ONU adota resolução histórica para proteger patrimônio cultural

Destruição do partimônio cultural em Palmira, Síria (Unesco/Francesco Bandarin)
Destruição do partimônio cultural em Palmira, Síria (Unesco/Francesco Bandarin)

O Conselho de Segurança da ONU aprovou, no último dia 24, a sua primeira resolução sobre a proteção do patrimônio cultural em conflitos armados. O documento, adotado por unanimidade, encoraja a criação de uma “rede de locais seguros” nos países de origem desse patrimônio.

Veja a nota completa na Nova Escola

Veja como é a chuva de bombardeios de drones americanos no Paquistão

Barack Obama está em seu último dia como presidente dos Estados Unidos. Foram oito anos no poder, com uma política externa de altos e baixos, que deve ficar marcada pela retomada das relações diplomáticas com Cuba, a morte de Osama bin Laden, o acordo nuclear com o Irã e o Prêmio Nobel da Paz que ele recebeu, mas que também teve a falta de habilidade de lidar com as consequências de movimentos político-militares resultantes da Primavera Árabe e os bombardeios com drones no Oriente Médio.

Essa última questão nem recebe tanta atenção nos debates aqui no Brasil, mas deveria. Os Estados Unidos têm usado sistematicamente drones para entrar e bombardear território estrangeiro. O objetivo é atacar eventuais focos terroristas (sobretudo Taliban e Al-Qaeda), mas esses ataques fazem muitas vítimas civis. As Nações Unidas já afirmaram que essas ações violam a soberania do país atacado e um relatório da Anistia Internacional expressa preocupação que se tratem de crimes de guerra.

A política dos bombardeios de drones surgiu em 2004, durante o governo de George W. Bush, mas se intensificou fortemente com Obama, sobretudo em seu primeiro mandato, entre 2009 e 2012, com pico no segundo semestre de 2010. Para mostrar isso, o CityLab montou um mapa com a linha do tempo dos ataques a drones no norte do Paquistão, próximo à fronteira com o Afeganistão (atenção: não é a região em que Bin Laden foi pego. O líder da Al-Qaeda estava em Abbottabad, ao norte de Islamabad).

Dá para ter uma ideia boa de como os bombardeios se intensificaram em um determinado período. Também é possível selecionar datas para ver o acumulado em um período (a imagem do alto da página, por exemplo, somou todos os ataques durante a era Obama).

A matéria do CityLab tem mais detalhes sobre o mapa e vale uma conferida. Se você quiser apenas uma versão maior do gráfico, clique aqui.

Em que ano estamos em cada calendário usado no mundo

Feliz 2017! Mas não estamos em 5777? Ou talvez em 4713? Quem sabe não estejamos comemorando o ano 29 da era atual? Boa parte do planeta adota o calendário gregoriano de uma forma ou outra, mas o ser humano criou centenas de formas de marcar datas ao longo da história. Algumas delas foram utilizadas por séculos, e algumas ainda são empregadas oficialmente por governos ou têm uso para situações específicas.

Há padrões dos mais diversos, tanto na definição do ponto de partida para a contagem do calendário quanto na divisão do ano em dias e meses. Em alguns calendários, como o islâmico, o ano não tem 365 dias. Outros até tem, mas o padrão para anos bissextos é diferente do que usamos na maior parte do Ocidente.

Então, veja em que ano estamos em alguns dos calendários mais importantes do mundo e como eles iniciaram sua contagem:

JUDAICO

Ano: 5777
Início da contagem: um ano antes do que seria a criação do mundo

ISLÂMICO

Ano: 1438
Início da contagem: fuga de Maomé de Meca para Medina

CHINÊS

Ano: 4713 
Início da contagem: início do reinado de Huang Di, conhecido como Imperador Amarelo. Há outras contagens adotadas, a mais usada nos coloca no ano 105 (a partir do início da República da China, versão adotada em Taiwan)

ETÍOPE

Ano: 2009
Início da contagem: nascimento de Jesus, mas com base em uma datação diferente da usada no calendário gregoriano

PERSA

Ano: 1395
Início da contagem: fuga de Maomé de Meca para Medina. Como o calendário persa é solar, o ano é mais longo que o islâmico (lunar), o que explica a diferença de datas mesmo tomando o mesmo ponto de partida

