São Paulo é uma cidade que não sabe se ver como turística. Várias de suas características e locais têm apelo para visitantes de outras partes do Brasil ou estrangeiros, mas muitas vezes as autoridades e a própria população não dão a importância devida a isso. Assim, quando um dos muros do Beco do Batman apareceu todo cinza, logo se imaginou que mais um atrativo da capital paulista era apagado. Mas o caso era mais complicado.

A pintura não surgiu de um arroubo da prefeitura ou de um protesto contra o grafite. Foi uma resposta de João Batista da Silva, 70 anos, ao que considerava abusos que ocorriam na região. Como proprietário do imóvel onde está o muro, ele tinha o pleno direito de deixar o espaço com a linguagem visual que desejasse, fosse ela um grafite ou um paredão unicolor. Mas a atitude que tomou, da forma que tomou, evidenciou como o debate sobre o espaço público é feito muito mais na base da pancada do que da conversa.

Silva reclamava do barulho na região, da falta de respeito dos grafiteiros (um teria dito “Você tem que dar graças a Deus que não pinta sua casa. Nós pintamos para você”) e até que algumas pessoas organizariam passeios na região, falava alto, pulava o muro para fazer foto e ganhava dinheiro com isso, sem repassar nada aos moradores. O morador admitiu que estava com raiva no momento, e alguns de seus relatos podem até estarem mais fortes que o real, mas seu argumento merece consideração.

O Beco do Batman se transformou em um ponto turístico, sobretudo para o público que passou a reconhecer a capacidade e criatividade dos artistas de rua de São Paulo. Eu (alerta para opinião pessoal do blogueiro) defendo o direito à manifestação artístico e jamais apagaria os grafites que lá estavam, mas isso não pode ser colocado de modo unilateral. O dono do imóvel precisa ser consultado até como maneira de legitimar ainda mais aquela arte como uma manifestação que pertence à toda a comunidade. Do mesmo jeito, o morador não precisava ter se manifestado de forma tão agressiva (se não foi fisicamente agressiva, foi simbolicamente) para se fazer ouvir. E os defensores do grafite não podiam pichar o muro cinza para reclamar.

No final das contas, falta diálogo. As pessoas estão manifestando suas ideias com o fígado, impondo situações ao invés de buscar uma conversa. Depois da confusão, Silva concordou em ceder seu muro para os grafiteiros, mas em termos mais amigáveis (eventualmente com compensação financeira).

Talvez toda a confusão não tivesse ocorrido se os dois lados, artistas e morador, conversassem desde o começo. Mas esse mesmo cenário podemos ver para várias áreas de conflito na cidade, incluindo motoristas e pedestres, comerciantes e blocos de Carnaval e moradores e donos de casas noturnas.

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