Gernika se reconcilia com os descendentes dos homens que a destruíram há 80 anos

Dieprand von Richthofen e Karl-Benedikt von Moreau caminham pelas ruas de Gernika-Lumo ao lado de um amigo espanhol, Luis Iriondo Aurtenetxea. O fato dessa união acontecer significa muito. Os dois alemães são descendentes de aviadores responsáveis pelo ataque aéreo que destruiu a cidade basca, então conhecida pelo nome castelhano de Guernica, em 26 de abril de 1937. Iriondo é um dos sobreviventes.

O encontro foi retratado em ótima reportagem do jornal espanhol El País (aqui, em espanhol). No relato, Dieprand – sobrinho de Wolfram von Richtofen, comandante da operação – e Karl-Benedikt – sobrinho de Rudolf von Moreau, um dos líderes do ataque – contam como carregavam uma culpa pelo que seus familiares fizeram e como foram abraçados pela população de Gernika-Lumo, incluindo Iriondo, atualmente com 94 anos.

Curiosamente, Dieprand chega a comentar sobre o peso de carregar o sobrenome Von Richtofen, família nobre da Alemanha que tem tradição na aviação militar, com Manfred, o Barão Vermelho (um dos grandes aviadores da Primeira Guerra Mundial), e seu irmão Lothar, que participou da operação em Guernica. Ambos foram primos de Wolfram. No Brasil, o sobrenome ficou famoso após o assassinato de Manfred, sobrinho-neto do Barão Vermelho, por sua filha Suzane em 2002.

A visita dos alemães faz parte de uma série de eventos organizados pela prefeitura de Gernika-Lumo para lembrar os 80 anos do ataque que praticamente a destruiu. Em 1937, o local era considerado um centro de comunicações dos republicanos durante a Guerra Civil Espanhola. Assim, Francisco Franco, líder do exército nacionalista, recebeu ajuda de seus aliados Adolf Hitler e Benito Mussolini, que disponibilizaram as forças áereas de Alemanha e Itália para atacarem a cidade.

O número de vítimas não é conhecido até hoje, com versões que vão de 153 a 1.654. O massacre motivou o pintor Pablo Picasso, então radicado na França, a pintar Guernica, uma de suas obras mais famosas. O quadro excursionou pela Europa, arrecadando dinheiro para ajudar as tropas republicanas e refugiados espanhois (após a vitória franquista).

O quadro ficou em Nova York, e, a pedido do autor, só voltaria à Espanha quando uma república democrática fosse restabelecida. Com a morte de Franco, em 1975, o país se tornou democrático, mas sob uma monarquia. Não eram exatamente as condições estabelecidas por Picasso (que havia morrido em 1973), mas foi o suficiente para surgir uma campanha pelo retorno do quadro à solo espanhol, o que ocorreu em 1981. Hoje, a obra está no Museu Reina Sofia, em Madri.

Abaixo, um vídeo colocando em três dimensões as figuras de Guernica.

Muro cinza no Beco do Batman é sinal de como falta diálogo para resolver atritos na cidade

São Paulo é uma cidade que não sabe se ver como turística. Várias de suas características e locais têm apelo para visitantes de outras partes do Brasil ou estrangeiros, mas muitas vezes as autoridades e a própria população não dão a importância devida a isso. Assim, quando um dos muros do Beco do Batman apareceu todo cinza, logo se imaginou que mais um atrativo da capital paulista era apagado. Mas o caso era mais complicado.

A pintura não surgiu de um arroubo da prefeitura ou de um protesto contra o grafite. Foi uma resposta de João Batista da Silva, 70 anos, ao que considerava abusos que ocorriam na região. Como proprietário do imóvel onde está o muro, ele tinha o pleno direito de deixar o espaço com a linguagem visual que desejasse, fosse ela um grafite ou um paredão unicolor. Mas a atitude que tomou, da forma que tomou, evidenciou como o debate sobre o espaço público é feito muito mais na base da pancada do que da conversa.