JAPONÊS

Ano: 29 da Era Heisei
Início da contagem: subida ao trono do imperador Akihito (“Heisei” é o nome da era correspondente ao atual imperador)

BENGALI

Ano: 1423
Início da contagem: início do reinado de Shashanka em Gauda (reino que unificou a região do atual Bangladesh e leste da Índia)

NORTE-COREANO

Ano: 105
Início da contagem: nascimento de Kim Il-Sung, líder da Coreia do Norte

ARMÊNIO

Ano: 1465
Início da contagem: cisão entre a Igreja Apostólica Armênia e a Igreja Católica Romana

TAILANDÊS

Ano: 2560
Início da contagem: morte de Buda

ASSÍRIO

Ano: 6766
Início da contagem: fundação da cidade de Assur

BÉRBERE

Ano: 2966
Início da contagem: subida de Shoshenk I (por ter origem líbia, seria o primeiro bérbere proeminente) ao posto de Faraó do Egito

BIZANTINO

Ano: 7525
Início da contagem: data estimada para a criação do mundo (entre os calendários mais importantes, é o que nos coloca em uma contagem mais alta de ano)

COPTA

Ano: 1733
Início da contagem: subida de Diocleciano ao trono romano (um marco de martírio, pois o imperador perseguiu muitos cristãos, sobretudo no Egito)

COREANO 

Ano: 4349
Início da contagem: início do período Gojoseon (uma das eras do Reino da Coreia). O calendário foi oficial da Coreia do Sul até 1961, quando foi substituído pelo gregoriano

JULIANO

Ano: 2016
Início da contagem: nascimento de Cristo. A diferença do calendário gregoriano é de apenas 13 dias. Ou seja, o Ano Novo está chegando

Que países não comemoram o Ano Novo em 1º de janeiro?

Dezembro está acabando, janeiro está começando, e bilhões de pessoas estão se envolvendo em algum tipo de evento (de festa a apenas fazer promessas) para a virada de ano. Estamos tão acostumados a ver a numeração do ano e a forma de dividir o calendário estar ligada à eventos religiosos que muitas vezes esquecemos como isso, no final das contas, é uma unidade de medida. E, como unidade de medida, quanto maior a padronização internacional, melhor.

A indústria norte-americana adota o sistema métrico ao lado do imperial, pois isso facilita o comércio internacional de seus produtos. Da mesma forma, ter datas uniformes reduz o risco de confusões na hora de empresas de diferentes países – ou unidades internacionais da mesma empresa – realizarem planejamento conjunto, firmar contratos ou mesmo alinhar a gestão.

Por isso, muitos países não católicos romanos acabaram adotando o calendário gregoriano de alguma forma. O último católico ortodoxo a manter o calendário justiniano foi a Grécia, que resistiu até 1923. Nações não-cristãs muitas vezes mantêm um calendário tradicional para eventos religiosos e o gregoriano para usos civis. 

Há ainda lugares em que o calendário ocidental é seguido na divisão de meses e semanas, mas a contagem do ano não toma como base o nascimento de Cristo. No Japão e em Taiwan, a contagem é por “eras”, ou o período em que cada imperador ou regime político esteve no poder. Na Coreia do Norte, o calendário tem início no nascimento do líder Kim Il-Sung, em 1912 (“juche 1” para os norte-coreanos).

Então, no final das contas, em que países este fim de semana não tem valor simbólico algum?

São poucos:

– Afeganistão, que usa o calendário iraniano e vira a folhinha em 21 de março do calendário gregoriano (20 de março em anos bissextos);
– Países árabes, que segue o calendário islâmico e celebra o Ano Novo em 1º de muharram. A data varia em relação a nosso calendário. O último caiu em 3 de outubro de 2016. O próximo será em 22 de setembro de 2017. Mas desde os últimos meses, o governo já começou a usar o calendário gregoriano para situações civis;
– Etiópia, que adota o calendário etíope e tem sua virada de ano em 11 de setembro (12 de setembro em anos bissextos);
– Irã, que, como é de se imaginar, também segue o calendário iraniano.

Nas nações acima, o calendário gregoriano não tem uso civil ou religioso e este fim de semana não representa nada em especial. Em outros lugares – como a maior parte das nações islâmicas, Israel, Índia, Bangladesh, Tailândia e China -, a grande celebração de Ano Novo se dá no calendário de suas culturas e/ou religiões, mas o calendário gregoriano tem validade civil e o 1º de janeiro também recebe importância simbólica. Em Israel, por exemplo, serve como um marco para a entrada em vigor de novas leis (1º de janeiro de 2017 será feriado, mas por coincidir com o oitavo – último – dia do Hanukkah).

