A história do primeiro macarrão com molho de tomate de que se tem registro

“Os italianos só aprenderam a fazer massa depois de Marco Polo viajou à China, conheceu o prato e levou a receita a sua terra natal.” Não é raro ouvir essa versão para a origem do macarrão, mas é mentira. De fato, Marco Polo conheceu massa feita à base de arroz quando esteve no Oriente, mas tumbas etruscas de 400 a.C. já registram o preparo de massas na região que hoje é a Itália.

Sabendo disso, já dá para imaginar belos pratos de espaguete ou penne com molho de tomate no Império Romano, na Idade Média, na Florença renascentista. Mas… não, isso simplesmente não aconteceu. Por mais que seja impossível dissociar a cozinha italiana do molho de tomate, o ingrediente é recente de um ponto de vista histórico. Até porque, até o século 16, nenhum europeu sequer sabia que existiam tomates.

Quando estudamos a história da colonização das Américas, muito se fala de como espanhois e portugueses levaram ouro e outros metais preciosos para a Europa. Mas essa não era a única carga. Eles também carregavam vários animais e alimentos diferentes que encontraram no Novo Mundo. Em um período relativamente curto de tempo, a culinária europeia foi enriquecida com a chegada de ingredientes como tomate, batata, abacate, peru, milho, cacau, amendoim e abóbora.

Para ter uma ideia como esse fenômeno mudou o cenário nas cozinhas europeias, veja como pratos tradicionais têm como base um desses ingredientes americanos: fish & chips (Inglaterra), batata assada (Inglaterra), batata frita (Bélgica e França), polenta (Itália), batata rösti (Suíça), chocolate (Suíça, França e Bélgica), pà amb tomàquet (Catalunha) e bolo de batata (Alemanha), entre outros. 

Não se sabe exatamente quando o tomate foi levado à Europa. Versões creditam desde Cristóvão Colombo em 1493 a Hernán Cortés em 1521. A primeira parada foi a Espanha, mas o fruto estava na Itália em 1548, quando foi mencionado em uma mensagem entre dois funcionários da família Médici, de Florença.

Em princípio, os tomates eram usados de forma ornamental. Aos poucos foi incorporado ao cardápio, de diversas formas. Como molho, o registro mais antigo é do livro de receitas do chef do Rei da Espanha em 1692. Mas ainda demoraria para ele se unir a um macarrão.

O primeiro registro de uma massa italiana com molho de tomate é apenas de 1790. O chef Francesco Leonardi aproveitou sua experiência por toda a Europa – chegou a cozinhar para o Rei Luís 15, da França, e para a Imperatriz Catarina 2ª, da Rússia – para escrever uma grande obra sobre culinária. O “L’Apicio Moderno” (“apicio” era um livro de receitas do Império Romano) tem seis volumes e detalha como fazer pratos das mais diversas regiões da Itália.

No terceiro tomo está a receita do “macarrão à napolitana”, que tem como base molho de carne. No quarto volume, Leonardi aborda o “ragù de macarrão”. Ele dedica apenas duas linhas, sugerindo acrescentar o tomate à receita do macarrão à napolitana.

É assim, discreto e quase imperceptível, o primeiro registro de macarrão com molho de tomate. Claro, isso não significa que tenha sido inventado naquele momento, em 1790. Se Francesco Leonardi o incluiu em seu livro, significa que a receita já era adotada havia alguns anos em Nápoles. Ainda assim, é muito pouco tempo para uma combinação que hoje virou símbolo de uma das culinárias mais importantes do planeta.

Propaganda mexicana provoca Trump discutindo o que é a “América”

Donald Trump anunciou que vai mesmo construir um muro dividindo toda a fronteira EUA-México, uma atitude que o transformou em pessoa mais odiada pelos mexicanos. Entre uma piada aqui e uma revolta ali, a cervejaria Corona resolveu dar uma cutucada com classe.

A empresa fez um vídeo mostrando que o slogan da candidatura de Trump, “Vamos fazer a América grande de novo”, não faz sentido porque a América sempre foi grande. Que América? O continente todo, do Alasca à Terra do Fogo.

O vídeo é muito bem feito, mas, claro, levanta a discussão que é para a geografia o que a briga pelas Taça de Bolinhas ou pontos corridos x mata-mata é no futebol: afinal, os Estados Unidos têm direito a se chamar “América” ou não? E, como no caso das argumentações futebolísticas, não há uma razão clara.

O México se chama “Estados Unidos Mexicanos” e o Brasil se chamou “Estados Unidos do Brasil” (não chama mais, viu, Serra?). Pela mesma lógica, o país ao sul do Canadá pode dizer que “América” é o nome dele. É essa interpretação que eles usam, e é a mais comum em países de língua inglesa. Para diferenciar, o continente é chamado no plural – “the Americas” – ou por suas partes – “North America”, “Central America” ou “South America”.

No entanto, dá também para argumentar que América é o continente e que o nome “Estados Unidos da América” apenas descreve o fato que aqueles estados (originalmente as 13 colônias britânicas) estão unidos em uma nação e ficam na América. Essa é a interpretação mais comum na América Latina, incluindo o Brasil.

Ou seja, as duas possibilidades estão certas, mas cada uma faz mais sentido dependendo do idioma. Como normalmente estou conversando em português com um brasileiro, prefiro “América” para o continente e “Estados Unidos” para o país, mas ninguém precisa se matar por causa disso. Vamos aproveitar e curtir o vídeo da Corona e como moramos em um continente espetacular, tendo seu nome no singular ou no plural.