estão conectados e de quando essa relação começou. Foi nos Jogos Olímpicos de 1992, e essa amizade entre o planeta e os barceloneses já foi tema de um texto nosso, ainda na época do Outra Cidade. Vale dar uma relida.

[Galeria] Onde as pessoas se reúnem para protestar em cada cidade

Espaços públicos são mais que áreas de lazer e convivência dentro de cidades. Praças, parques e avenidas sempre foram importantes para as pessoas se reunirem e manifestarem sua vontade. Seja como demonstração de solidariedade após uma tragédia a, mais comum, protestos contra determinada política pública ou contra a situação em geral de uma cidade ou país.

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Desde 2013, os brasileiros redescobriram essa vocação dos espaços públicos, desde os protestos contra o aumento da passagem de ônibus, que se transformou em manifestações contra os serviços públicos, contra a corrupção, contra a Copa do Mundo, contra o governo Dilma Rousseff e, mais recentemente, contra seu impeachment. A lei protege esse direito a manifestação, ainda que essa seja uma questão polêmica dentro de setores da sociedade brasileira.

Veja abaixo como praças e avenidas tiveram papel importante em diversos momentos de insatisfação popular pelo Brasil e pelo mundo:

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Era para ser um tema olímpico, virou ícone da nova Barcelona

Os Jogos Olímpicos são muito ligados às cidades em que eles são realizados. Ainda assim, é raro encontrar alguma música-tema olímpica que tenha marcado como ícone de suas sedes (na verdade, é raro alguma música-tema ficar marcada como qualquer coisa, ou você se lembra do hino de Sydney-2000 ou Atenas-2004?). Para encontrar alguma canção olímpica que acabou vinculada a um lugar, temos de voltar mais de 20 anos.

“Amigos para Siempre” virou tema quase obrigatório de festas de formatura e tem letra para lá de grudenta. Mas ela conseguiu criar uma conexão forte com Jogos de 1992 e o que eles representaram para Barcelona. O tema foi tocado na cerimônia de encerramento, com um dueto formado por Sarah Brightman e José Carreras, e virou trilha sonora de tudo quanto é clipe mostrando os grandes momentos daquela Olimpíada (até mais que outro hino do evento, “Barcelona”, interpretado por Freddie Mercury e Montserrat Caballè).

A música composta por Andrew Lloyd Webber e Don Black fala da despedida de amigos, uma amizade que a cidade de Barcelona estabelecia com o resto do mundo e que não deveria durar apenas um verão. Era essa a grande missão daquela Olimpíada: colocar a capital catalã como um dos grandes centros culturais e turísticos do planeta. Por mais grudenta e clichê que tenha se transformado, “Amigos para Siempre” simboliza esse momento.

Obs.: a letra original, com tradução em português, está aqui.

Texto publicado originalmente para a newsletter do Outra Cidade. Para assiná-la, clique aqui.

Barcelona acaba com estacionamento gratuito durante pico das férias

Não há mais época barata para estacionar o carro em Barcelona. A prefeitura da capital catalã aprovou a extensão do sistema de zona azul e zona verde para todo o ano. Com isso, acabou com a tradição de liberar todas as vagas nas ruas da cidade em agosto, época de mais movimento de turistas devido às férias de verão no hemisfério norte.

A prefeita Ada Colau tomou a atitude para as pessoas – moradores e turistas – a se deslocarem a pé, de transporte público ou de bicicleta. Ao incentivar esses meios de locomoção durante o mês de maior movimento, as autoridades acreditam que terão mais chances de atingir a meta de reduzir em 21% o uso de automóveis privados definida pelo Plano de Mobilidade Urbana de 2013 a 2018.

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Outra benefício da medida é para quem já tem carro na cidade. Em Barcelona, as ruas são definidas como zonas azul ou verde. A verde é mais recorrente em bairros residenciais. Elas são restritas para moradores da própria região. Outras pessoas precisam pagar e só podem deixar o veículo por duas horas. No entanto, as suas se tornam livres a qualquer um nos fins de semana e em agosto.

