Nenhuma marca simboliza tanto velocidade de um carro quanto a Ferrari. É a pintura vermelha marcante, o desenho aerodinâmico, o som do motor, as vitórias na Fórmula 1. Tudo é feito para simbolizar potência, até seu símbolo, um cavalo empinado, indomável enquanto se prepara para arrancar para uma corrida em que ninguém o alcançará. A não ser que apareça um burro na disputa.

Foi o que os portugueses poderiam ver nesta sexta, dia 4. A direção do Partido Social-Democrata organizou um desafio intermodal inusitado: um burro e uma Ferrari percorreriam um trajeto de 3 km pelo centro de Lisboa, indo da rua Professor António Flores, em frente à Faculdade de Direito de Lisboa, à Praça Duque de Saldanha. O objetivo do PSD era mostrar como as diversas obras viárias estão atrapalhando o trânsito lisboeta.

A iniciativa não foi uma criação nova, mas uma forma de ironizar António Costa, primeiro-ministro de Portugal pelo Partido Socialista, de quem o PSD é oposição. Em 1993, quando concorria a uma vaga na Câmara de Loures (cidade na Grande Lisboa), Costa organizou a disputa entre um burro e uma Ferrari para mostrar a necessidade de se estender a linha de metrô até Odivelas, cidade que fica entre Loures e Lisboa. O burro venceu o cavalo empinado por cinco minutos, mas o candidato perdeu as eleições.

A tentativa de revanche causou revolta em entidades de proteção aos animais. O PAN (Pessoas-Animais-Natureza) chamou o evento de “circo de rua” e afirmou que ressuscitar uma ideia de 23 anos atrás “demonstra que existe um claro desencontro entre a evolução ética e civilizacional e as práticas partidárias em Portugal, fato que obviamente se reflete na falta de visão política quanto à proteção dos Direitos dos Animais”. A organização ainda sugeriu que, se o problema é a mobilidade, os promotores do desafio deveriam usar uma bicicleta.

Outra entidade, a Animal, acusou os organizadores do desafio de ridicularizarem o burro e de estarem na beira da ilegalidade. De acordo com comunicado da ONG, uma lei de 1995 proíbe que se exija de um animal, “em casos que não sejam de emergência, esforços ou atuações que, em virtude da sua condição, ele seja obviamente incapaz de realizar ou que estejam obviamente para além das suas possibilidades”.

A polêmica chamou a atenção das autoridades. Nesta quinta, menos de 24 horas antes do horário marcado para a disputa, o PSD recebeu uma notificação da Provedora Municipal dos Animais de Lisboa recomendando a não-realização do evento. Inês Sousa Real, diretora do órgão, afirmou que a corrida não está proibida, mas os organizadores são responsáveis pelo que ocorrer nela: “Uma iniciativa desta natura, além de ridicularizar o animal, sujeita-o ainda às intempéries que se preveem para o dia de amanhã (chuva), ao stress da cidade, podendo daqui decorrer desconforto físico e até acidentes, não tendo sequer sido acautelado previamente se o percurso realizado e as condições existentes cumprem os requisitos legalmente estabelecidos através do parecer vinculativo do médico veterinário municipal, sendo assim suscetível de lesar o bem-estar animal”.

No final, o desafio intermodal foi cancelado. Nenhum animal será exposto à agressividade do trânsito de uma manhã de sexta no centro de uma metrópole. E que o título na disputa entre uma Ferrari e um burro fique com o segundo, sem possibilidade de revanche.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.

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