Fim de dezembro, já é uma tradição londrina. Milhares de pessoas vão todos os dias ao Hyde Park para visitar e se divertir no Winter Wonderland. Trata-se de uma mistura de parque de diversões com feira de Natal, com atrações que vão de barracas de vinho quente e bolachas de gengibre a castelo de gelo, em que as pessoas podem entrar e até sentar em um trono de água solidificada. Claro, tem montanha-russa também. Tudo com canções natalinas, muitos gorrinhos de Papai Noel e “Merry Christmas” no final de cada diálogo.

A Inglaterra vive intensamente o Natal, mas houve um momento em que celebrar o nascimento de Jesus era proibido no país. E não me refiro a um período muito antigo, antes da chegada do Cristianismo à ilha. Foi nas décadas de 1640 e 50, com a religião mais que consolidada entre os ingleses.

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Naquela época, o país vivia o clima da briga por poder entre o Rei Carlos 1º e o parlamento, liderado por Oliver Cromwell. A disputa deu origem à Guerra Civil Inglesa em 1642. O país ficou dividido entre o território dominado pelo rei e o que seguia o parlamento, que acabou vencendo em 1651.

A disputa política também tinha um lado religioso. Os puritanos, grupo dentro do anglicanismo que defendia uma interpretação mais purista dos textos, estavam descontentes com os rumos da igreja. Cromwell era um puritano, assim como vários dos líderes do parlamento. Assim, a Inglaterra sob o governo parlamentar adotou várias regras religiosas do puritanismo. A abolição do Natal era uma delas.

A celebração do nascimento de Cristo era um tema polêmico entre os anglicanos na época. Em 1560, a igreja escocesa havia banido os festejos de 25 de dezembro. A decisão não se manteve por muito tempo, mas os puritanos começaram a transformar essa questão cada vez mais importante.

Eles alegavam que o Natal não representava a palavra de Deus por vários motivos:

– A festa em si (que durava 12 dias, até a noite de 5 de janeiro) era pecaminosa. Afastava-se do caráter de contemplação e reflexão ao promover a bonança e ao se misturar com antigos rituais de origem pagã;
– Não há nenhuma escritura que diz que o nascimento de Jesus deva ser celebrado, tampouco alguma referência à data em que esse evento teria ocorrido;
– O nome “Christmas” (de “Christ’s Mass”, ou “missa de Cristo”) já mostraria uma influência católica no feriado.

Por isso, em 1644, a celebração do Natal se tornou ilegal nos territórios dominados pelo parlamento. Guardas circulavam pelas ruas com ordem de confiscar qualquer comida se desconfiassem que estavam destinada a alguma ceia e de impedir até grupos cantando músicas natalinas pelas ruas.

A não-comemoração do nascimento de Jesus se tornou um dos argumentos dos grupos em favor de Carlos 1º, mas também motivou contestações mesmo entre os defensores dos parlamentares. Protestos começaram a surgir, alguns até violentos, com vandalismo e destruição de lojas que abrissem em 25 de dezembro como se fosse um dia de trabalho qualquer.

O desenvolvimento da guerra e a morte de Carlos 1º em 1649 acabaram esfriando os ânimos pró-Natal. Ainda assim, historiadores entendem que as famílias tenham mantido a tradição natalina, mas apenas de forma privada.

O Natal voltou a ser celebrado apenas em 1660, quando a monarquia retornou ao poder e anulou todas as leis criadas pelo parlamento. Mas ainda havia uma região com forte influência puritana, que mantinha a proibição ao Natal.

Antes da Guerra Civil Inglesa, os puritanos sofriam perseguição das forças reais. Entre 1620 e 1640, milhares migraram para os Estados Unidos, sobretudo na região da Nova Inglaterra (extremo nordeste do país). Eles criaram Massachusetts para ter uma colônia em que pudessem viver dentro de suas leis.

Em 1659, o governo do estado seguiu a lei inglesa e também baniu o Natal. Pastores poderiam ser presos se estivessem comandando alguma celebração natalina e qualquer cidadão que estivesse comemorando a data receberia uma multa de 5 xelins (um quarto de libra, equivalente ao salário semanal de um trabalhador na época).

Com a recuperação da monarquia na sede do império, puritanos temiam perseguição e uma nova onda de imigração chegou à Nova Inglaterra. Isso manteve a proibição ao Natal por mais tempo na colônia norte-americana. A data foi legalizada apenas em 1681, mas ainda era vista como uma manifestação reprovável. Por exemplo, uma pessoa poderia ser processada por distúrbio da paz se cantasse músicas natalinas na rua.

Apenas no século seguinte que o Natal foi recuperando sua força, sobretudo após a onda de imigração de católicos irlandeses. De qualquer modo, o Natal foi um dia qualquer de trabalho, inclusive com aulas normais nas escolas, até 1870, quando o presidente Ulysses Grant decretou que 25 de dezembro era um feriado nacional.

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