Cortar verba do Carnaval é sinal de incompreensão do papel da gestão pública na economia

Tirar dinheiro de uma área não essencial, potencialmente autossustentável, para colocar nas creches. Difícil não concordar com isso batendo o olho de primeira na notícia, mas os detalhes mostram como a situação não é tão simples assim. O que torna a ideia da prefeitura do Rio de Janeiro de cortar 50% dos R$ 26 milhões repassados às escolas de samba para o Carnaval de 2018 em um equívoco, mesmo que seja para ajudar nas verbas da pré-escola.

A gestão pública ainda é vista por muita gente como pegar o dinheiro dos impostos e distribuir para as diversas ações custeadas pelo governo. Bota uma parcela na educação, uma outra na segurança, e na infraestrutura, e na saúde, e nos gastos de gabinete dos parlamentares… Nesse sentido, tirar dinheiro de escola de samba e colocar em creche está correto.

Mas o gestor, qualquer que seja o nível, precisa também mover a economia de sua área. Isso gera empregos, gera investimentos e gera até arrecadação de impostos. No caso do Rio de Janeiro de Marcelo Crivella, o turismo é um dos setores mais importantes, sobretudo no Carnaval. Assim, os recursos colocados no desfile de escolas de samba (por maior que seja o carinho dos crescentes blocos de rua, o grande atrativo para o turista, sobretudo o estrangeiro, ainda é a Sapucaí) dão retorno. Não é tirar dinheiro das creches, é ajudar a chegar mais.

O problema é que esse tipo de retorno é muito diluído: uma parte vem na indústria hoteleira, outra na de bares e restaurantes, outra no comércio… Cada loja, cada hotel, cada bar fica com um pouco disso e o benefício à cidade se vê na soma de tudo. É difícil criar um modelo de privatização ou de concessão disso. O poder público precisa, de alguma forma, participar. Isso ocorre em todo o mundo, até nos Estados Unidos, onde governos municipais e estaduais bancam a construção de estádios esportivos para ter uma equipe profissional na cidade.

É a mesma lógica, aliás, que torna os gastos no autódromo de Interlagos em algo válido para São Paulo, pois a Fórmula 1 traz muito dinheiro à capital paulista.

Isso não significa que Crivella não possa discutir a forma como o dinheiro é repassado às escolas de samba. Por exemplo, a prefeitura poderia – e deveria – estabelecer mecanismos de controles para ter certeza que essa verba será bem utilizada. O município também pode estabelecer um debate para que as escolas de samba criem novas fontes de renda e sejam mais atrativas para investidores ou patrocinadores, até que se tornem autossustentáveis.

O Carnaval de 2018 já está em pleno andamento em várias escolas, talvez todas. A prefeitura afirmou que “estuda o desenvolvimento de mecanismos para que sejam captados investimentos da iniciativa privada”, mas a verdade é que não há tempo de fazer isso já para o ano que vem sem que se afete os preparativos.

A crise econômica é forte no Brasil, e o Rio de Janeiro tem sido uma das cidades que mais têm sentido isso por causa da situação do governo municipal e do estadual. E precisará de inteligência e incentivo à economia para sair disso, não fazer o orçamento como se o único objetivo fosse pagar conta.

Qual a coisa mais legal dos sete exoplanetas descobertos em fevereiro

A Nasa anunciou no final de fevereiro a descoberta de sete planetas potencialmente dentro da zona habitável da estrela Trappist-1, localizada a 40 anos-luz da Terra. É uma informação empolgante, pois nunca haviam sido encontrados tantos planetas rochosos com possibilidade de conterem água líquida (e vida) de uma vez. O Salvador Nogueira explicou muito bem no seu ótimo blog Mensageiro Sideral.

Enquanto os astrônomos seguem nos estudos para descobrir se há ou não vida em algum desses astros, eu já começo a viajar mais longe. Uma coisa interessante é que os sete planetas do sistema da Trappist-1 têm órbitas muito próximas. Isso significa que, de um, é possível ver o outro com bastante detalhes, mais ou menos como nós observando a lua.

Não dá para afirmar que existe vida em um desses corpos celestes, muito menos que há em todos os sete e que elas são evoluídas. Mas o sangue nerd borbulha pensando na possibilidade de haver. Afinal, com uma distância tão reduzida entre eles, seria viável imaginar que civilizações que surgissem por ali poderiam efetivamente viajar de um planeta para o outro (algo que sonhamos aqui na Terra, mas será tecnologicamente inviável por muito tempo).

