Bruxelas tem bons elementos para ser vista como uma cidade mundial, um ponto de encontro de culturas. A capital belga tem dois idiomas oficiais, unindo flamengos e valões, é sede da Otan e de várias instituições da União Europeia e tem a bolsa de valores mais antiga do mundo. Além disso, fica no meio do caminho entre as três grandes potências econômicas e militares da Europa: França, Reino Unido e Alemanha, todas localizadas a poucas horas de trem. Mas Bruxelas ganha terreno pelo lado oposto, como o nascedouro de terroristas no continente. Ainda mais depois de atentados terroristas que mataram ao menos 30 pessoas nesta terça (22).

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Isso ocorre devido a uma dinâmica que se instalou na capital belga, tanto na (falta de) administração local quanto na inserção de parte de sua população. E parte disse se deve justamente ao fato de Bruxelas ser o que ela é: a capital bilíngue de uma nação dividida por dois grandes grupos étnicos e linguísticos.

O norte da Bélgica, Flanders, tem maioria holandesa. O sul, Valônia, é francês. Há ainda uma província de língua alemã, mas ela é pouco relevante nesse caso. Nos últimos anos, o debate entre os dois lados se acirrou. O partido nacionalista flamengo ganhou força, enquanto os valões perderam espaço no governo federal. O país chegou até a viver um impasse político e teve de ser administrado por um governo tampão no começo dessa década.

Com a polarização crescente entre suas duas metades, a Bélgica ganhou mais lideranças comprometidas com as questões regionais. Em várias questões, é como se fossem dois países sob a mesma bandeira. E, no meio disso, está Bruxelas. A capital está geograficamente na área holandesa, mas é muito próxima à divisa com a Valônia. Para tornar a situação mais confusa, os dois idiomas são oficiais, mas 85% da população fala francês.

Essa condição deixou os bruxelenses em um vácuo. A cidade é governada por conta própria, o que traz problemas nas questões em que é necessário haver a colaboração de esferas mais altas de poder. Caso de segurança. A cidade acabou criando pontos vulneráveis dentro de sua comunidade, e o terrorismo soube se aproveitar disso.

Investigar e combater crime organizado e terroristas exige articulação entre diversas áreas, capacidade de comunicação com as regiões vizinhas e, principalmente, troca de informação com outras nações. Com um país dividido e uma capital quase autônoma, os belgas têm mais dificuldades de identificar possíveis focos de tensão.

O bairro de Molenbeek é o símbolo disso. Habitado majoritariamente por imigrantes, se tornou ponto de chegada para muitos muçulmanos que tentam a vida na Bélgica. A baixa capacidade de ação das autoridades fez que a qualidade de vida e dos serviços públicos se tornasse abaixo da média. Há mais desemprego, moradias em piores condições e policiamento ineficaz. Além disso, muitos desses recém-chegados têm mais dificuldades de serem absorvidos em uma cidade que é culturalmente dividida até para os nativos.

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Claro que a maioria dos indivíduos em Molenbeek são pessoas que apenas buscam uma vida melhor, mas um terrorista vê no bairro um ótimo esconderijo. É fácil se camuflar no meio de tantos imigrantes e há uma oferta grande de jovens socialmente vulneráveis – pouca perspectiva, pouco sentimento de pertencer àquela comunidade, predisposição a se encantar pelo discurso de algum líder carismático ou que prometa futuro melhor –, mais suscetíveis a se radicalizarem.

A falta de presença das autoridades é tão grande que até falsificar documentos é fácil. Em entrevista a um jornal belga, um jovem de Molenbeek conta como um francês de origem marroquina mudou-se para o bairro e não teve problemas para conseguir outra identidade. Adotar um nome diferente é uma ferramenta poderosa para um criminoso de qualquer esfera agir por baixo dos radares da polícia.

Salah Abdelsalam, um dos suspeitos principais de participar dos atentados de Paris em 2015, é preso em uma casa no bairro de Molenbeek, Bruxelas (VTM via AP)

Salah Abdelsalam, um dos suspeitos principais de participar dos atentados de Paris em 2015, é preso em uma casa no bairro de Molenbeek, Bruxelas (VTM via AP)

Por isso, a quantidade de ataques terroristas em que Molenbeek aparece é significativo. Em 2004, um dos autores do atentado a bomba na estação de trem de Atocha, em Madri, era do bairro. De lá também saiu um homem que sacou uma AK-47 dentro de um trem que ia de Amsterdã para Paris e do atirador que atacou pessoas no Museu Judaico de Bruxelas.

Com o atentado de Paris em novembro passado e o desta terça, são cinco casos ligados a Molenbeek, um número desproporcional ao tamanho da comunidade e ao tamanho de Bruxelas em comparação com metrópoles maiores em França, Inglaterra e Alemanha. E tudo isso sem considerar as ações de belgas que deixaram seu país para se alistar ao Estado Islâmico. A Bélgica é o país com mais membros do EI per capita da Europa.

APÓS PARIS: O terrorismo faz o cotidiano da cidade como refém. Como lidar com isso?

O terrorismo mudou de figura na virada do século. Incrivelmente, a Europa Ocidental vive uma época de poucas mortes causadas pelo terror. No entanto, o caráter mudou. Nas décadas de 1970, 80 e 90, os casos eram numerosos, mas sempre ligados a questões locais. O Reino Unido era o principal alvo, seguido de Espanha e Itália. Nos três casos, eram ações locais (IRA, ETA e grupos extremistas de direita e esquerda). Esse gráfico mostra isso perfeitamente.

Desde o processo de paz com o IRA na Irlanda do Norte e do ETA no País Basco, os ataques normalmente têm motivações internacionais. São mais raros, mas muito violentos para causar um grande número de baixas.

Com esse terrorismo mais internacional, é preciso de instituições capazes de atuar nesse nível de complexidade. A Bélgica está falhando, pela dificuldade de articulação de suas autoridades à incapacidade de integrar melhor algumas comunidades de sua capital. Problemas difíceis de resolver, pois exigiriam uma nova dinâmica política e social.

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