Era para ser apenas mais um jogo da Fed Cup, a competição feminina entre nações do tênis. A alemã Andrea Petkovic ia enfrentar a norte-americana Alison Riske na abertura da série, realizada em Lahaina, no Havaí. No momento dos hinos, o solista e professor universitário Will Kimble foi ao centro da quadra e começou a cantar: “Deutschland, Deutschland über alles, Über alles in der Welt”.

Erro de hino antes de uma competição esportiva não chega a ser novidade. Na Copa do Mundo de 1986, os mexicanos trocaram o hino brasileiro pelo Hino à Bandeira antes de Brasil x Espanha. Trinta anos depois, os americanos colocaram o hino do chileno no lugar do uruguaio antes de um Uruguai x México na Copa América Centenário.

Mas o caso alemão é pior. Não é apenas uma troca de uma música por outra, por mais inconveniente que isso seja, mas trazer à tona uma letra que virou um símbolo do nazismo – e até hoje é cantada por grupos extremistas no país.

O hino alemão foi composto por Joseph Haydn em 1797 para o aniversário do Imperador Francisco II, último líder do Sacro Império Romano-Germânico. Na década de 1840, o império estava ruindo, mas o movimento de unificação das nações germânicas ganhava força. August Hoffmann compôs uma nova letra, enfatizando justamente essa ideia de que uma união era mais importante do que qualquer coisa. A música começava com o “Deutschland, Deutschland über alles, Über alles in der Welt”, ou “Alemanha, Alemanha acima de tudo, Acima de tudo no mundo”.

A versão de Hoffmann, Deutschlandlied, era composta por três estrofes. Com a unificação alemã, ela foi ganhando força aos poucos e passou a ser adotada em algumas cerimônias oficiais. Em 1922, foi confirmada como o hino alemão.

Na década seguinte, Adolf Hitler chegou ao poder com um discurso fortemente nacionalista. Eventos oficiais eram constantes, sempre marcados pelo hino alemão – tocado só em seu primeiro trecho (o “Deutschland über alles”) – seguido pelo hino do Partido Nacional-Socialista (“Horts-Wessel-Lied”, uma música hoje proibida na Alemanha). De repente, o “Alemanha acima de tudo, acima de tudo no mundo” ganhou um novo significado, muito mais sinistro do que o de uma nação que queria se formar a partir de pequenos estados.

Com o final da Segunda Guerra Mundial e a queda do nazismo, a Alemanha foi dividida. O lado oriental, comandado pela União Soviética, criou um novo hino, mas o ocidental, sob administração anglo-franco-americana, ficou um período sem uma canção nacional. Em 1952, foi aceita a proposta de usar a Deutschlandlied, mas mantendo apenas a melodia e o terceira parte, quase desconhecido na época. Ele começa com “Einigkeit und Recht und Freiheit” (“Unidade e Justiça e liberdade”), palavras que se tornaram um lema não-oficial do país.

Formalmente, os versos iniciais do hino não haviam sido banidos, mas eram rejeitados pela relação com o nazismo. Em 1991, quando a Alemanha se reunificou, foi confirmado que apenas a terceira parte fazia parte do hino do país. As duas primeiros foram retirados.

Não é difícil encontrar na internet a versão antiga do hino alemão, com o trecho vinculado ao nazismo. Em vários casos, aparece como “o hino completo”, mas é um erro de informação. O hino completo, desde 1991, é formado apenas pelo trecho que se inicia com “Einigkeit und Recht und Freiheit”. As demais partes não são reconhecidas e sofrem rejeição pela maioria dos alemães pelo que representam. Até porque são constantemente entoadas em manifestações neonazistas no país.

Por isso, quando o antigo hino começou a ser cantado antes do jogo da Fed Cup, a delegação e torcedores da Alemanha começaram a cantar quase gritando a versão correta, tentando abafar o cantor. Não era apenas corrigir um erro, mas responder a uma ofensa.

Um hino com história parecida com a Deutschlandlied é a Marcha Real. O hino da Espanha nunca teve letra oficial, mas várias versões foram propostas ao longo dos séculos. Uma delas recebeu a aprovação do General Francisco Franco e foi adotada em várias cerimônias durante sua ditadura. Com sua morte, o hino espanhol voltou a não ter letra (um dos únicos do mundo nessa condição, ao lado de San Marino) e recuperar os versos antigos é quase que uma manifestação de aprovação ao antigo regime. E, claro, também houve uma gafe com ele em um evento esportivo. No caso, durante a premiação de Caroline Marín no Mundial de Badminton na Indonésia, em 2015.

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