Vida longa e próspera ao sistema da Trappist-1. Que a força esteja com ele (sim, eu misturei as referências de propósito).

Mas, falando sério e de algo muito mais concreto, fiz uma reportagem para o site da Nova Escola sobre como a descoberta de novos planetas é fascinante e pode ser estudada por diversos enfoques, em diversas áreas. Astronomia é um barato!

A competição entre escolas de samba lembra o futebol, e isso não é coincidência

Cada equipe tem suas cores e sua torcida, contratam profissionais para competir pelo título de campeã da cidade ou para evitar o rebaixamento para a segunda divisão. Nos níveis mais baixos, a disputa é muito menos estruturada, com times amadores se unindo pelo amor àquele universo e o sonho de um dia estar entre os grandes.

Os desfiles de escolas de samba têm vida própria, mas é muito fácil traçar paralelos entre sua forma de disputa e a do futebol. E não há a menor coincidência nisso. é apenas consequência natural de como a disputa carnavalesca surgiu.

Na década de 1920, o samba começou a tomar a cidade como modo de se celebrar e festejar. Rodas se formavam em diversos pontos do Rio de Janeiro, mas ainda não era algo consagrado. Aos poucos, grupos foram se organizando na forma de blocos e tinham no Carnaval o momento de ir às ruas. Em 1928, o bloco Deixa Falar foi criado no Largo do Estácio, em frente a uma escola, motivo para eles se intitularem “escola de samba” como maneira de se diferenciar da instituição de ensino tradicional.

Aquele universo crescia e, em 1929, até houve uma disputa entre blocos. No caso, apenas para eleger o melhor samba do ano. A competição não teve sequência nos anos seguintes, até que, em 1932, o jornalista Mário Filho viu nas escolas de samba uma oportunidade de aumentar as vendas do jornal Mundo Sportivo, onde trabalhava.

No período do Carnaval, o futebol e o remo – principais modalidades esportivas do Rio na época – não tinham competições. Na falta de assunto para preencher páginas e convencer pessoas a comprarem as edições, Mário Filho (hoje nome do Maracanã e irmão de Nelson Rodrigues) teve a ideia de tratar as crescentes escolas de samba como se fossem times de futebol em uma competição mais estruturada. O fato de muitos redatores da publicação serem ligados ao samba foi mais um impulso.

Em 1932, o jornal organizou o primeiro desfile de escolas de samba. Os blocos passaram na rua Marquês de Pombal, apresentando três sambas inéditos cada um. Um grupo de seis jurados ficaria no coreto da Praça Onze para avaliar os desfiles de acordo com critérios pré-definidos e, ao final do Carnaval, anunciar o campeão. Foram 19 participantes, e a Mangueira ficou com o título.

No ano seguinte, o Mundo Sportivo havia fechado as portas, mas a ideia de Mário Filho tinha sido tão boa que o jornal O Globo assumiu a organização do desfile. Nesse ano, a Unidos da Tijuca fez um desfile temático, de acordo com o tema de seu samba. Foi o primeiro “samba enredo”.

Desde então, muitos elementos do desenvolvimento do desfile das escolas de samba lembram o futebol. Houve brigas entre ligas, houve dois campeões no mesmo ano, houve desenvolvimento de regras para diminuir a margem de polêmicas, houve criação de divisões de acesso quando a quantidade de participantes ficou grande demais para uma disputa apenas. 

Lançaram um sushi de Kit Kat. E não foi invencionice brasileira, foi no Japão mesmo

Brasileiro não tem muita cerimônia com comida. Gosta de inventar coisas diferentes, como comer arroz e feijão com macarrão, até cometer crimes inafiançáveis, como colocar ketchup na pizza. Alguns puristas reclamam – e até têm razão dependendo do caso (o da pizza) – e constantemente citam o jeitão estilo livre de se formular sushis por aqui. Sushi de tudo quanto é coisa, atentados que fariam um japonês considerar a hipótese de declarar guerra ao Brasil. Mas, o que fazer com essa tese quando lançam um sushi de Kit Kat no Japão?

Isso mesmo, um sushi com chocolate. A iguaria está disponível nos sabores atum, ouriço do mar e ovo, mas o sabor mesmo é bem diferente. Apesar da presença de folha de alga, são doces com ingredientes como arroz, chocolate branco, framboesa, melão, mascarpone e abóbora para simular a imagem de um sushi tradicional. 

