Gernika se reconcilia com os descendentes dos homens que a destruíram há 80 anos

Dieprand von Richthofen e Karl-Benedikt von Moreau caminham pelas ruas de Gernika-Lumo ao lado de um amigo espanhol, Luis Iriondo Aurtenetxea. O fato dessa união acontecer significa muito. Os dois alemães são descendentes de aviadores responsáveis pelo ataque aéreo que destruiu a cidade basca, então conhecida pelo nome castelhano de Guernica, em 26 de abril de 1937. Iriondo é um dos sobreviventes.

O encontro foi retratado em ótima reportagem do jornal espanhol El País (aqui, em espanhol). No relato, Dieprand – sobrinho de Wolfram von Richtofen, comandante da operação – e Karl-Benedikt – sobrinho de Rudolf von Moreau, um dos líderes do ataque – contam como carregavam uma culpa pelo que seus familiares fizeram e como foram abraçados pela população de Gernika-Lumo, incluindo Iriondo, atualmente com 94 anos.

Curiosamente, Dieprand chega a comentar sobre o peso de carregar o sobrenome Von Richtofen, família nobre da Alemanha que tem tradição na aviação militar, com Manfred, o Barão Vermelho (um dos grandes aviadores da Primeira Guerra Mundial), e seu irmão Lothar, que participou da operação em Guernica. Ambos foram primos de Wolfram. No Brasil, o sobrenome ficou famoso após o assassinato de Manfred, sobrinho-neto do Barão Vermelho, por sua filha Suzane em 2002.

A visita dos alemães faz parte de uma série de eventos organizados pela prefeitura de Gernika-Lumo para lembrar os 80 anos do ataque que praticamente a destruiu. Em 1937, o local era considerado um centro de comunicações dos republicanos durante a Guerra Civil Espanhola. Assim, Francisco Franco, líder do exército nacionalista, recebeu ajuda de seus aliados Adolf Hitler e Benito Mussolini, que disponibilizaram as forças áereas de Alemanha e Itália para atacarem a cidade.

O número de vítimas não é conhecido até hoje, com versões que vão de 153 a 1.654. O massacre motivou o pintor Pablo Picasso, então radicado na França, a pintar Guernica, uma de suas obras mais famosas. O quadro excursionou pela Europa, arrecadando dinheiro para ajudar as tropas republicanas e refugiados espanhois (após a vitória franquista).

O quadro ficou em Nova York, e, a pedido do autor, só voltaria à Espanha quando uma república democrática fosse restabelecida. Com a morte de Franco, em 1975, o país se tornou democrático, mas sob uma monarquia. Não eram exatamente as condições estabelecidas por Picasso (que havia morrido em 1973), mas foi o suficiente para surgir uma campanha pelo retorno do quadro à solo espanhol, o que ocorreu em 1981. Hoje, a obra está no Museu Reina Sofia, em Madri.

Abaixo, um vídeo colocando em três dimensões as figuras de Guernica.

Crescem casos de bullying contra alunos judeus nas escolas alemãs

School children attend a religious ceremony and observe a minute of silence at the Jewish school Kerem Menahen in Nice

A cada ano, uma média de dez estudantes judeus pedem transferência na Alemanha, deixando a rede pública para ingressar em alguma escola judaica privada. O motivo: bullying. Esse número se sustenta nos últimos anos, e reflete um perigoso crescimento nos casos de antissemitismo nas instituições de ensino alemãs.

A maior parte dos responsáveis pelos ataques seriam colegas de origem árabe e turca (mas nenhum caso registrado de refugiado, diga-se). O tema ficou particularmente preocupante porque, na última semana, até uma escola de Berlim que participa de um projeto contra o racismo no sistema educacional alemão acabou envolvida após a saída de um aluno judeu de 14 anos.

Como esta sexta (7) foi Dia Nacional de Combate ao Bullying, fiz uma nota com mais detalhes sobre esse caso no site da Gestão Escolar.

Por que é tão ofensivo cantar os versos antigos do hino da Alemanha

Era para ser apenas mais um jogo da Fed Cup, a competição feminina entre nações do tênis. A alemã Andrea Petkovic ia enfrentar a norte-americana Alison Riske na abertura da série, realizada em Lahaina, no Havaí. No momento dos hinos, o solista e professor universitário Will Kimble foi ao centro da quadra e começou a cantar: “Deutschland, Deutschland über alles, Über alles in der Welt”.