A zona azul se assemelha à xará brasileira: pode-se estacionar por tempo limitado de segunda a sexta e nas áreas de mais interesse turístico (centro da cidade e praias), também nos fins de semana e feriados. A diferença do modelo catalão é que a cobrança ocorre apenas das 9 às 14h e das 16 às 20h.

Zona azul em área comercial de El Prat, cidade na região metropolitana de Barcelona (Divulgação)

Zona azul em área comercial de El Prat, cidade na região metropolitana de Barcelona (Divulgação)

Em agosto, os moradores de Barcelona tinham dificuldade em encontrar vagas – lembrando que a liberação para parar na zona verde vale apenas para quem reside naquele mesmo bairro – devido à concorrência com os turistas por espaços. Com as restrições normais se estendendo para o mês de maior movimento turístico, a tendência é que mais vagas fiquem disponíveis.

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De acordo com os cálculos da prefeitura, são serão 39.593 vagas de zona verde na cidade, beneficiando 89.753 pessoas. Também serão atingidas as 9.787 vagas de zona azul.

Partido de oposição e algumas entidades ligadas à indústria do turismo reclamaram das medidas. Consideram que ela prejudicará os visitantes e os barceloneses que viajarão em agosto e deixarão seus carros nas ruas. No entanto, os moradores em geral – por terem mais vagas disponíveis – e sindicato de comerciantes – pela rotatividade que a limitação dos estacionamentos promovem – aprovam a medida.

Até idioma usado no comércio entrou na luta catalã por independência

Barcelona e Sevilla entrarão em campo, neste domingo (22), para disputar a final da Copa do Rei. Já imaginando que a torcida barcelonista aproveitaria a ocasião – que normalmente tem um representante da família real espanhola nas tribunas – para manifestar o desejo por independência da Catalunha, as autoridades proibiram a presença de bandeiras catalãs nas arquibancadas. Houve muita discussão e protestos, e, no final, a Justiça determinou que os torcedores tinham o direito de defender a separação de sua região. Foi mais um capítulo de uma disputa que tem sido cada vez mais acirrada, e que já atinge até pequenos comerciantes.

A crise econômica que atingiu a Espanha nos últimos anos aumentou o desejo de independência por parte dos catalães. O separatismo, uma ideia que tradicionalmente tem força na Catalunha, ganhou mais adesão após Madri aumentar impostos na rica região, usando esses recursos para equilibrar as contas de áreas menos desenvolvidas do país. A isso se somaram outras medidas para limitar o aumento de autonomia, que provocaram reação mais intensa da Generalitat, a administração regional. O caso mais evidente desse clima de animosidade foi a realização de um plebiscito pela independência à revelia do governo nacional.

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No meio desse processo, a Catalunha tem reforçado as políticas de identidade local. Uma delas é a obrigação dos comerciantes de terem informações públicas (cardápios, faixas, cartazes, avisos de promoção, catálogos, letreiro na fachada) em catalão. Quem não seguir a determinação tem de pagar multa. A lei existe há mais de uma década, mas nunca foi fiscalizada com força porque provoca muita polêmica, mesmo entre os locais.

Desde 1979, o espanhol e o catalão são reconhecidos como idiomas oficiais da região. Pela lei federal, as duas têm o mesmo status e, portanto, não se pode impor uma língua sobre a outra.  Isso colocaria as multas linguísticas como uma medida ilegal, pois dá ao idioma regional uma força maior que ao nacional. Afinal, não há previsão de punição caso uma loja faça o contrário e só anuncie seus produtos em catalão, ignorando o espanhol. No entanto, o governo da Catalunha – comandado pelo nacionalista Carles Puidgemont – tem ignorado esse fato e segue reforçando suas políticas. Em 2015, a arrecadação com as multas linguisticas foi 174% maior que no ano anterior, ritmo que segue aumentando nos primeiros meses de 2016.