O lançamento marcou a inauguração da primeira loja de rua da Kit Kat, no bairro de Ginza, Tóquio, em 2 de fevereiro. O pacote com os três sabores custava 3 mil ienes, ou US$ 26, mas se esgotou (foram produzidos em quantidade limitada).

Tudo bem, esse caso é de algo bem pontual, de uma marca de chocolate querendo promover uma nova unidade de sua loja. No entanto, essa história de que japonês é sacrossanto quando se trata de suas comidas tradicionais é mito. Ainda que restaurantes tradicionais mantenham padrões mais rígidos, estabelecimentos voltados para jovens ou turistas não têm medo de inventar moda.

O amigo Guilherme Pinheiro esteve no Japão em 2016 e postou uma pequena série de fotos de cardápios anunciando sushis inusitados. Veja:

Japão_Sushis bizarros 1

Japão_Sushis bizarros 2

Japão_Sushis bizarros 3

Japão_Sushis bizarros 4

O fato de haver sushis inusitados no Japão não significa que eles sejam populares e largamente consumidos (esse vídeo do Yo Ban Boo, por exemplo, mostra o estranhamento de um jovem japonês com os sabores “japoneses” do Brasil), mas eles existem. Do mesmo jeito que existe pizzas de sabores esquisitos na Itália (mais em lugares para crianças e jovens), que cerveja com frutas é largamente consumida na Alemanha e que os brasileiros, ao contrário do que creem muitos estrangeiros, não veem problema em trocar o limão e a cachaça por outra fruta ou bebida na caipirinha.

Por que cidades texanas gastam tanto construindo estádios para torneios escolares

Estádio para futebol americano escolar em Allen, Texas (AP, via Extratime)
Estádio para futebol americano escolar em Allen, Texas (AP, via Extratime)

Todo amante de futebol americano já sabe: “Texas” significa “amigo”. Mas, se fôssemos usar uma palavra para representar o lugar, teria de ser “grandiosidade”. Não é apenas pelo tamanho de seu território, o segundo maior entre os estados americanos, mas também pelo apreço dos locais em coisas grandes e até megalomaníacas. Não à toa, a maior arena da NFL é a do Dallas Cowboys, com 105 mil lugares. Mas um sinal de como texanos gostam de exagerar pode ser visto mesmo é no futebol americano de ensino médio. No mês passado, a cidade de McKinney começou a construção de um estádio de 12 mil lugares e US$ 87 milhões de custo para três times de high school.

Os números já dão sinais de extravagância, mas eles ficam ainda mais impressionantes se considerarmos que a cidade já tem um estádio de futebol americano para ensino médio, o Ron Poe, que foi reformado há apenas dez anos e tem 10 mil lugares. Pior, mesmo o estádio antigo nunca recebeu um público acima de 5 mil pessoas. Ou seja, o estádio atual, que recebeu investimento de US$ 10 milhões em reforma, nunca teve nem 50% de ocupação. Por que construir outro?

Poderia ser alguma fascinação de McKinney, mas o fenômeno é mais amplo. Outras cidades na Grande Dallas seguem o mesmo caminho: Plano pagou US$ 20 milhões por um estádio de 9,8 mil lugares em 2004, Allen bancou US$ 72 milhões para uma arena de 18 mil lugares (foto acima) e Frisco desembolsou US$ 90 milhões no complexo de treinamento dos Cowboys, que inclui um campo coberto com 12 mil lugares para o time da NFL e as equipes colegiais. Nenhum desses empreendimentos – nem o CT dos Cowboys – se justifica como investimento para as cidades.

A questão é mais complicada. Pela lei texana, os distritos escolares – instituições que gerenciam o ensino público, mas são independentes das prefeituras, dos condados ou dos estados – podem convocar referendos para aprovar a emissão de títulos da dívida de seus municípios como forma de captar recursos. No entanto, todo o dinheiro arrecadado nesse processo precisa ser gasto em equipamentos, construção de novas estruturas, reforma de estruturas antigas ou compra de terreno. Ou seja, essa verba não pode ser utilizada para fins diretamente educacionais, como melhorar o salário de professores, contratar novos professores ou melhorar o sistema de transporte para os alunos. Medidas necessárias para o estado que ocupa apenas a 38ª posição no ranking de qualidade de ensino nos EUA.

