Torcedor dos Raiders pede para o time não se mudar de Oakland (Stay in Oaktown / Facebook)

Torcedor dos Raiders pede para o time não se mudar de Oakland (Stay in Oaktown / Facebook)

Ainda não se sabe por quanto tempo, mas há elementos de sobra para cravar que o Oakland Raiders como conhecemos está com os dias contatos. A franquia está em negociações abertas em busca de um novo estádio e dificilmente haverá algum arranjo que faça o time permanecer na cidade onde vive desde 1995. A candidata mais forte é Las Vegas, ainda que os últimos acontecimentos afastaram a equipe da terra dos cassinos. San Antonio também já conversou com a direção da equipe e até uma mudança bizarra para San Diego (ex-terra do rival Chargers) foi cogitada. Só a continuidade na Baía de São Francisco parece descartada.

Se ou quando isso se concretizar, Oakland dará mais um passo para seu enfraquecimento esportivo. Afinal, já está certo que, em 2019, o Golden State Warriors inaugurará um novo ginásio em São Francisco. Há até especulações de que o time voltaria a se chamar San Francisco Warriors, reforçando a identificação com a nova casa – e se afastando ainda mais da antiga. De repente, Oakland perderia um time que ensaia uma dinastia no basquete e uma das equipes mais tradicionais e de personalidades mais marcantes no futebol americano.

A história do esporte em Oakland tem ligação direta com a dinâmica da economia da região. São Francisco foi a primeira metrópole no litoral norte da Califórnia e sua vizinha, do outro lado da baía, servia apenas como cidade-dormitório para quem não tinha dinheiro para viver perto do trabalho ou para indústrias. Na década de 1960, o cenário mudou. O aumento do uso de contêineres exigiu reforma e ampliação nos portos, e São Francisco não tinha como adaptar o seu. Melhor para o Porto de Oakland, que rapidamente se tornou o principal do estado.

Oakland não deixou de ser uma cidade operária para a rica São Francisco, mas passou a ter uma força econômica própria. O dinheiro do porto atraiu mais empresas, que atraiu mais gente e, no final das contas, atraiu mais times profissionais. Na NFL, o Oakland Raiders foi fundado em 1960 (entre 1982 e 94, jogou em Los Angeles). Na MLB, o Kansas City Athletics se mudou para a Califórnia em 1968. Na NBA, o San Francisco Warriors pegou a Bay Bridge, ponte que atravessa a baía, e se tornou o Golden State em 1971.

Coliseum, casa de A’s e Raiders, ao lado da Oracle Arena, ginásio dos Warriors (Flickr / Shawn Clover)

Coliseum, casa de A’s e Raiders, ao lado da Oracle Arena, ginásio dos Warriors (Flickr / Shawn Clover)

Desde então, muita coisa mudou. O Porto de Oakland perdeu relevância para o de Los Angeles e o de Long Beach e os problemas urbanos passaram a dominar a cidade, tida como uma das mais violentas dos Estados Unidos. Não era mais um ambiente animador para se investir em esportes, ainda mais porque as arenas esportivas já estavam mais do que defasadas. Uma hora a corda ia romper e algumas acabariam migrando.

Neste século, a Baía de São Francisco enriqueceu assustadoramente devido às empresas de tecnologia. O centro disso era São Francisco e a região de San José, ao sul da baía, apelidado de Vale do Silício. Há potenciais torcedores com dinheiro sobrando nesses lugares e, principalmente, empresas e empresários dispostos a patrocinar ou comprar camarotes corporativos de equipes profissionais. Para os Warriors, uma equipe que virou a queridinha dos novos-ricos de São Francisco, atravessar a baía de novo era uma decisão óbvia. Alguma franquia também acabaria buscando o Vale do Silício, que só era representado pelo San Jose Sharks, da NHL. O San Francisco 49ers tomou a dianteira e se mudou para Santa Clara, ainda que tenha mantido seu nome. Essa mudança dos Garimpeiros impediu qualquer movimentação dos Raiders que não fosse a luta por um estádio novo na sua atual sede (a prefeitura e a população rejeitaram financiar) ou partir para outra região metropolitana.

Dessa forma, Oakland provavelmente ficará apenas com os Athletics. E o time, que já tentou se mudar para Santa Clara (o San Francisco Giants barrou por ser o “dono” da área de San José/Santa Clara na divisão de mercados da MLB), dá sinais de que vai ficar. A diretoria até já anunciou que procura investidores para bancar um novo estádio sem uso de dinheiro público. Uma atitude e um comprometimento local muito diferente do visto com Warriors e Raiders. Mas faz sentido.

Sem ter de dividir os torcedores – e os dinheiro de patrocinadores locais – com outras duas franquias, os A’s estarão em situação privilegiada dentro de sua cidade. Além disso, todo o dinheiro que a tecnologia injetou em São Francisco e no Vale do Silício começou a chegar a Oakland. Claro, empresas do setor querem abrir sedes no norte da Califórnia, onde está boa parte da cadeia produtiva dessa indústria, e algumas já começam a buscar a cidade mais desvalorizada da região em busca de imóveis baratos. Um exemplo é o Uber, que inaugurará uma sede gigantesca em Oakland em 2018.

Assim, as perspectivas em longo prazo são relativamente boas para a economia da cidade. O boom trazido pelo porto nos anos 60 talvez não voltem, mas a fama de cidade violenta e sem esperança deve acabar. Os A’s perceberam isso e já se articulam para aproveitar a oportunidade, ainda mais com seus vizinhos de basquete e futebol americano indo embora.

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