Silva reclamava do barulho na região, da falta de respeito dos grafiteiros (um teria dito “Você tem que dar graças a Deus que não pinta sua casa. Nós pintamos para você”) e até que algumas pessoas organizariam passeios na região, falava alto, pulava o muro para fazer foto e ganhava dinheiro com isso, sem repassar nada aos moradores. O morador admitiu que estava com raiva no momento, e alguns de seus relatos podem até estarem mais fortes que o real, mas seu argumento merece consideração.

O Beco do Batman se transformou em um ponto turístico, sobretudo para o público que passou a reconhecer a capacidade e criatividade dos artistas de rua de São Paulo. Eu (alerta para opinião pessoal do blogueiro) defendo o direito à manifestação artístico e jamais apagaria os grafites que lá estavam, mas isso não pode ser colocado de modo unilateral. O dono do imóvel precisa ser consultado até como maneira de legitimar ainda mais aquela arte como uma manifestação que pertence à toda a comunidade. Do mesmo jeito, o morador não precisava ter se manifestado de forma tão agressiva (se não foi fisicamente agressiva, foi simbolicamente) para se fazer ouvir. E os defensores do grafite não podiam pichar o muro cinza para reclamar.

No final das contas, falta diálogo. As pessoas estão manifestando suas ideias com o fígado, impondo situações ao invés de buscar uma conversa. Depois da confusão, Silva concordou em ceder seu muro para os grafiteiros, mas em termos mais amigáveis (eventualmente com compensação financeira).

Talvez toda a confusão não tivesse ocorrido se os dois lados, artistas e morador, conversassem desde o começo. Mas esse mesmo cenário podemos ver para várias áreas de conflito na cidade, incluindo motoristas e pedestres, comerciantes e blocos de Carnaval e moradores e donos de casas noturnas.

Técnica de investigação criminal é usada para descobrir quem é Banksy

Banksy é um dos artistas urbanos mais conhecidos do mundo. Com grafites provocativos de tom social, sua obra já foi solicitada por diversas galerias de arte, exposições e até pelos produtores de Os Simpsons. Tudo isso sem que o mundo saiba qual a real identidade do inglês. O trabalho é feito anonimamente, muitas vezes sem aviso prévio e a possibilidade de flagrá-lo durante a execução.

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Para ter uma pista de quem é o cidadão por trás do artista, um grupo de cientistas da Universidade Queen Mary, de Londres, realizou um estudo baseado em perfil geográfico das obras de Banksy. No caso, identificou-se localização e época de cada obra, além de outros elementos que pudessem influenciar as manifestações do grafiteiro, para encontrar pontos “quentes”. Essas áreas poderiam apontar o local de moradia ou de trabalho, de onde se iniciaria uma investigação sobre possíveis “suspeitos” dentro dessa descrição.

No estudo da Queen Mary, os “pontos quentes” se concentraram em Londres e Bristol, com evidências que deram força para a tese que Banksy seria Robin Gunningham, apontado pelo jornal Mail on Sunday em 2008 como a identidade secreta do artista. As informações conhecidas sobre os diversos paradeiros de Gunningham coincidem com as manifestações de Banksy.

“Eu achei que acabaríamos levantando uma lista de dez suspeitos, avaliar todos e não apontar nenhum. Mas rapidamente ficou aparente que havia apenas um suspeito sério, e todos sabem quem é”, comentou o biólogo Steve Le Comber, um dos membros da equipe de pesquisadores. Ainda assim, o grupo não crava que Banksy seja Gunningham, apenas que um dos caminhos de investigação levou a essa conclusão. Outros métodos complementares seriam necessários antes de se fazer a afirmação.

Mas qual a importância de um estudo sobre a identidade de um artista que se mantém anônimo? Bem, os pesquisadores procuraram o cidadão por trás das obras de Banksy por curiosidade, mas também como uma maneira de se aprimorar o método de investigação por perfil geográfico.

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Esse tipo de estudo é aplicado em várias áreas, muitas delas de utilidade grande para a gestão de grandes cidades. Por exemplo, a polícia pode identificar padrões na ocorrência de crimes, tanto em localização quanto em método, e usar isso como ponto de partida para procurar os suspeitos. A secretaria municipal de saúde poderia identificar onde teve início um surto de alguma doença e até buscar os fatores que teriam ajudado no desenvolvimento desse foco. Os próprios pesquisadores mencionaram como possível aplicação a descoberta de evolução na tensão social em áreas, o que pode levar ao surgimento de um grupo terrorista.