Claro, os distritos poderiam investir em melhoria em ampliação ou reforma das escolas, mas gastar com estádios tem mais apelo. Primeiro, porque a proposta de um estádio tem mais chance de aprovação no referendo, definido por eleitores de alto poder aquisitivo (são cidades ascendentes). Segundo, porque as próprias prefeituras querem na competição entre elas por novos empreendimentos.

Essa faixa de municípios ao norte de Dallas tem recebido muitos investimentos imobiliários e aumento da população. Ter estádios grandiosos, ainda que apenas para ficarem vazios em partidas de ensino médio, impressiona as pessoas que pretendem morar na região e estão escolhendo alguma cidade. Imaginar que seu filho pode jogar futebol americano em um enorme estádio tem seu apelo – ainda que, no final das contas, saia caro no bolso.

Por que é tão ofensivo cantar os versos antigos do hino da Alemanha

Era para ser apenas mais um jogo da Fed Cup, a competição feminina entre nações do tênis. A alemã Andrea Petkovic ia enfrentar a norte-americana Alison Riske na abertura da série, realizada em Lahaina, no Havaí. No momento dos hinos, o solista e professor universitário Will Kimble foi ao centro da quadra e começou a cantar: “Deutschland, Deutschland über alles, Über alles in der Welt”.

Erro de hino antes de uma competição esportiva não chega a ser novidade. Na Copa do Mundo de 1986, os mexicanos trocaram o hino brasileiro pelo Hino à Bandeira antes de Brasil x Espanha. Trinta anos depois, os americanos colocaram o hino do chileno no lugar do uruguaio antes de um Uruguai x México na Copa América Centenário.

Mas o caso alemão é pior. Não é apenas uma troca de uma música por outra, por mais inconveniente que isso seja, mas trazer à tona uma letra que virou um símbolo do nazismo – e até hoje é cantada por grupos extremistas no país.

O hino alemão foi composto por Joseph Haydn em 1797 para o aniversário do Imperador Francisco II, último líder do Sacro Império Romano-Germânico. Na década de 1840, o império estava ruindo, mas o movimento de unificação das nações germânicas ganhava força. August Hoffmann compôs uma nova letra, enfatizando justamente essa ideia de que uma união era mais importante do que qualquer coisa. A música começava com o “Deutschland, Deutschland über alles, Über alles in der Welt”, ou “Alemanha, Alemanha acima de tudo, Acima de tudo no mundo”.

A versão de Hoffmann, Deutschlandlied, era composta por três estrofes. Com a unificação alemã, ela foi ganhando força aos poucos e passou a ser adotada em algumas cerimônias oficiais. Em 1922, foi confirmada como o hino alemão.

Na década seguinte, Adolf Hitler chegou ao poder com um discurso fortemente nacionalista. Eventos oficiais eram constantes, sempre marcados pelo hino alemão – tocado só em seu primeiro trecho (o “Deutschland über alles”) – seguido pelo hino do Partido Nacional-Socialista (“Horts-Wessel-Lied”, uma música hoje proibida na Alemanha). De repente, o “Alemanha acima de tudo, acima de tudo no mundo” ganhou um novo significado, muito mais sinistro do que o de uma nação que queria se formar a partir de pequenos estados.

Com o final da Segunda Guerra Mundial e a queda do nazismo, a Alemanha foi dividida. O lado oriental, comandado pela União Soviética, criou um novo hino, mas o ocidental, sob administração anglo-franco-americana, ficou um período sem uma canção nacional. Em 1952, foi aceita a proposta de usar a Deutschlandlied, mas mantendo apenas a melodia e o terceira parte, quase desconhecido na época. Ele começa com “Einigkeit und Recht und Freiheit” (“Unidade e Justiça e liberdade”), palavras que se tornaram um lema não-oficial do país.

Formalmente, os versos iniciais do hino não haviam sido banidos, mas eram rejeitados pela relação com o nazismo. Em 1991, quando a Alemanha se reunificou, foi confirmado que apenas a terceira parte fazia parte do hino do país. As duas primeiros foram retirados.

Não é difícil encontrar na internet a versão antiga do hino alemão, com o trecho vinculado ao nazismo. Em vários casos, aparece como “o hino completo”, mas é um erro de informação. O hino completo, desde 1991, é formado apenas pelo trecho que se inicia com “Einigkeit und Recht und Freiheit”. As demais partes não são reconhecidas e sofrem rejeição pela maioria dos alemães pelo que representam. Até porque são constantemente entoadas em manifestações neonazistas no país.

