Foram 1,7 milhões de pessoas na avenida Paulista, 500 mil a mais que a estimativa inicial dos organizadores. O número impressiona, assim como os 2,4 milhões na praia de Copacabana, Rio de Janeiro, 0s 3 milhões de Salvador* e o 1,3 milhão em Fortaleza. São essas as estimativas oficiais de pessoas que viram as celebrações de virada de ano em quatro dos cinco municípios mais populosos do Brasil. Mas até que ponto dá para levar a sério?

Em diversas situações, contagem de multidões é motivo de polêmica. Quando há uma manifestação de rua que representa algum tipo de causa — da Parada do Orgulho LBGT a protestos contra o governo, passando por greve e comemoração de títulos de futebol –, há dois lados se confrontando. Os organizadores querem inflar os números para legitimar ou expor a força de seu movimento. Os opositores tentam jogar o cálculo para baixo. As autoridades (leia-se “polícia”) poderiam funcionar como elemento neutro no debate, mas elas muitas vezes atuam em nome de uma das partes.

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Mas essa não é uma questão sem resposta. Há métodos utilizados internacionalmente para estimar a quantidade de pessoas dentro de uma multidão.  Eles dependem do fator humano (mapear a área ocupada pela mobilização) e podem levar a valores diferentes, mas vão girar em torno de uma margem de erro.

Esses critérios são muito utilizados pela imprensa ou por outras organizações para ser uma voz neutra quando dois lados criam versões muito díspares em cima de um acontecimento. Mas isso nem sempre ocorre na celebração do Ano Novo. Afinal, a prefeitura tem interesse em inflar os números para promover seu evento, a polícia não tem motivos para entrar em choque com a gestão municipal e a imprensa não sente necessidade de desmascarar o poder público em uma notícia tão trivial. Aí, números oficiais são reproduzidos sem contestação.

Multidão na Avenida Paulista na festa de Réveillon (Eduardo Ogatoa / Secom Prefeitura de SP)

Multidão na Avenida Paulista na festa de Réveillon (Eduardo Ogata / Secom Prefeitura de SP)

Mas há problemas, claro que há. A prefeitura de São Paulo já chegou a contabilizar em 2,5 milhões a quantidade de presentes em uma celebração de Ano Novo. O rio de Janeiro fez parecido com a celebração de Copacabana, jogando números para cima como se houvesse um Rio-São Paulo de quem juntou mais gente no show do Réveillon.

No entanto, a Folha de São Paulo já fez uma reportagem mostrando que, por seus critérios, a Avenida Paulista comporta no máximo 950 mil pessoas de ponta a ponta. Mesmo que consideremos que parte do público do Réveillon entrou e saiu da multidão ao longo da festa, dificilmente ele dobraria a conta. Até porque, no início da avenida, a densidade de pessoas por metro quadrado é muito menor devido à distância do palco, montado no final.

Outra reportagem da mesma Folha mostra que caberiam 2,8 milhões de pessoas na praia de Copacabana, ocupando toda a areia e incluindo o trecho do Leme. Excluindo os trechos de praia ocupados pelo enorme palco, pela estrutura de serviço ao público e mais distantes, em que a multidão fica mais dispersa (veja no canto esquerdo desta foto, tirada do Leme em 2016), os 2,4 milhões divulgados pela prefeitura fica no limite do possível e os 3 milhões que a organização estimava soam fora da realidade.

O pior é que qualquer pessoa que já lidou com cobertura ou organização de multidões sabe disso. Mas todos continuam aceitando essa prática, provavelmente por considerar que “não há mal algum nesse caso”. Talvez não haja, mas é divulgar informação sabidamente errada sem realizar um mínimo esforço para contestá-la ou verificá-la.

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