Erro de hino antes de uma competição esportiva não chega a ser novidade. Na Copa do Mundo de 1986, os mexicanos trocaram o hino brasileiro pelo Hino à Bandeira antes de Brasil x Espanha. Trinta anos depois, os americanos colocaram o hino do chileno no lugar do uruguaio antes de um Uruguai x México na Copa América Centenário.

Mas o caso alemão é pior. Não é apenas uma troca de uma música por outra, por mais inconveniente que isso seja, mas trazer à tona uma letra que virou um símbolo do nazismo – e até hoje é cantada por grupos extremistas no país.

O hino alemão foi composto por Joseph Haydn em 1797 para o aniversário do Imperador Francisco II, último líder do Sacro Império Romano-Germânico. Na década de 1840, o império estava ruindo, mas o movimento de unificação das nações germânicas ganhava força. August Hoffmann compôs uma nova letra, enfatizando justamente essa ideia de que uma união era mais importante do que qualquer coisa. A música começava com o “Deutschland, Deutschland über alles, Über alles in der Welt”, ou “Alemanha, Alemanha acima de tudo, Acima de tudo no mundo”.

A versão de Hoffmann, Deutschlandlied, era composta por três estrofes. Com a unificação alemã, ela foi ganhando força aos poucos e passou a ser adotada em algumas cerimônias oficiais. Em 1922, foi confirmada como o hino alemão.

Na década seguinte, Adolf Hitler chegou ao poder com um discurso fortemente nacionalista. Eventos oficiais eram constantes, sempre marcados pelo hino alemão – tocado só em seu primeiro trecho (o “Deutschland über alles”) – seguido pelo hino do Partido Nacional-Socialista (“Horts-Wessel-Lied”, uma música hoje proibida na Alemanha). De repente, o “Alemanha acima de tudo, acima de tudo no mundo” ganhou um novo significado, muito mais sinistro do que o de uma nação que queria se formar a partir de pequenos estados.

Com o final da Segunda Guerra Mundial e a queda do nazismo, a Alemanha foi dividida. O lado oriental, comandado pela União Soviética, criou um novo hino, mas o ocidental, sob administração anglo-franco-americana, ficou um período sem uma canção nacional. Em 1952, foi aceita a proposta de usar a Deutschlandlied, mas mantendo apenas a melodia e o terceira parte, quase desconhecido na época. Ele começa com “Einigkeit und Recht und Freiheit” (“Unidade e Justiça e liberdade”), palavras que se tornaram um lema não-oficial do país.

Formalmente, os versos iniciais do hino não haviam sido banidos, mas eram rejeitados pela relação com o nazismo. Em 1991, quando a Alemanha se reunificou, foi confirmado que apenas a terceira parte fazia parte do hino do país. As duas primeiros foram retirados.

Não é difícil encontrar na internet a versão antiga do hino alemão, com o trecho vinculado ao nazismo. Em vários casos, aparece como “o hino completo”, mas é um erro de informação. O hino completo, desde 1991, é formado apenas pelo trecho que se inicia com “Einigkeit und Recht und Freiheit”. As demais partes não são reconhecidas e sofrem rejeição pela maioria dos alemães pelo que representam. Até porque são constantemente entoadas em manifestações neonazistas no país.

Por isso, quando o antigo hino começou a ser cantado antes do jogo da Fed Cup, a delegação e torcedores da Alemanha começaram a cantar quase gritando a versão correta, tentando abafar o cantor. Não era apenas corrigir um erro, mas responder a uma ofensa.

Um hino com história parecida com a Deutschlandlied é a Marcha Real. O hino da Espanha nunca teve letra oficial, mas várias versões foram propostas ao longo dos séculos. Uma delas recebeu a aprovação do General Francisco Franco e foi adotada em várias cerimônias durante sua ditadura. Com sua morte, o hino espanhol voltou a não ter letra (um dos únicos do mundo nessa condição, ao lado de San Marino) e recuperar os versos antigos é quase que uma manifestação de aprovação ao antigo regime. E, claro, também houve uma gafe com ele em um evento esportivo. No caso, durante a premiação de Caroline Marín no Mundial de Badminton na Indonésia, em 2015.