Por isso, quando o antigo hino começou a ser cantado antes do jogo da Fed Cup, a delegação e torcedores da Alemanha começaram a cantar quase gritando a versão correta, tentando abafar o cantor. Não era apenas corrigir um erro, mas responder a uma ofensa.

Um hino com história parecida com a Deutschlandlied é a Marcha Real. O hino da Espanha nunca teve letra oficial, mas várias versões foram propostas ao longo dos séculos. Uma delas recebeu a aprovação do General Francisco Franco e foi adotada em várias cerimônias durante sua ditadura. Com sua morte, o hino espanhol voltou a não ter letra (um dos únicos do mundo nessa condição, ao lado de San Marino) e recuperar os versos antigos é quase que uma manifestação de aprovação ao antigo regime. E, claro, também houve uma gafe com ele em um evento esportivo. No caso, durante a premiação de Caroline Marín no Mundial de Badminton na Indonésia, em 2015.

Como a economia de Oakland explica a trajetória dos times profissionais locais

Torcedor dos Raiders pede para o time não se mudar de Oakland (Stay in Oaktown / Facebook)
Torcedor dos Raiders pede para o time não se mudar de Oakland (Stay in Oaktown / Facebook)

Ainda não se sabe por quanto tempo, mas há elementos de sobra para cravar que o Oakland Raiders como conhecemos está com os dias contatos. A franquia está em negociações abertas em busca de um novo estádio e dificilmente haverá algum arranjo que faça o time permanecer na cidade onde vive desde 1995. A candidata mais forte é Las Vegas, ainda que os últimos acontecimentos afastaram a equipe da terra dos cassinos. San Antonio também já conversou com a direção da equipe e até uma mudança bizarra para San Diego (ex-terra do rival Chargers) foi cogitada. Só a continuidade na Baía de São Francisco parece descartada.

Se ou quando isso se concretizar, Oakland dará mais um passo para seu enfraquecimento esportivo. Afinal, já está certo que, em 2019, o Golden State Warriors inaugurará um novo ginásio em São Francisco. Há até especulações de que o time voltaria a se chamar San Francisco Warriors, reforçando a identificação com a nova casa – e se afastando ainda mais da antiga. De repente, Oakland perderia um time que ensaia uma dinastia no basquete e uma das equipes mais tradicionais e de personalidades mais marcantes no futebol americano.

A história do esporte em Oakland tem ligação direta com a dinâmica da economia da região. São Francisco foi a primeira metrópole no litoral norte da Califórnia e sua vizinha, do outro lado da baía, servia apenas como cidade-dormitório para quem não tinha dinheiro para viver perto do trabalho ou para indústrias. Na década de 1960, o cenário mudou. O aumento do uso de contêineres exigiu reforma e ampliação nos portos, e São Francisco não tinha como adaptar o seu. Melhor para o Porto de Oakland, que rapidamente se tornou o principal do estado.

Oakland não deixou de ser uma cidade operária para a rica São Francisco, mas passou a ter uma força econômica própria. O dinheiro do porto atraiu mais empresas, que atraiu mais gente e, no final das contas, atraiu mais times profissionais. Na NFL, o Oakland Raiders foi fundado em 1960 (entre 1982 e 94, jogou em Los Angeles). Na MLB, o Kansas City Athletics se mudou para a Califórnia em 1968. Na NBA, o San Francisco Warriors pegou a Bay Bridge, ponte que atravessa a baía, e se tornou o Golden State em 1971.

Coliseum, casa de A’s e Raiders, ao lado da Oracle Arena, ginásio dos Warriors (Flickr / Shawn Clover)
Coliseum, casa de A’s e Raiders, ao lado da Oracle Arena, ginásio dos Warriors (Flickr / Shawn Clover)

Desde então, muita coisa mudou. O Porto de Oakland perdeu relevância para o de Los Angeles e o de Long Beach e os problemas urbanos passaram a dominar a cidade, tida como uma das mais violentas dos Estados Unidos. Não era mais um ambiente animador para se investir em esportes, ainda mais porque as arenas esportivas já estavam mais do que defasadas. Uma hora a corda ia romper e algumas acabariam migrando.

