Nem o Muro de Berlim impedia a passagem do metrô

O que? Neste fim de semana será lançado o filme “Ponte dos Espiões”, estrelado por Tom Hanks e dirigido por Steven Spielberg. A produção conta a história de um espião norte-americano que tinha de negociar com o governo soviético a troca de prisioneiros capturados em Berlim durante a Guerra Fria. Um dos cenários mais importantes é a estação Friedrichstrasse, que viveu por décadas a estranha realidade de estar na Alemanha Oriental, mas servir de baldeação para usuários do metrô da Berlim Ocidental.

Baldeação em terra estrangeira

“Última estação em Berlim Ocidental! Última estação em Berlim Ocidental!”

A repetição e a ênfase do aviso eram importantes. Afinal, uma desatenção poderia causar graves problemas, como fazer o usuário do S-bahn, o trem metropolitano de Berlim Ocidental, cair no meio de Berlim Oriental, onde haveria dezenas de policiais se certificando que ninguém ia tentar um meio alternativo de entrar na Alemanha comunista. E essa era uma situação comum para milhares de berlinenses. Muitos deles só estavam se deslocando para o trabalho ou voltando para casa, e precisavam atravessar a fronteira para fazer a baldeação.

Trem urbano de Berlim Ocidental em 1977
Trem urbano de Berlim Ocidental em 1977

É isso mesmo. Um enorme muro dividiu o lado capitalista do lado comunista de Berlim por décadas, configurando uma das fronteiras mais hostis e explosivas do mundo no século 20. Mas havia um jeito muito fácil de passar por ela, pelo menos fisicamente: pegando o metrô ou o trem metropolitano da Berlim Ocidental. Uma situação inusitada e retratada no filme “Ponte dos Espiões”, dirigido por Steven Spielberg, estrelado por Tom Hanks e com lançamento previsto para esta sexta nos cinemas brasileiros.

Quando norte-americanos, soviéticos, britânicos e franceses dividiram Berlim após a Segunda Guerra Mundial, não se preocuparam em separar as áreas de acordo com a rede de trens urbanos e metrô da cidade. O trânsito entre as regiões administrativas foi relativamente livre por alguns anos e isso não era um problema, até que a União Soviética, preocupada com o êxodo de alemães-orientais, decidiu separar fisicamente o lado ocidental da metrópole.

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O Muro de Berlim não dividia apenas as ruas da cidade. Ele também atingiu o sistema de transporte público. As linhas do U-bahn (metrô) e do S-bahn (trem urbano) que iam de um lado a outro foram rompidas, transformadas em ramais pequenos dentro de seu lado da cidade. O problema era como lidar com a S2, U6 e U8, que começavam e terminavam em Berlim Ocidental, mas passavam por um pedaço de Berlim Oriental no caminho.

A solução foi manter o trajeto, que passava por baixo ou por cima do Muro de Berlim. As estações em território oriental foram desativadas, mas tinham sempre forte policiamento para evitar que os trens parassem para alguém descer e entrar na Alemanha Oriental sem autorização. Quem queria evitar esse trecho mais sensível era alertado para descer na última estação antes de cruzar a fronteira.

Mapa das linhas de metrô e trem urbano de Berlim Ocidental que passavam pelo lado oriental. As bolinhas com "-" indicam estações fechadas
Mapa das linhas de metrô e trem urbano de Berlim Ocidental que passavam pelo lado oriental. As bolinhas com “-” indicam estações fechadas

Nesse contexto, havia uma exceção: Friedrichstrasse. A estação servia de conexão entre as linhas U6 e S2. Para os berlinenses-ocidentais mudarem de linha, era possível desembarcar na estação e trocar de trem. O que criou a inusitada situação de forçar as pessoas a irem a outro país para fazer uma baldeação enquanto ia ao trabalho. No entanto, aquele também era o ponto final de uma linha de Berlim Oriental, o que obrigou o governo a erguer estruturas para separar a estação em duas, criando postos de imigração dentro dela (área que foi apelidada de “Palácio das Lágrimas”).

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A estação Friedrichstrasse se transformou em um ponto crítico para alemães que queriam ir de um lado a outro. Além das vias oficiais (posto de imigração), havia um caminho secreto usado por agentes do serviço de inteligência da Alemanha Oriental para entrar na Alemanha Ocidental. Essa rota também era usada como via de escape para membros de grupos comunistas alemães-ocidentais que queriam atravessar a fronteira sem registro por parte do governo do lado capitalista.

Claro, a Friedrichstrasse foi cenário de algumas passagens do filme de Spielberg (apesar de a “Ponte dos Espiões” que dá nome à produção ser do outro lado da Berlim Ocidental). A história da estação é um pouco da história da relação sensível entre os poderes da Guerra Fria, mas também mostra como é difícil dividir uma cidade.

Um centro urbano é um organismo vivo dentro do qual as pessoas interagem e se cruzam por caminhos muitas vezes sinuosos. São os indivíduos que dão energia às cidades, sobretudo às metrópoles, e permitir que eles circulem é fundamental. Mesmo que seja necessário abrir uma exceção em uma das fronteiras mais vigiadas da história.

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O que é?

O Muro de Berlim caiu em 1989, mas as Alemanhas Oriental e Ocidental só voltaram a ser oficialmente um país mais de um ano depois, em 3 de outubro de 1990. Já são 25 anos que a Alemanha não tem sobrenome, mas as marcas dos 55 anos de divisão ainda estão vivas nas ruas berlinenses. O lado comunista ainda tem fortes marcas do conceito urbano do governo comunista, com largas avenidas e arquitetura austera. Mas os berlinenses abraçaram o outro lado, transformando o que era sóbrio e sisudo em uma área para manifestações artísticas que deram nova vida a uma grande região de sua cidade. Ubiratan Leal mostra como isso ocorreu, e de que forma esses conceitos já começam a aparecer em outra metrópole que costuma priorizar a funcionalidade: São Paulo.

