Cidade alemã proíbe café em cápsulas de todos os prédios públicos

O que é? Os fabricantes de café em cápsulas tiveram um revés nesta semana. A prefeitura de Hamburgo anunciou que o produto estava vetado em todas as suas instalações. A medida reforça a desconfiança em vários setores de que as cápsulas causam grande poluição pela dificuldade de ser reciclada ou reutilizada.

Dá para reciclar?

Os funcionários da prefeitura de Hamburgo, Alemanha, terão de se acostumar com café expresso ou coado. Ou talvez com um enlatado. Se quiserem um de cápsula, terão de sair do escritório e procurar algum lugar na rua. Afinal, o município baniu o produto de todos os seus edifícios. Uma medida motivada principalmente pela falta de confiança na capacidade da indústria de lidar com o lixo que essa tecnologia gera.

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É uma discussão que cresce cada vez mais. A indústria de café em cápsulas cresceu muito nos últimos anos (já é um mercado de R$ 1,4 bilhão no Brasil), sobretudo pela facilidade de qualquer pessoa preparar uma xícara com uma bebida de sabor satisfatório. Muito prático para ambientes de trabalho e para cozinhas domésticas.

O problema é a tecnologia implementada nas cápsulas. Elas são compostas de alumínio e plástico e sua reciclagem é extremamente trabalhosa. O reaproveitamento em outros fins também não é dos mais simples. “As cápsulas causam desnecessariamente consumo de recursos e geração de lixo, muitas vezes contendo alumínio poluente”, comentou Jan Dube, do departamento municipal de desenvolvimento e energia.

Ainda que uma cápsula em si pareça inofensiva, a quantidade de material descartado justifica a preocupação. Em 2014, a Keurig, principal fabricante das cápsulas, produziu 9,8 bilhões de unidades, dos quais apenas 5% eram reaproveitáveis. O próprio criador das embalagens, John Sylvan, já disse que elas “nunca serão recicláveis”.

Fábrica da Nespresso em Avenches, Suíça, capaz de produzir 4,8 bilhões de cápsulas de café por ano (AP Photo/Keystone, Laurent Gillieron)
Fábrica da Nespresso em Avenches, Suíça, capaz de produzir 4,8 bilhões de cápsulas de café por ano (AP Photo/Keystone, Laurent Gillieron)

Os fabricantes tentam mostrar a preocupação com a sustentabilidade do produto. A Nespresso, braço do Grupo Nestlé e líder mundial desse mercado, não deu detalhes sobre o processo de reciclagem para reportagem da Folha de São Paulo em janeiro, mas criou uma página em seu site para apresentar seus esforços nessa área. Entre outros pontos, a empresa afirma:

– As cápsulas não são classificadas como embalagem pelas diretivas da UE, não é exigido que os governos nacionais implementem sistemas para reciclar e reutilizar o material. No entanto, em 1991, foi criado o primeiro programa exclusivo de reciclagem de cápsulas na Suíça;
– Foi criado, em 2009, um grupo empenhado em aprimorar a reciclagem de embalagens pequenas de aço e alumínio;
– Hoje, a Nespresso seria capaz de recuperar 80% de todas as cápsulas vendidas e já haveria esforços para começar a converter cápsulas no final da vida útil em novo material para cápsulas.

A 3 Corações também trata do assunto, dentro capítulo sobre meio ambiente no código de conduta da empresa:

– Queremos trabalhar de forma integrada com parceiros para que nossas matérias-primas venham de produtores sustentáveis e nossos subprodutos e resíduos alimentem outras atividades industriais. Incentivamos inovações e iniciativas que levem à qualidade ambiental e à redução dos efeitos das mudanças climáticas.

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No momento, a melhor forma de um consumidor de café em cápsula reciclar a embalagem é encaminhar o material de volta ao fabricante. A Nespresso até disponibilizou um mapa para indicar onde isso pode ser feito. O problema é que ainda são muito poucos, e com abrangência reduzida: cinco em São Paulo (todos na Zona Sul e Oeste), dois no Rio de Janeiro (Ipanema e Barra da Tijuca) e um em Brasília, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e Campinas. Para quem está longe desses locais, não há opção oficial.

Por isso, uma decisão como a de Hamburgo tem alto potencial de repercussão. Outras cidades europeias podem seguir o caminho ou, ao menos, dar um espaço maior a esse tema nas pautas de sustentabilidade e de destinação de lixo.