Neste século, a Baía de São Francisco enriqueceu assustadoramente devido às empresas de tecnologia. O centro disso era São Francisco e a região de San José, ao sul da baía, apelidado de Vale do Silício. Há potenciais torcedores com dinheiro sobrando nesses lugares e, principalmente, empresas e empresários dispostos a patrocinar ou comprar camarotes corporativos de equipes profissionais. Para os Warriors, uma equipe que virou a queridinha dos novos-ricos de São Francisco, atravessar a baía de novo era uma decisão óbvia. Alguma franquia também acabaria buscando o Vale do Silício, que só era representado pelo San Jose Sharks, da NHL. O San Francisco 49ers tomou a dianteira e se mudou para Santa Clara, ainda que tenha mantido seu nome. Essa mudança dos Garimpeiros impediu qualquer movimentação dos Raiders que não fosse a luta por um estádio novo na sua atual sede (a prefeitura e a população rejeitaram financiar) ou partir para outra região metropolitana.

Dessa forma, Oakland provavelmente ficará apenas com os Athletics. E o time, que já tentou se mudar para Santa Clara (o San Francisco Giants barrou por ser o “dono” da área de San José/Santa Clara na divisão de mercados da MLB), dá sinais de que vai ficar. A diretoria até já anunciou que procura investidores para bancar um novo estádio sem uso de dinheiro público. Uma atitude e um comprometimento local muito diferente do visto com Warriors e Raiders. Mas faz sentido.

Sem ter de dividir os torcedores – e os dinheiro de patrocinadores locais – com outras duas franquias, os A’s estarão em situação privilegiada dentro de sua cidade. Além disso, todo o dinheiro que a tecnologia injetou em São Francisco e no Vale do Silício começou a chegar a Oakland. Claro, empresas do setor querem abrir sedes no norte da Califórnia, onde está boa parte da cadeia produtiva dessa indústria, e algumas já começam a buscar a cidade mais desvalorizada da região em busca de imóveis baratos. Um exemplo é o Uber, que inaugurará uma sede gigantesca em Oakland em 2018.

Assim, as perspectivas em longo prazo são relativamente boas para a economia da cidade. O boom trazido pelo porto nos anos 60 talvez não voltem, mas a fama de cidade violenta e sem esperança deve acabar. Os A’s perceberam isso e já se articulam para aproveitar a oportunidade, ainda mais com seus vizinhos de basquete e futebol americano indo embora.

Fla-Flu político faz prefeitura de SP perder tempo com polêmica dos grafites

“Ficou muito cinza e há uma vontade de fazer.” André Sturm, secretário da cultura do município de São Paulo, reconheceu que ficou um “ruído” no excesso de cinza nos muros que margeiam a avenida 23 de Maio, principal ligação entre o sul e o centro da capital paulista. Um cenário criado menos de uma semana antes pelo seu próprio chefe, o prefeito João Doria Jr., dentro do programa Cidade Linda. Um vaivém de posições que reforça o quanto essa medida está, mais que embelezando ou enfeiando a cidade, fazendo a prefeitura perder tempo desnecessariamente.

A polarização e politização das discussões é alta em São Paulo (bem, é em todo o mundo). Cada atitude ou opinião já é carimbada como “coisa de esquerda” ou “coisa de direita”. E um lado não admite sequer abrir um diálogo com o outro.

A gestão de Fernando Haddad teve como uma das marcas a valorização do grafite como forma de expressão e de arte urbana. O próprio prefeito aproveitou para agradar seu público e pegou uma latinha de spray para deixar sua marca em um muro – no caso, a cara do Pato Donald. Virou algo de esquerda – uma percepção ajudada pelo fato de um dos desenhos mais marcantes desse processo ter uma estranha semelhança com Hugo Chávez.

Por isso, Doria rapidamente identificou nisso uma forma de marcar posição como um gestor diferente de seu antecessor. Assim, uma de suas primeiras medidas a pintura de vários muros de cinza, sem discriminar o grafite das pichações – que, realmente, se espalharam como epidemia nos últimos anos. Era o programa São Paulo Cidade Linda.

O problema é que, no final das contas, a população de verdade – e não os militantes de esquerda e direita que povoam as redes sociais – nem sempre está se importando com o rótulo que deram. Mesmo quem não gosta de um lado pode estar satisfeito com questões pontuais. Por exemplo, políticas de mobilidade de Haddad foram aprovadas em uma pesquisa realizada no ano passado, mas sua gestão, não.

No final das contas, a reação da população com os muros cinzas foi rápida e negativa. Grafiteiros e pichadores ameaçam desafiar o poder público e criar um jogo de gato e rato, com um pinta-pinta de muros. Além disso, essa discussão começou a criar em torno de Doria a imagem de uma pessoa sem graça, chata. Aí, dá para entender por que Sturm admitiu que talvez tenham passado do ponto e por que o município pensa em criar um Festival do Grafite.