A lei afeta diretamente o pequeno comerciante. A reforma de toda a linguagem visual de seu estabelecimento representa um investimento alto dentro de sua realidade financeira. Por isso, muitos têm preferido continuar pagando as multas, pois ainda sairia mais barato. Uma reportagem da The Economist apresentou o caso do dono de uma loja de móveis, que terá de pagar € 1.260 em multas linguísticas, mas seria obrigado a gastar € 18 mil para adequar seu comércio.

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Lojistas e lideranças políticas mais liberais têm contestado essa política. Além dos aspectos legais, ela até ignora uma questão prática: o idioma mais falado da região é o espanhol. Em 2013, uma pesquisa realizada pela própria Generalitat apontou que 55,1% dos moradores da Catalunha indicam o espanhol como sua primeira língua e 50,7% como a mais usada no dia a dia. O catalão fica com 31 e 36,3%. Na Grande Barcelona, onde há mais moradores nascidos em outras regiões e de turistas, o espanhol é a língua mais usada no dia a dia por 60% das pessoas.

A obrigatoriedade do catalão é colocada como forma de manter o idioma vivo e impedir que ele seja engolido pelo espanhol. Mas, com as multas linguísticas, acaba criando pressão econômica e política justamente sobre um elemento frágil em um país que vive crise: o pequeno comerciante. Ainda mais em uma cidade que recebe tantos turistas e que tem feito políticas urbanas para priorizar a mobilidade ativa e a melhoria e os calçadões.

Barcelona cria superquarteirões para ter mais áreas para pedestres

São cerca de 3 mil mortes ao ano causadas direta ou indiretamente pela (falta de) qualidade do ar, isso só na região metropolitana de Barcelona. Os números são da prefeitura e, considerando que Madri vive situação ainda pior, reforçam a necessidade dos espanhóis de criarem formas de reduzir a poluição em suas grandes cidades. Por isso, os barceloneses anunciaram nesta quarta (4) um plano ousado de remodelação de suas ruas.

São os superilles, nome em catalão para “superquarteirões”. A ideia é juntar blocos de nove quarteirões e transformá-lo em apenas um, formando um quadrado de 400 metros de cada lado. No interior deles, as ruas serão substituídas por calçadões, ciclovia, espaço de lazer e área verde. Carros e ônibus passarão pelas ruas externas desses blocos.

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O projeto prevê que 94% da área de vias dentro dos superquarteirões sejam destinadas a pedestres. A circulação de veículos motorizados será permitida, mas apenas para tráfego local (moradores, prestação de serviços e atendimentos de emergência) e com limite de velocidade em 10 km/h.

A restrição a veículos fará que as ruas que delimitam as superquadras tenham mais concentração de carros e ônibus. Para que o trânsito não se torne inviável, o plano envolve o investimento na melhoria da estrutura nesses corredores, sobretudo com o estabelecimento de uma nova rede de ônibus.

Esquema atual das quadras de Barcelona (à esquerda) e como ficarão os superquarteirões (à direita)

Esquema atual das quadras de Barcelona (à esquerda) e como ficarão os superquarteirões (à direita)

Nesse primeiro momento, serão criados apenas cinco superilles, todos em Eixample. O bairro – um dos mais movimentados de Barcelona – tem quadras regulares (veja aqui), facilitando o trabalho de aglutinação de blocos. Por isso, os estudos iniciais foram feitos em cima dessa região da capital catalã. A estimativa da prefeitura é que o custo de implementação dos cinco superquarteirões fique em € 1,7 milhão, mas todas as fases custariam em torno de € 10 milhões.

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O objetivo final é reduzir em 21% o uso de carros na cidade.  Com 120 mil veículos a menos nas ruas, a prefeitura acredita que seja possível reduzir a poluição e atingir as metas estabelecidas pela União Europeia para 2018.