Obra de aeroporto atrasa sete anos e custará o triplo do programado. Na Alemanha

Primeiro, foi o projeto mal feito do sistema de segurança contra incêndio. Depois, o ar condicionado era fraco demais e não havia balcões de chack ins de bagagens suficientes. Agora, são as mais de mil portas automáticas que precisam ser recolocadas para fechar adequadamente. E, de problema idiota em problema idiota, o novo aeroporto internacional de Berlim vai se tornando um grande mico.

Apesar de todos os investimentos que recebeu nas últimas décadas para se mostrar como uma metrópole moderna e cosmopolita, a capital alemã ainda vive com mutia defasagem em um de seus portões de entrada. O aeroporto internacional de Tegel tem boa parte de sua estrutura ainda da época da Guerra Fria, quando servia a Berlim Ocidental. Corredores são estreitos, a circulação é ruim e há pouco espaço para diversos serviços. O Schönefeld está sendo ampliado, mas não tem tamanho para receber voos de grande porte.

O plano de construir um novo aeroporto internacional começou com a reunificação alemã, mas apenas seu planejamento levou 15 anos. Em 2006, foi anunciada a construção do Aeroporto Internacional Willy Brandt, conhecido popularmente como Berlim Brandenburgo. Ele teria capacidade para 27 milhões de passageiros por ano, 10 mil vagas de estacionamento e sairia do chão a um custo de € 2,5 bilhões. A obra seria entregue aos berlinenses em outubro de 2011.

Desde então, tudo deu errado, em uma sequência de erros que parece mais a história de várias obras públicas brasileiras. Houve de problemas de projeto a suspeita de corrupção, passando até pela contratação de pessoas sem qualificação adequada para o serviço. 

O resultado disso são os esperados: com a descoberta do problema nas portas automáticas – que não fecham direito e, por isso, não oferecem segurança em caso de incêndio -, a conclusão das obras foi adiada mais uma vez, para 2018, e o custo está oficialmente em € 6,8 bilhões. No entanto, técnicos já estimam que a inauguração só deve ocorrer no final de 2019 e o custo real ficará em, no mínimo, € 8 bilhões, mais que o triplo do prometido.

O prejuízo não está apenas no atraso e no aumento de custo. Está também no bloqueio de outras iniciativas. O Tegel deveria ser desativado em 2012, dando lugar a uma universidade e edifícios residenciais, além de deixar espaço para projetos que ainda seriam definidos. Uma medida importante para um aeroporto que está sendo engolido pelo crescimento da cidade.

Mas o Tegel se arrasta, claramente ultrapassando sua vida útil. Tudo porque os alemães estão conseguindo fazer tudo errado ao construir um aeroporto à altura de sua capital. Se tudo o que ocorre no Brasil o motiva a dizer, de brincadeira, “7 a 1 foi pouco”, talvez seja a hora de dizer que foi muito.

Falta de equipamento fará Berlim voltar a usar metrô dos anos 50

“Dora.” É dessa forma como os berlinenses apelidaram carinhosamente os trens da Série D de seu metrô. Eles circularam pelo lado ocidental da cidade na década de 1950, transformando-se em um dos símbolos da Alemanha dividida em duas durante a Guerra Fria. As composições estão fora de uso há décadas, mas os adeptos da nostalgia da Berlim do século 20 poderão ter um pouco da experiência da época. A administração do sistema decidiu reformar e recolocar três unidades em operação.

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Por incrível que pareça, o motivo para a revitalização das Doras é econômico. A BVG (empresa que administra o transporte público na capital alemã) queria aumentar a quantidade de veículos em serviço, mas qualquer euro economizado seria bem-vindo. Com a falta de oferta de material rodante (conjunto de equipamentos que faz um trem se locomover), perceberam que saía mais em conta recuperar as composições da Série D que estavam ociosas do que comprar novas.

Para dar mais sentido à medida, a BVG foi criativa. As Doras renovadas serão designadas para circular na U55, uma linha de apenas três estações, ligando a principal estação de trem com o Portão de Brandemburgo. A U55 foi idealizada na reunificação de Berlim, mas jamais foi concluída devido a problemas financeiros. Com isso, ela tem pouca utilidade na malha metroviária e acaba recebendo mais turistas que locais. Colocando composições antigas em seus trilhos, ao menos reforça a vocação turística desse trecho.