A questão aí não é se os muros deveriam estar grafitados ou ficar monocromáticos. É que esse tema está longe de ser o mais importante na cidade. O atual prefeito, na vontade de se mostrar diferente do antecessor, acabou atirando para onde não precisava e, por isso, era uma área em que só tinha a perder.

Seria muito melhor se tivesse aproveitado esse tempo e essa energia para trabalhar em outro problema ou mesmo para aumentar o foco em outras políticas que já adotou, como a aceleração na realização de exames de quem estava na fila da rede municipal de saúde ou o programa para que a comunidade adote praças. Medidas que até merecem discussão mais profunda, mas que, ao menos, trariam muito mais benefícios à imagem do novo prefeito.

Rio precisa conquistar mais turistas, não cobrar imposto dos que já tem

Marcelo Crivella não deu detalhes, pois ainda é uma ideia embrionária, mas já mostrou a intenção de colocar na conta do turista uma parte das medidas de recuperação do caixa da cidade. O novo prefeito do Rio de Janeiro afirmou que estuda criar uma taxa de “R$ 4 ou 5” para quem se hospedar na cidade. Uma iniciativa simplista, imediatista e, principalmente, potencialmente nociva.

Esse imposto para turistas não é novidade no mundo. Ele é cobrado em cidades italianas (imposta di soggiorno) e francesas (taxe de séjour) e em estados norte-americanos (occupancy tax), por exemplo. Crivella, inclusive, usou o fato de ser cobrado “no mundo inteiro” como argumento para defender a criação de um similar carioca. Mas isso não torna a ideia mais válida ou mais adequada, simplesmente porque a realidade desses lugares é diferente.

Com 6,43 milhões de visitantes estrangeiros, o Brasil foi apenas o 43º destino turístico mais procurado no mundo em 2014 de acordo com o ranking da Organização Mundial do Turismo. O cenário melhorou em 2016, com 6,6 milhões de turistas (o que não deve resultar em uma subida considerável no ranking, diga-se), mas o turismo representa apenas 0,3% do PIB nacional, um percentual menor que o do Iraque. Isso já mostra quanto o país tem potencial para crescer nesse setor, sobretudo considerando o apelo que possui em várias áreas e à boa avaliação (não na organização, mas na hospitalidade) como anfitrião de eventos como Copa do Mundo e Jogos Olímpicos.

O Rio de Janeiro deveria se concentrar em atrair mais gente, em convencer milhares ou milhões de turistas a irem à Cidade Maravilhosa ao invés de buscarem destinos como Tailândia, México ou África do Sul (países à frente do Brasil no ranking da OMT). Esses turistas deixariam seu dinheiro no comércio, na bilheteria em atrações turísticas e, no final das contas, reforçariam o caixa da prefeitura e do governo estadual.

O problema é que isso dá trabalho. Seria necessário montar uma estratégia para elevar ainda mais o Rio como destino internacional, aumentando a promoção (propaganda) no exterior, desenvolvendo mais as atrações existentes na cidade (melhorando as que existem e criando novas) e atacando os pontos negativos do ponto de vista do turista (violência, desorganização nos serviços públicos, zika). Ao cobrar um imposto, por mais baixo que ele pareça, só se cria uma atitude antipática que pode atrapalhar na hora de um visitante escolher entre o Rio ou outro destino.

Itália, França e Estados Unidos não precisam se esforçar tanto para convencer o turista. Esses países ocupam três das cinco primeiras posições no ranking da OMT, sinal de que sua indústria do turismo já está bem estruturada e várias de suas atrações turísticas são conhecidas mundialmente. Pessoas de todos os cantos do globo têm como sonho conhecer lugares como o Coliseu, a Torre Eiffel e o Grand Canyon, comer uma legítima massa italiana, tomar um vinho francês recém-saído do barril ou tirar uma foto com o Mickey Mouse. E elas se dispõem a pagar uma taxa para cada noite dormida se for o caso.

O pior é que o tal imposto teria pouco efeito prático no caixa municipal. O Rio de Janeiro recebeu 1,9 milhão de turistas estrangeiros em 2014, segundo o Euromonitor. Se cada um pagar os tais “cinco reais” mencionados por Crivella, seriam R$ 9,5 milhões. Se a taxa for cobrada por noite dormida – como é na Itália, na França e nos EUA -, o ganho seria de R$ 113,05 milhões. Se a taxa for para todos os turistas, estrangeiros e os 7,3 milhões vindo de outras regiões do Brasil, a arrecadação seria de R$ 46 milhões para a cobrança única e R$ 259,05 milhões para a cobrança diária.

