Marcelo Crivella não deu detalhes, pois ainda é uma ideia embrionária, mas já mostrou a intenção de colocar na conta do turista uma parte das medidas de recuperação do caixa da cidade. O novo prefeito do Rio de Janeiro afirmou que estuda criar uma taxa de “R$ 4 ou 5” para quem se hospedar na cidade. Uma iniciativa simplista, imediatista e, principalmente, potencialmente nociva.

Esse imposto para turistas não é novidade no mundo. Ele é cobrado em cidades italianas (imposta di soggiorno) e francesas (taxe de séjour) e em estados norte-americanos (occupancy tax), por exemplo. Crivella, inclusive, usou o fato de ser cobrado “no mundo inteiro” como argumento para defender a criação de um similar carioca. Mas isso não torna a ideia mais válida ou mais adequada, simplesmente porque a realidade desses lugares é diferente.

Com 6,43 milhões de visitantes estrangeiros, o Brasil foi apenas o 43º destino turístico mais procurado no mundo em 2014 de acordo com o ranking da Organização Mundial do Turismo. O cenário melhorou em 2016, com 6,6 milhões de turistas (o que não deve resultar em uma subida considerável no ranking, diga-se), mas o turismo representa apenas 0,3% do PIB nacional, um percentual menor que o do Iraque. Isso já mostra quanto o país tem potencial para crescer nesse setor, sobretudo considerando o apelo que possui em várias áreas e à boa avaliação (não na organização, mas na hospitalidade) como anfitrião de eventos como Copa do Mundo e Jogos Olímpicos.

O Rio de Janeiro deveria se concentrar em atrair mais gente, em convencer milhares ou milhões de turistas a irem à Cidade Maravilhosa ao invés de buscarem destinos como Tailândia, México ou África do Sul (países à frente do Brasil no ranking da OMT). Esses turistas deixariam seu dinheiro no comércio, na bilheteria em atrações turísticas e, no final das contas, reforçariam o caixa da prefeitura e do governo estadual.

O problema é que isso dá trabalho. Seria necessário montar uma estratégia para elevar ainda mais o Rio como destino internacional, aumentando a promoção (propaganda) no exterior, desenvolvendo mais as atrações existentes na cidade (melhorando as que existem e criando novas) e atacando os pontos negativos do ponto de vista do turista (violência, desorganização nos serviços públicos, zika). Ao cobrar um imposto, por mais baixo que ele pareça, só se cria uma atitude antipática que pode atrapalhar na hora de um visitante escolher entre o Rio ou outro destino.

Itália, França e Estados Unidos não precisam se esforçar tanto para convencer o turista. Esses países ocupam três das cinco primeiras posições no ranking da OMT, sinal de que sua indústria do turismo já está bem estruturada e várias de suas atrações turísticas são conhecidas mundialmente. Pessoas de todos os cantos do globo têm como sonho conhecer lugares como o Coliseu, a Torre Eiffel e o Grand Canyon, comer uma legítima massa italiana, tomar um vinho francês recém-saído do barril ou tirar uma foto com o Mickey Mouse. E elas se dispõem a pagar uma taxa para cada noite dormida se for o caso.

O pior é que o tal imposto teria pouco efeito prático no caixa municipal. O Rio de Janeiro recebeu 1,9 milhão de turistas estrangeiros em 2014, segundo o Euromonitor. Se cada um pagar os tais “cinco reais” mencionados por Crivella, seriam R$ 9,5 milhões. Se a taxa for cobrada por noite dormida – como é na Itália, na França e nos EUA -, o ganho seria de R$ 113,05 milhões. Se a taxa for para todos os turistas, estrangeiros e os 7,3 milhões vindo de outras regiões do Brasil, a arrecadação seria de R$ 46 milhões para a cobrança única e R$ 259,05 milhões para a cobrança diária.

As contas acima consideram quatro dias de estadia média para o turista brasileiro e 11,9 para o estrangeiro, números levantados em pesquisa contratada pela TurisRio.

O imposto seria até justificável como atitude para resolver um problema imediato, mas ele está longe de resolver o problema de caixa da prefeitura. Os números parecem altos, sobretudo os R$ 259 milhões, mas são nanicos perto do orçamento do município (R$ 29,5 bilhões) e do gasto com dívidas (R$ 1,3 bilhão) previstos para 2017. E, se a medida em si não resolve, vale mais a pena fazer o turismo trazer dinheiro como uma atividade econômica em crescimento, e não como taxa para seus consumidores.

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