De qualquer modo, a revitalização da Série D é temporária. As obras de extensão da U55 devem ser retomadas em 2020 e novos trens seriam comprados.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

Uma balada ou uma conversa de uma cidade dividida?

É fácil pensar em uma trilha sonora para a queda do Muro de Berlim. Era final da década de 1980, a banda Scorpions estava no auge da fama, é alemã e tinha acabado de lançar um single que falava da reabertura política do Leste Europeu. Ainda que “Wind of Change” se refira mais claramente à glasnost e à perestroika na União Soviética (Moscou e o Parque Gorki são citados logo no primeiro verso), ela se transformou em um hino da reunificação alemã.

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No entanto, os Scorpions já tinham chamado a atenção por falar sobre as duas Alemanhas. Ou talvez não tinham. Um dos grandes sucessos da banda de hard rock foi “Still Loving You”. A balada é bastante grudenta, mas ficou nas primeiras posições nas paradas europeias (nos Estados Unidos, a aceitação do público foi mais discreta) em 1984. A letra é sobre uma pessoa que tenta retomar o relacionamento com um antigo amor.

Certos elementos da letra permitem claramente uma leitura diferente, como se fosse um lado de Berlim ou da Alemanha tentando reatar com o outro. Passagens como “seu orgulho construiu uma barreira* [NR: A palavra usada na versão original, em inglês, é “wall”, a mesma para “muro”] tão forte que não consigo atravessar” e “Algum dia poderá derrubar as barreiras*”. Integrantes dos Scorpions deram declarações dizendo que a música é apenas uma canção de amor, mas muitos fãs não acreditam que a banda não perceberia o sentido duplo do termo “barreira/muro”, ainda mais na Alemanha dos anos 80. Por isso, “Still Loving You” ainda é vista por algumas pessoas como uma música sobre a Berlim dividida, mesmo que talvez a referência seja falsa.

Confira abaixo o clipe de “Still Loving You”, dos Scorpions (aqui a letra com tradução):

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Por que Paris e Frankfurt estão de olho na saída do Reino Unido da UE

Os números são astronômicos. A produção anual é de US$ 255 bilhões, gerando US$ 97 bilhões em impostos. No comércio de câmbio, são cerca de US$ 1 trilhão (isso mesmo, com “tr”) trocando de mãos por dia. Há vários outros exemplos, sempre com muitos zeros à direita. Esse é o tamanho do mercado de serviços financeiros de Londres, disparado o mais robusto da Europa e um dos maiores do mundo. Um gigantismo que pode sofrer abalos a partir desta quinta (23), depende apenas da opinião dos cidadãos britânicos.

O Reino Unido irá às urnas decidir se fica ou sai da União Europeia, o Brexit (abreviação de “British Exit”, “saída britânica”). As pesquisas mostram um equilíbrio maior que esperado, e cresce a preocupação dos bancos sobre o efeito disso. Afinal, Londres se tornou essa potência no setor bancário pela tradição e solidez de suas instituições centenárias, mas ela ganhou mais impulso quando se estabeleceu como capital financeira informal da Europa unificada.

Para uma empresa financeira trabalhar em todo o Espaço Econômico Europeu a partir de Londres, precisa ter a autorização de agências reguladoras britânicas, que concede uma permissão chamada de “passporting rights” (algo como “direitos de passaporte”). Esse mecanismo atrai vários bancos com sede fora da UE, como o JP Morgan Chase (americano), o Credit Suisse (suíço) e o Nomura (japonês). Todos estabeleceram um escritório na capital inglesa e comandam de lá suas operações no continente.

O problema é que, se o Reino Unido deixar a União Europeia, há uma boa chance de o passporting acabar. Afinal, os outros países da UE dificilmente abririam uma excessão aos britânicos, mantendo alguns dos privilégios de um membro do grupo. Afinal, isso poderia incentivar outras nações a deixarem o bloco.

Se isso ocorrer, vários bancos já disseram que reduzirão suas operações em Londres. O JP Morgan pode mudar-se para outra cidade. O Morgan Stanley e o Citigroup ameaçaram reduzir suas equipe na capital inglesa para deslocar certas áreas para algum país da UE.

