Trafegar pelo Rio de Janeiro já tem sido muito difícil nos últimos anos, com um sistema viário que já era sobrecarregado tendo de conviver com obras por todos os cantos. O objetivo era ter a cidade pronta para a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, incluindo um grande legado em transporte público. As obras foram feitas, os sistemas de BRT TransCarioca e TransOeste estão em operação e serão integrados ao TransOlímpico. Mas as autoridades estão fazendo força para que eles não ajudem tanto quanto podem durante o evento.

Nesta terça, a prefeitura do Rio anunciou quanto custará se locomover pela rede de transporte que ligará arenas esportivas e pontos de interesse na cidade. O RioCard custará R$ 25, dando direito a usar metrô, BRT, trem e ônibus ilimitadamente por um dia. O pacote de três dias sai por R$ 70 e o de sete dias, R$ 160. Não há possibilidade de comprar passagem para viagens individuais. No TransOlímpico (Vila Militar-Recreio dos Bandeirantes) e na linha 4 do metrô (Ipanema-Barra da Tijuca), será o único bilhete aceito.

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Esses valores mostram um entendimento distorcido do que representa esse serviço. O BRT olímpico tem por finalidade inicial ligar as áreas de mais interesse para o público dos Jogos, sobretudo as arenas esportivas (a maior parte na Barra da Tijuca e em Deodoro). Nisso, pode-se partir do princípio que o turista olímpico é um sujeito endinheirado, que já está gastando uma pequena fortuna com a viagem ao Rio e os ingressos, e não custa nada pagar caro pelo transporte especial que leva menos tempo e o deixa mais próximo do destino.

Esse princípio já é errado por si só, pois o turismo é uma fonte de renda importante do Rio de Janeiro e não faz sentido tratar mal o visitante (até porque nem todo turista é rico e está a fim de gastar dinheiro à toa). Além disso, uma parte considerável do público olímpico é formada por cariocas, há ingressos a preços razoavelmente acessíveis (R$ 20) e, principalmente, a população comum também poderia se beneficiar do transporte expresso durante os Jogos.

Pelo preço divulgado, o RioCard se torna pouco interessante a muita gente. Para um torcedor carioca que só deve fazer o trajeto casa-arena e arena-casa, não fará sentido comprar esse passe. Da mesma forma que um turista que não pretende passar por quatro ou cinco regiões diferentes do Rio a cada dia. Quem pretende ir às competições com a família terá menos motivos ainda para realizar esse investimento.

Em todos esses casos, é possível usar as linhas de ônibus, trem e metrô tradicionais. No entanto, a demora nos trajetos deve desencorajar muita gente, e há uma boa chance de a escolha ficar no táxi, no Uber ou no próprio carro. O resultado disso seriam mais veículos individuais circulando pelas ruas, criando trânsito em uma cidade que construiu um sistema de transporte de massa justamente para atender a essas pessoas.

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Outro problema é que os valores do RioCard provocam um recorte econômico. O bilhete só é acessível ou viável a quem tem mais recursos. Cariocas que poderiam se beneficiar do TransOlímpico e da linha 4 do metrô para deslocamentos cotidianos – por exemplo, ir ao trabalho – durante as duas semanas de Jogos terão de seguir com os sistemas de transportes já existentes, mais baratos, mas também mais lentos e ineficientes. Ainda que essas linhas sejam abertas ao público “comum” após as competições, fica a mensagem que o evento em si é exclusivo e não está ao alcance de todos os locais.

Em Londres-2012, o transporte para as arenas olímpicas era gratuito. Diante da situação econômica brasileira, é compreensível que o Estado não queira subsidiar 100% da passagem para as arenas esportivas. Mas poderia apenas cobrar o valor normal do sistema, ou, fazendo uma concessão ao “momento especial”, um pouco acima disso. Mas criar passagens com valores tão altos e tão pouco flexíveis acaba inibindo o uso de uma obra de infraestrutura cara e fundamental para a mobilidade do Rio durante o maior evento poliesportivo do planeta.

 

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