“Ficou muito cinza e há uma vontade de fazer.” André Sturm, secretário da cultura do município de São Paulo, reconheceu que ficou um “ruído” no excesso de cinza nos muros que margeiam a avenida 23 de Maio, principal ligação entre o sul e o centro da capital paulista. Um cenário criado menos de uma semana antes pelo seu próprio chefe, o prefeito João Doria Jr., dentro do programa Cidade Linda. Um vaivém de posições que reforça o quanto essa medida está, mais que embelezando ou enfeiando a cidade, fazendo a prefeitura perder tempo desnecessariamente.

A polarização e politização das discussões é alta em São Paulo (bem, é em todo o mundo). Cada atitude ou opinião já é carimbada como “coisa de esquerda” ou “coisa de direita”. E um lado não admite sequer abrir um diálogo com o outro.

A gestão de Fernando Haddad teve como uma das marcas a valorização do grafite como forma de expressão e de arte urbana. O próprio prefeito aproveitou para agradar seu público e pegou uma latinha de spray para deixar sua marca em um muro – no caso, a cara do Pato Donald. Virou algo de esquerda – uma percepção ajudada pelo fato de um dos desenhos mais marcantes desse processo ter uma estranha semelhança com Hugo Chávez.

Por isso, Doria rapidamente identificou nisso uma forma de marcar posição como um gestor diferente de seu antecessor. Assim, uma de suas primeiras medidas a pintura de vários muros de cinza, sem discriminar o grafite das pichações – que, realmente, se espalharam como epidemia nos últimos anos. Era o programa São Paulo Cidade Linda.

O problema é que, no final das contas, a população de verdade – e não os militantes de esquerda e direita que povoam as redes sociais – nem sempre está se importando com o rótulo que deram. Mesmo quem não gosta de um lado pode estar satisfeito com questões pontuais. Por exemplo, políticas de mobilidade de Haddad foram aprovadas em uma pesquisa realizada no ano passado, mas sua gestão, não.

No final das contas, a reação da população com os muros cinzas foi rápida e negativa. Grafiteiros e pichadores ameaçam desafiar o poder público e criar um jogo de gato e rato, com um pinta-pinta de muros. Além disso, essa discussão começou a criar em torno de Doria a imagem de uma pessoa sem graça, chata. Aí, dá para entender por que Sturm admitiu que talvez tenham passado do ponto e por que o município pensa em criar um Festival do Grafite.

A questão aí não é se os muros deveriam estar grafitados ou ficar monocromáticos. É que esse tema está longe de ser o mais importante na cidade. O atual prefeito, na vontade de se mostrar diferente do antecessor, acabou atirando para onde não precisava e, por isso, era uma área em que só tinha a perder.

Seria muito melhor se tivesse aproveitado esse tempo e essa energia para trabalhar em outro problema ou mesmo para aumentar o foco em outras políticas que já adotou, como a aceleração na realização de exames de quem estava na fila da rede municipal de saúde ou o programa para que a comunidade adote praças. Medidas que até merecem discussão mais profunda, mas que, ao menos, trariam muito mais benefícios à imagem do novo prefeito.

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