Turistas muitas vezes precisam de soluções práticas. Curtir a culinária do local visitado é normalmente a preferência, mas há momentos em que uma refeição rápida é a melhor alternativa. Menos em Florença. A capital da Toscana, região no centro-norte da Itália, criou uma lei para limitar a quantidade de comida forasteira oferecida no centro histórico da cidade.

A determinação da prefeitura é que qualquer estabelecimento novo na área de alimentação terá, obrigatoriamente, 70% de produtos regionais. Cada item deverá ser produzido na Toscana e ter no máximo dois intermediários entre o produtor e o consumidor. Para a definição de “produtos típicos”, é utilizado o catálogo de produtos agroalimentares tradicionais e o de certificados de denominação de origem protegida e indicação geográfica protegida. Os restaurantes e os alimentari (pequenos mercados especializados em produtos alimentares) já existentes não estarão sujeitos a essa regulação.

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De acordo com o assessor de desenvolvimento econômico da cidade, Giovanni Bettarini, o objetivo é proteger o pequeno comerciante e a cultura florentina. “Queremos que em Florença vença a qualidade. Uma escolha que estamos levando adiante em todos os setores, a partir da aprovação do regulamento para o centro histórico, ao trabalho nos mercados e no turismo”, afirmou em entrevista ao jornal La Repubblica. “Não podemos deixar que o comércio seja destruído, porque é uma parte dos valores e da identidade desta cidade.”

O representante da prefeitura deixa escapar uma ideia comum entre os italianos que só o país tem “comida boa de verdade”. Mas, cutucadas nas outras culinárias à parte, o alvo dessa medida são pequenos estabelecimentos de comida rápida que tanto agradam turistas com pouco tempo e dinheiro. Ainda que a gastronomia seja um atrativo turístico da Itália (ainda mais na Toscana, uma das regiões com mais farta produção de ingredientes de altíssima qualidade), muitos visitantes procuram opções mais práticas.

Esse tipo de comércio geralmente tem origem não-italiana, de redes internacionais de fast food a barracas de imigrantes do Oriente Médio que servem kebab (churrasco grego), algo bastante comum em cidades turísticas europeias. Por isso, medidas que obrigam a venda de ingredientes produzidos localmente e de receitas tradicionais de Florença ou da Toscana limitam diretamente a capacidade de ação desses estabelecimentos.

A estratégia dos florentinos soa exagerada, mas faz sentido dentro da relação dos italianos com sua culinária. A Itália é uma das nações que mais líderes do Slow Food (“Comida Lenta”, movimento que valoriza pratos com ingredientes orgânicos, locais, respeitando o meio ambiente e preparados de forma a valorizar o sabor) e tem quase uma compulsão por criar denominações de origem para seus ingredientes e pratos regionais. Há dez dias, a Comissão Nacional Italiana na Unesco (órgão das Nações Unidas para educação, ciência e cultura) decidiu apresentar a candidatura da pizza napolitana para se tornar um novo Patrimônio Cultural Imaterial da entidade.

De qualquer modo, a decisão de Florença não deixa de ser uma limitação ao trabalho de futuros comerciantes, e pode acabar tirando a quantidade de opções de turistas e florentinos que trabalham ou moram no centro. Além disso, por criar um modelo que incentive indiretamente os restaurantes, acaba reduzindo a quantidade de opções econômicas na cidade, que pode ganhar um rótulo de destino de alimentação mais cara.

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