Temporada do turismo cria pressão para refugiados em porto da Grécia

A Páscoa ortodoxa será comemorada neste domingo, 1º de maio. Normalmente, é uma data esperada ansiosamente em Pireu. O feriado tradicionalmente marca o início da temporada de cruzeiros, e milhares de visitantes chegam à cidade portuária como parada para as centenas de passeios por Atenas, ilhas gregas ou pelo Mediterrâneo. Mas em 2016 será diferente. Os turistas são bem-vindos, mas ainda não se sabe direito como recepcioná-los.

Pireu é vizinha a Atenas e tem o maior porto da Grécia. Com isso, seu porto deixou de ser apenas uma parada para cruzeiros e ponto de referência da maior marinha mercante do mundo. O local também se tornou o local de chegada de milhares de refugiados que tentam se afastar das guerras em seus países – principalmente Síria e Afeganistão – para reconstruir a vida na Europa. Durante meses, a cidade grega era uma passagem, mas, nas últimas semanas, se tornou em abrigo provisório.

VEJA TAMBÉM: Símbolo do nazismo se torna o maior campo de refugiados da Alemanha

Pela sua posição geográfica em relação ao Oriente Médio, a Grécia é um caminho natural desse ciclo migratório. Os refugiados chegam em terras gregas pensando em seguir o rumo para o norte, atravessando os Bálcãs até chegar à Alemanha. No entanto, essa rota foi interrompida nas últimas semanas. Bulgária, Macedônia e Albânia fecharam suas fronteiras para os imigrantes, que se viram presos na Grécia.

Rapidamente, a quantidade de refugiados em Atenas e Pireu se tornou maior do que as cidades podem acomodar, ainda mais considerando a situação econômica delicadíssima que vive a Grécia. Com isso, tendas foram erguidas no porto de Pireu, que se transformou em um campo de refugiados. Uma situação longe do ideal, em que há carência de serviços e até de segurança. Mas que pode ficar perto de insustentável com a chegada dos turistas.

O governo tem se mostrado compreensivo – ainda que visivelmente despreparado – com os refugiados e há elogios à solidariedade da maioria da população local (ainda que a crise também tenha impulsionado o crescimento do Alvorada Dourada, um partido de extrema-direita). Não houve grande pressão para impedir a chegada deles, tampouco forçar seu deslocamento.

Um elemento que ajuda os imigrantes é o próprio passado da Grécia. A Guerra Greco-Turca (1919 a 1922) foi marcada por limpeza étnica, resultando em milhares de mortes e um acordo de troca de população no final do conflito. Assim, 500 mil muçulmanos – de origem grega e turca – que viviam na Grécia foram enviados para a Turquia, que mandou 1,5 milhão de ortodoxos – de etnia grega ou turca. Assim, boa parte da população grega atual descende de pessoas que chegaram a sua própria terra como refugiadas e tiveram de reconstruir sua vida.

No entanto, as condições dos sírios e afegãos se deterioram. Há relatos de doenças, brigas (até com uso de facas) e fome. A falta de perspectivas também abaixa o ânimo dos refugiados, que não encontram muitas possibilidades de se inserir em um país que já vive uma crise econômica.

AFEGANISTÃO: Os grafites que mostram os heróis de verdade em uma cidade em guerra

Nesse cenário, oferecer boas condições para a chegada dos turistas não pode ser vista como uma ação fútil, inversão de prioridades ou ignorar o sofrimento de muita gente logo ao lado. Os visitantes injetam bilhões de euros na economia grega, o que representa um alívio para a enorme indústria de turismo local – o que pode até criar oportunidades de trabalho temporário para alguns refugiados.

Desde março as autoridades criam novos espaços para abrigar os refugiados. Os estádios de beisebol e hóquei na grama, dois elefantes brancos dos Jogos Olímpicos de 2004, já estão cheios de tendas. Mas muitos não querem sair do porto, com medo de serem deslocados para regiões afastadas de Atenas – onde estão as poucas oportunidades econômicas palpáveis – e de olho na infraestrutura de transportes, que ajudaria em uma rápida viagem ao norte caso Macedônia, Albânia ou Bulgária reabram suas fronteiras.