Os advogados de Banksy tentaram impedir a publicação do estudo. Conseguiram ao menos olhá-lo antes, sob a alegação que precisavam saber como a pesquisa seria apresentada. Como o artista não assumiu sua identidade, ainda não se sabe se o “método aprimorado” teve sucesso.

Os grafites que mostram os heróis de verdade em uma cidade em guerra

O que é? Kabir Mokamel desistiu de seu mestrado em belas artes na Austrália para voltar a sua terra natal, o Afeganistão, e criar um movimento que tenta mudar a forma dos afegãos verem o mundo após décadas em guerra. E faz isso valorizando o trabalhador comum, os verdadeiros heróis de Cabul.

Os lordes da arte

O Afeganistão é um país que tem a guerra como parte quase constante em sua história. Pela localização geográfica, entre o Oriente Médio e o Sul da Ásia, entre a Ásia Central e o Oceano Índico, sempre esteve no meio do caminho expansionistas de diversos impérios da história. Foi ocupado ou atacado por persas, macedônios, partas, sassânidas, mongóis, britânicos, soviéticos e americanos. Com esse currículo, era natural que a cultura local colocasse líderes militares como os grandes heróis da nação. Mas, convenhamos, os reais heróis de uma nação constantemente em guerra são as pessoas comuns, que seguem trabalhando e resistindo a tudo.

Foi isso o que pensou Kabir Mokamel, afegão criado na Austrália que fazia seu mestrado em belas artes na Universidade Nacional, em Canberra, quando decidiu voltar a seu país. Ele achou que a arte de rua deveria tomar uma posição sobre como mudar o foco da sociedade afegã. “Ao longo da história do Afeganistão, só se fala nas pessoas que lutaram, tinham espadas, tinham armas. Queremos incluir algo a mais, como as pessoas que trabalham para melhorar a cidade e nossas vidas”, comentou em entrevista à agência Associated Press. “Isso afasta as pessoas dessa mentalidade de guerra e conflito.”

Kabir Mokamel, criador dos Art Lords (NBC News)
Kabir Mokamel, criador dos Art Lords (NBC News)

Para isso, ele criou o grupo Art Lords. Ao lado de dois outros amigos, ele usa os diversos muros de Cabul como tela para seus grafites. Muitas dessas estruturas foram construídas recentemente, como forma de separar áreas do governo e a elite do resto da cidade. Com os desenhos, os artistas passam uma mensagem, ainda colorem uma cidade ainda muito abalada pelas décadas de conflitos e ainda fazem um protesto silencioso por “violar” os muros de proteção das autoridades.

Os temas são sempre trabalhadores comuns com o a frase “Os Heróis da Minha Cidade”, complementado pelo profissional retratado. No paredão ao lado do prédio do serviço secreto, por exemplo, os personagens foram os coletores de lixo. No Ministério da Educação, a mensagem foi de protesto contra a corrupção.

Para integrar mais o trabalho com a população, os integrantes dos Art Lords convidam os pedestres que passarem pelos grafites a darem sua contribuição, nem que seja com poucas pinceladas. “Houve um estranhamento inicial para o trabalho dos Art Lords. Não há uma cultura de grafite e muitas pessoas nos abordavam em inglês, achando que éramos estrangeiros”, conta. “Quando explicamos o que fazíamos, ficavam animados e dávamos brochas para nos ajudar. Muitos ficavam tímidos, mas não paravam depois que começavam. Todo tipo de gente: crianças, trabalhadores comuns, policiais, pessoas a caminho da mesquita.”

Afegão passa com carrinho de mão em frente a grafite que homenageia seu trabalho (AP Photo/Rahmat Gul)
Afegão passa com carrinho de mão em frente a grafite que homenageia seu trabalho (AP Photo/Rahmat Gul)

Os Art Lords não aceitam doações de governos ou instituições. O plano do grupo é cobrir mais de 50 muros por Cabul e, para isso, eles pretendem convidar grafiteiros de todas as partes do mundo para contribuírem com o trabalho, ajudando com doações ou indo ao Afeganistão para também participar das obras.