Vida nas cidades faz Espanha estudar fim de parada de 3 horas para almoço

Sair do trabalho, ir para casa, almoçar com a família, tirar um cochilo e, enfim, voltar ao trabalho. Pessoas em outros lugares do mundo sonhariam em ter uma hora de almoço como a dos espanhóis, com parada estendida para permitir uma refeição em família e uma dormida no pico do calor vespertino. Uma tradição surgida em vilas na área rural do país, mas que há tempos já virou uma ficção nas grandes cidades. A ponto de já haver propostas de acabar com ela.

O tema ganhou força na última semana, quando o primeiro-ministro Mariano Rajoy incluiu a mudança da jornada de trabalho nas empresas espanhola no seu programa para as eleições de junho deste ano. Além disso, o líder do Partido Popular (centro-direita) propõe a mudança de fuso horário na Espanha, colocando o país dentro da mesma faixa de Portugal e Reino Unido. Como a chapa formada por PSOE e Ciudadanos (centro-esquerda) também havia colocado essa medida em sua proposta de campanha, os espanhóis estão muito próximos de ver o fim das duas ou três horas de almoço.

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Por mais que soe fantástico ter um intervalo tão grande no meio do trabalho, seus principais benefícios já se perderam nas grandes cidades. O trânsito e os compromissos profissionais e pessoais das pessoas diminuíram bastante a quantidade de famílias que conseguem aproveitar a hora do almoço para se reunir no meio do dia. Para muitos, mal dá tempo de ir e voltar para casa, quanto mais comer e cochilar. No final das contas, essas horas são usadas para resolver problemas (mesmo assim, com alcance limitado, pois o bancos, repartições e, dependendo da cidade, até o comércio também fecham) e comer fora.

Puerta de Europa, edifícios inclinados que viraram ícone de Madri

Puerta de Europa, edifícios inclinados que viraram ícone de Madri

A extensão da hora do almoço também tem efeito no final do dia, pois ela faz que a jornada de trabalho na Espanha termine às 19 ou 20h, duas horas mais tarde que no resto da Europa. Com isso, muitos pais precisam deixar seus filhos em creches particulares ou com alguma pessoa que cuide deles até mais tarde. Outros só chegam em casa depois que a criançada já foi dormir. A BBC fez uma boa reportagem com casos de espanhóis que sofrem por causa do horário de trabalho incomum.

A necessidade de conciliar o horário de trabalho com a vida pessoal virou até argumento de marketing. Em uma campanha lançada nesta terça, a cervejaria Heineken brinca com a dificuldade dos espanhóis de assistirem partidas de suas equipes na Champions League, principal competição de clubes do futebol mundial. Confira (vídeo em espanhol):

A mudança de fuso horário seria uma medida complementar. A Espanha utiliza um horário fora da realidade desde 1942, quando o ditador Francisco Franco adiantou os relógios do país em uma hora como um gesto de aliança com a Alemanha de Adolf Hitler. No entanto, o território espanhol está na mesma linha das Ilhas Britânicas e de Portugal, que estão uma hora atrás da Europa Central.

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Com esse fuso irreal, o auge do calor não ocorre ao meio dia, mas entre 13 e 14h. Além disso, amanhece e anoitece muito tarde no país, o que incentiva a adoção de jornadas que terminem às 19 ou 20h. Tanto que até há uma diferença de expressões no espanhol da Espanha e da América Latina: na Europa, se diz “oito da tarde”, e não “oito da noite”, versão mais corrente entre os latino-americanos.

No final da década passada, a Iberdrola, empresa de distribuição de gás e energia elétrica, decidiu mudar a jornada, fazendo seus funcionários entrarem às 7h15 e saindo às 15h. Houve aumento de horas trabalhadas, mas os empregados da empresa passaram a ter mais tempo livre para dedicar à vida pessoal.

Por mais romântica e charmosa seja a ideia da siesta, ela já foi engolida pelo cotidiano das grandes cidades. O que sobrou foi uma parada de almoço desproporcional que atrapalha mais que ajuda. Tanto que é uma das poucas coisas em que os partidos de direita e esquerda parecem concordar na Espanha.

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