Essa possibilidade já deixou algumas cidades com água na boca. A primeira a se pronunciar fortemente foi Paris. O vice-prefeito parisiense, Jean-Louis Missika, já disse que estende o tapete vermelho para qualquer empresa que se interessar em mudar suas operações para lá. A capital francesa tem a vantagem de ter uma posição central na Europa, ser uma metrópole global e servir como atrativo para funcionários de cargos altos e clientes. O HSBC já informou que realocaria mil postos de trabalho para a França caso o Brexit seja aprovado.

Frankfurt também aparece com força. A cidade alemã tem a vantagem de já sediar representações de vários bancos por ser sede do Banco Central Europeu e a capital financeira do país mais rico da UE. Além disso, também tem uma posição central no continente. No entanto, não se trata de uma megalópole global, mas uma metrópole regional de 2,2 milhões de habitantes em sua área urbana. O mercado imobiliário e a rede de transportes teriam dificuldade de absorver um afluxo grande de corporações e talvez não fosse o destino mais apetitoso para altos executivos.

Quem corre por fora na briga é Dublin. A Irlanda tem a seu favor o fato de ser um país de língua inglesa – para uma empresa que pretende transferir sua sede, seria uma mudança muito mais suave – e ter impostos mais baixos que França e Alemanha. O Citigroup já definiu que a capital irlandesa seria sede de suas operações europeias caso o Reino Unido deixe a UE.

O fato de três cidades estarem brigando e de instituições já terem demonstrado preferência por locais diferentes dão a entender que o brexit poderia descentralizar o mercado financeiro europeu. Cada banco poderia migrar para um lugar diferente, talvez com uma ou outra metrópole tendo um pouco mais de destaque. E é por esse posto que muita gente já está brigando. Seriam muitos bilhões de euros em busca de uma nova casa.

Cachorros precisarão de licença para passearem sem coleira em Berlim

A Alemanha tem uma população canina de quase 7 milhões, quase um a cada dez seres humanos. E, ao menos em Berlim, alguns desses seres humanos terão de lidar com mais burocracia se quiserem manter o saudável hábito de passear com o seu cão. Na última semana, a câmara dos vereadores da capital alemã aprovou uma lei que obriga os donos de cachorros a terem uma licença para provar que seus animais são educados se quiserem andar sem coleira.

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A hundeführerschein – que foi traduzida como “carteira de motorista para cachorros” pela imprensa de língua inglesa, mas também pode ser lida como “licença de condutores de cães”, o que faria mais sentido – prevê que os novos cachorros com menos de 30 cm de altura tenham de possuir uma permissão para passear sem coleira. Para obtê-la, o dono terá de comprovar que o animal é bem comportado e obediente. Se o bicho de estimação for grande, com mais de 30 cm, nem adianta fazer cara de triste com as orelhas abaixadas ou abanar o rabo para mostrar-se amigável: a coleira é obrigatória.

As autoridades querem controlar um pouco os efeitos de tantos cachorros – são cerca de 100 mil – em Berlim. Na capital alemã, é comum uma pessoa levar seu cão para diversos lugares, de café ao transporte público. Isso pode criar inconvenientes na interação dos animais com humanos desconhecidos e muita sujeira pelas ruas da cidade. Por isso, ter um bicho de estimação pode ser bastante custoso para um berlinense. A prefeitura estabelece que o dono de um cão tem de pagar uma taxa de € 100 para ter o animal e uma anual de € 40, relativa à limpeza das ruas.

LEIA: Alemanha gerou tanta energia limpa que pagou para que a usassem

A lei não teve recepção muito calorosa dos donos de cachorros. Não apenas pelas restrições, que consideram discriminatórias, mas por burocratizar ainda mais o processo. Além disso, há desconfiança de que dificilmente haverá fiscalização suficiente sobre o uso ou não da coleira, sobretudo nos parques da cidade.

Alemanha gerou tanta energia limpa que pagou para que a usassem

Uma hora da tarde em durante o fim de semana é um dos momentos em que menos se consome energia elétrica durante a semana. Mas alguns alemães que faziam isso no último domingo tiveram uma boa notícia: gastar energia foi lucrativo. Tudo porque, perto da hora do almoço, o país teve um momento que uniu sol e ventos fortes.