As contas acima consideram quatro dias de estadia média para o turista brasileiro e 11,9 para o estrangeiro, números levantados em pesquisa contratada pela TurisRio.

O imposto seria até justificável como atitude para resolver um problema imediato, mas ele está longe de resolver o problema de caixa da prefeitura. Os números parecem altos, sobretudo os R$ 259 milhões, mas são nanicos perto do orçamento do município (R$ 29,5 bilhões) e do gasto com dívidas (R$ 1,3 bilhão) previstos para 2017. E, se a medida em si não resolve, vale mais a pena fazer o turismo trazer dinheiro como uma atividade econômica em crescimento, e não como taxa para seus consumidores.

Proposta da prefeitura de São Paulo para Marginais é confusa e perigosa

A promessa de campanha será cumprida e a velocidade será aumentada, mas nem tanto assim. João Doria Jr, prefeito eleito de São Paulo, anunciou a política de sua gestão para as Marginais Tietê e Pinheiros. No dilema entre retornar aos limites de antes de Fernando Haddad e manter os reduzidos índices de acidentes, o futuro mandatário da capital paulista ficou no meio termo. Aumentou a maior parte das faixas, mas manteve em uma. É confuso na teoria, e pode ficar ainda pior para que circular nessas vias.

Os novos limites são 90 km/h nas vias expressas, 70 km/h nas vias centrais (existente apenas na Marginal Tietê), 60 km/h nas faixas centrais e da esquerda da via local e 50 km/h na faixa da direita da via local. a regra passa a valer a partir de 25 de janeiro de 2017. Até essa data, aniversário de São Paulo, vale os 70 km/h na via expressa, 60 km/h na central e 50 km/h na local.

A medida soa esperta politicamente, pois cumpre uma promessa de campanha e ainda cria um mecanismo para responder aos defensores da redução de velocidade como mecanismo de segurança (sobretudo aos pedestres). No entanto, a ideia é bastante questionável em vários aspectos.

Com faixas vizinhas em limites diferentes, a chance de um motorista se confundir é consideravelmente grande. Com isso, muitos veículos entrariam na faixa de 50 km/h a velocidades superiores, aumento o risco de acidente e até a chance de ele ser pego no radar e receber uma multa (e, teoricamente, todo esse esforço de aumentar o limite de velocidade é para atacar a tal “indústria da multa”). Se ele se lembrar e frear antes de trocar de faixa, pode criar problema na faixa central, com carros a 60 km/h tendo de lidar com outros freando apenas porque vão trocar de faixa.

Em menor grau, esse tipo de problema pode ocorrer na Marginal Pinheiros e nos trechos da Marginal Tietê sem faixa central. Nessas vias, veículos a 90 km/h na via expressa terão de reduzir 30 km/h quando entrarem diretamente na via local, contando apenas com a via de acesso como espaço para isso. A chance de algum conflito também existe, sobretudo em horários de pouco movimento, com motoristas baixando um pouco seu nível de cuidado e atenção.

A Folha de São Paulo ouviu especialistas no assunto e nenhum defendeu a medida. “Vai ter gente entrando na avenida, gente saindo da avenida. Como as marginais têm distâncias muito curtas entre uma ponte e outra, entradas e saídas, o importante é que a pista tenha velocidade uniforme”, afirmou Luiz Carlos Mantovani Néspoli, superintendente da Associação Nacional de Transportes Públicos, ao jornal. O consultor em mobilidade Sérgio Ejzenberg é contra a redução implementada por Haddad, mas também critica a decisão de Doria. “O padrão para vias expressas urbanas, como a pista expressa da marginal, é 80 km/h. Não há justificativa para colocar 90 km/h, principalmente na marginal Tietê, que tem um projeto geométrico muito ruim, com muitos desvios para a direita e caminhões.”

Por isso, a futura prefeitura de São Paulo prometeu colocar muita sinalização para orientar os motoristas. Mas é importante que ela não seja apenas informativa, mas que também o projeto das vias tenha alterações para induzir os veículos a se acomodarem bem dentro dos limites, tornando mais fluidos os pontos de maior risco de conflito. Tudo isso para se ganhar de alguns poucos minutos no deslocamento.

Texto publicado originalmente no Outra Cidade.