Uma experiência urbana em escala real

Lá está ela, imponente e decadente ao mesmo tempo. A antiga sede da Gasag, companhia de gás de Berlim, parece um monumento à austeridade. O edifício abandonado de cinco andares é duro, seco e quadrado, ao mesmo tempo que parece eterno como uma pedra. Impossível ignorá-lo quando se passa pela Mühlenstrasse (rua Mühlen) na altura da Ostbanhof, uma das estações de trem da capital alemã. Ele está lá, incomodando os olhos de quem acha que a maior cidade do país mais rico da Europa precisa ser uma ode ao romantismo urbano, mas avisando que esperar aquilo é ingenuidade. Afinal, a Alemanha virou uma só, mas, 25 anos depois da reunificação, o passado comunista ainda é muito vivo na paisagem berlinense.

Antiga sede da Gasag, em Berlim (Flickr/Uwe Dörnbrack)
Antiga sede da Gasag, em Berlim (Flickr/Uwe Dörnbrack)

Berlim é mais que uma cidade, é uma experiência urbana. Destruída na Segunda Guerra Mundial e dividida por dois governos de ideologias muito diferentes, a capital alemã se reconstruiu como duas cidades diferentes. Dentro do muro que separava os dois lados, uma cidade ocidental como tantas outras. Fora dele, a cidade ideal dentro da visão dos governos do Leste Europeu: a funcionalidade reina, sobretudo nas áreas reconstruídas. Avenidas largas, grandes edificações e o cinza do concreto dominam a paisagem.

A reunificação não deu início a (mais uma) reconstrução berlinense. Ao invés de derrubar tudo (de novo) e reerguer uma Berlim de uma cara só, um lado da cidade aceitou o outro como ele é. Dessa forma, os alemães expunham ao mundo – e a eles próprios – o passado daquele lugar, sem esconder o lado feio (o que era uma obsessão justificada da Alemanha pós-guerra), e o fim da divisão política virou uma oportunidade de mudar a forma de dar uma nova interpretação àquela área.

Não precisa ser um guru do mercado imobiliário para imaginar que a antiga Berlim Oriental não era a área mais valorizada da cidade na década de 1990. Os imóveis eram padronizados e tinham poucos luxos e a urbanização dos bairros já soava defasada, pois havia sido pensada para outra época. Os preços caíram. Algumas construções, como a antiga sede da Gasag, ficaram abandonadas. Mas outras acabaram atraindo quem precisava de moradia acessível: imigrantes e artistas.

A Berlim Oriental criou uma curiosa mistura de um urbanismo antiquado se transformando em cenário das manifestações mais modernas da cidade. A começar pelo edifício da Gasag, cujo abandono não impediu que, por dentro, ele se transformasse em uma galeria secreta de arte urbana. No terreno ao lado, um grupo aproveitou uma área sem uso para criar um espaço para food trucks de comida caribenha e uma locadora de bicicletas. Mais a leste, o que parece uma casa completamente sem atrativo é o Suicide Circus, um dos principais clubes noturnos da cidade.

Exemplos como esses há aos montes, mas o caso mais famoso é a East Side Gallery. Um trecho do muro de Berlim a cerca de 500 metros da Gasag foi usado para a manifestação de diversos artistas. Há dezenas de grafites, com mensagens em favor à liberdade de expressão, contra a intolerância ou simplesmente levando a arte ao que era o símbolo da divisão alemã. Como era de se esperar, o local se transformou em ponto turístico.

Essa releitura urbana deu à Berlim Oriental uma nova vida. De renegada pelo mercado imobiliário, a região ganhou uma cara, um nicho. Não é valorizada como um apartamento no Charlottenburg (bairro nobre do lado ocidental), mas encontrou seu caminho. Já faz parte do caráter berlinense.

A capital alemã deixa um exemplo de como transformar e dar vida nova a uma cidade ou a uma região pode ser mais fácil do que reconstruir. Um conceito que aos poucos é entendido em São Paulo, uma cidade que também cresceu vendo a funcionalidade como elemento primordial, canalizando e enterrando rios, cortando bairros históricos com vias elevadas e construindo vias expressas que impedem a comunicação entre bairros vizinhos.

Grafite de Nunca e Osgêmeos na avenida 23 de Maio (Flickr/Pablo Meira)
Grafite de Nunca e Osgêmeos na avenida 23 de Maio (Flickr/Pablo Meira)

As iniciativas surgem, algumas incentivadas pelo poder público, como os grafites no Minhocão e ao longo da Avenida 23 de Maio, a maioria partindo da sociedade, caso do surgimento de um polo cultural na antiga área industrial do bairro da Barra Funda e da transformação de Guaianases em cenário para um empolgante cruzamento de novos imigrantes, como haitianos e nigerianos.

No entanto, outras áreas têm um processo reverso e sofrem para encontrar seu rumo. Enquanto parte da sociedade tenta melhorar a relação da cidade com o Minhocão, por exemplo, a poucos quarteirões de distância se multiplicam as cracolândias. O ambiente urbano não consegue servir como elemento de integração de milhares de pessoas, ele apenas as confina em guetos.

O debate em São Paulo precisa considerar formas de reinterpretar estruturas e bairros feitos para rejeitar romper com o tecido urbano. Ainda que em realidades muito diferentes, Berlim conseguiu.