FAÇA VOCÊ MESMO: Veja quanta energia solar você pode gerar (e quanto ganharia com isso)

O clima criou uma condição extraordinária para as usinas de energia eólica e solar. Houve um pico de produção e o sistema recebeu 55 GW de energia renovável – que ainda considera produção hidrelétrica e biomassa –, 87% dos 63 GW que eram consumidos no país naquele momento. Com o excesso de oferta e a falta de procura, o preço da energia despencou durante quase toda a tarde, chegando a valores negativos. Ou seja, o gerenciador do sistema pagou para a energia ser utilizada.

Flutuação de geração, consumo e preço da energia no fim de semana na Alemanha (Quartz/Agora Energiewende)
Flutuação de geração, consumo e preço da energia no fim de semana na Alemanha (Quartz/Agora Energiewende)

Parece uma ótima notícia: a produção de energia limpa é forte e o custo flutuante da energia funcionou ao ponto de ficar negativo quando houve pico de oferta. Mas não é bem assim. O estranho fenômeno do último domingo expõe alguns ajustes que o sistema precisa.

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De fato, a Alemanha tem bons motivos para se orgulhar de seu estágio no desenvolvimento sustentável. Em 2015, os alemães tiveram recorde de produção e exportação de energia renovável. Cerca de 33% da eletricidade consumida no país veio de fontes limpas e o preço do quilowatt/hora teve queda média de 10%. A meta do governo é que 100% da energia seja renovável até 2050.

Manifestação do Greenpeace em favor de energia limpa diante do Portão de Brandemburgo, em Berlim (AP Photo/Michael Sohn)
Manifestação do Greenpeace em favor de energia limpa diante do Portão de Brandemburgo, em Berlim (AP Photo/Michael Sohn)

O problema é que o sistema ainda não é flexível. Usinas de gás conseguem reduzir ou interromper bruscamente sua produção durante uma alta repentina de energia renovável, mas outras fontes “tradicionais”, como nuclear e carvão, não têm a mesma capacidade. Com isso, elas seguem sua operação normal, mantendo o consumo de recursos naturais e criando superoferta de energia no mercado – que acabou levando ao preço negativo.

Outro lado ruim é que o usuário comum não tem a conta de luz condicionada às flutuações do preço da energia. Para ele, a baixa repentina do último domingo teve efeito muito pequeno. Os principais beneficiados foram as indústrias.

Fica para o próximo dia de sol e vento forte.

Alemães criam semáforo no chão para quem anda na rua olhando celular

Existem algumas coisas que todos nós sabemos que são erradas, mas fazemos. Fazemos porque não conseguimos evitar, porque achamos que não causa grandes problemas, porque provavelmente ninguém vai nos repreender. Talvez vocês tenham pensado em infrações das mais diversas (e talvez nem tão inofensivas assim, estamos de olho!), mas eu me referia a andar na rua olhando o celular.

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Só o vício das pessoas por estar com pressa mesmo quando não deveria, somado ao vício por atualizar o aplicativo do Facebook mesmo quando se sabe que há 99% de chance de nada de novo ter pintado desde a última atualização, 20 segundos antes, explica como tanta gente (leia-se “quase todo mundo”) faz isso algumas vezes. Tentando se adaptar ao novo mundo e mostrar compreensão com essas pessoas, a prefeitura de Augsburg, cidade no sul da Alemanha, implementou uma espécie de semáforo específico para quem está olhando mais para o celular do que para a rua.

A ideia foi implementada em caráter experimental em duas estações de bonde da cidade. No local em que a calçada/plataforma termina e começa o caminho dos elétricos, há uma série de pequenas lâmpadas de LED no chão. Elas piscam a luz vermelha ou verde, indicando para o pedestre se há ou não algum veículo passando.

Luzes no chão para alertar pedestres que estão olhando o celular na estação de bonde (Divulgação / SWA / Thomas Hosemann)
Luzes no chão para alertar pedestres que estão olhando o celular na estação de bonde (Divulgação / SWA / Thomas Hosemann)

O princípio soa interessante, mas muita gente fica tão compenetrada no celular que é capaz de não perceber que há luzes vermelhas piscando em sua visão periférica. Além disso, não deixa de ser um incentivo para as pessoas continuarem andando na rua olhando o smartphone. Mas, vá lá, talvez esse seja um mal incurável dos nossos tempos e assumir logo a derrota seria o melhor caminho.