A meta do governo é que todos os refugiados de Pireu estejam abrigados em outros lugares da Grande Atenas até este domingo. Que isso não seja apenas – mais um – deslocamento, mas uma ida a locais com condições e oportunidades melhores.

Obs.: Se você se vira bem no inglês, confira essa reportagem do Guardian e essa do Huffington Post, mostrando o dia a dia de refugiados no porto de Pireu.

Os grafites que mostram os heróis de verdade em uma cidade em guerra

O que é? Kabir Mokamel desistiu de seu mestrado em belas artes na Austrália para voltar a sua terra natal, o Afeganistão, e criar um movimento que tenta mudar a forma dos afegãos verem o mundo após décadas em guerra. E faz isso valorizando o trabalhador comum, os verdadeiros heróis de Cabul.

Os lordes da arte

O Afeganistão é um país que tem a guerra como parte quase constante em sua história. Pela localização geográfica, entre o Oriente Médio e o Sul da Ásia, entre a Ásia Central e o Oceano Índico, sempre esteve no meio do caminho expansionistas de diversos impérios da história. Foi ocupado ou atacado por persas, macedônios, partas, sassânidas, mongóis, britânicos, soviéticos e americanos. Com esse currículo, era natural que a cultura local colocasse líderes militares como os grandes heróis da nação. Mas, convenhamos, os reais heróis de uma nação constantemente em guerra são as pessoas comuns, que seguem trabalhando e resistindo a tudo.

Foi isso o que pensou Kabir Mokamel, afegão criado na Austrália que fazia seu mestrado em belas artes na Universidade Nacional, em Canberra, quando decidiu voltar a seu país. Ele achou que a arte de rua deveria tomar uma posição sobre como mudar o foco da sociedade afegã. “Ao longo da história do Afeganistão, só se fala nas pessoas que lutaram, tinham espadas, tinham armas. Queremos incluir algo a mais, como as pessoas que trabalham para melhorar a cidade e nossas vidas”, comentou em entrevista à agência Associated Press. “Isso afasta as pessoas dessa mentalidade de guerra e conflito.”

Kabir Mokamel, criador dos Art Lords (NBC News)
Kabir Mokamel, criador dos Art Lords (NBC News)

Para isso, ele criou o grupo Art Lords. Ao lado de dois outros amigos, ele usa os diversos muros de Cabul como tela para seus grafites. Muitas dessas estruturas foram construídas recentemente, como forma de separar áreas do governo e a elite do resto da cidade. Com os desenhos, os artistas passam uma mensagem, ainda colorem uma cidade ainda muito abalada pelas décadas de conflitos e ainda fazem um protesto silencioso por “violar” os muros de proteção das autoridades.

Os temas são sempre trabalhadores comuns com o a frase “Os Heróis da Minha Cidade”, complementado pelo profissional retratado. No paredão ao lado do prédio do serviço secreto, por exemplo, os personagens foram os coletores de lixo. No Ministério da Educação, a mensagem foi de protesto contra a corrupção.

Para integrar mais o trabalho com a população, os integrantes dos Art Lords convidam os pedestres que passarem pelos grafites a darem sua contribuição, nem que seja com poucas pinceladas. “Houve um estranhamento inicial para o trabalho dos Art Lords. Não há uma cultura de grafite e muitas pessoas nos abordavam em inglês, achando que éramos estrangeiros”, conta. “Quando explicamos o que fazíamos, ficavam animados e dávamos brochas para nos ajudar. Muitos ficavam tímidos, mas não paravam depois que começavam. Todo tipo de gente: crianças, trabalhadores comuns, policiais, pessoas a caminho da mesquita.”

Afegão passa com carrinho de mão em frente a grafite que homenageia seu trabalho (AP Photo/Rahmat Gul)
Afegão passa com carrinho de mão em frente a grafite que homenageia seu trabalho (AP Photo/Rahmat Gul)

Os Art Lords não aceitam doações de governos ou instituições. O plano do grupo é cobrir mais de 50 muros por Cabul e, para isso, eles pretendem convidar grafiteiros de todas as partes do mundo para contribuírem com o trabalho, ajudando com doações ou indo ao Afeganistão para também participar das obras.