A competição entre escolas de samba lembra o futebol, e isso não é coincidência

Cada equipe tem suas cores e sua torcida, contratam profissionais para competir pelo título de campeã da cidade ou para evitar o rebaixamento para a segunda divisão. Nos níveis mais baixos, a disputa é muito menos estruturada, com times amadores se unindo pelo amor àquele universo e o sonho de um dia estar entre os grandes.

Os desfiles de escolas de samba têm vida própria, mas é muito fácil traçar paralelos entre sua forma de disputa e a do futebol. E não há a menor coincidência nisso. é apenas consequência natural de como a disputa carnavalesca surgiu.

Na década de 1920, o samba começou a tomar a cidade como modo de se celebrar e festejar. Rodas se formavam em diversos pontos do Rio de Janeiro, mas ainda não era algo consagrado. Aos poucos, grupos foram se organizando na forma de blocos e tinham no Carnaval o momento de ir às ruas. Em 1928, o bloco Deixa Falar foi criado no Largo do Estácio, em frente a uma escola, motivo para eles se intitularem “escola de samba” como maneira de se diferenciar da instituição de ensino tradicional.

Aquele universo crescia e, em 1929, até houve uma disputa entre blocos. No caso, apenas para eleger o melhor samba do ano. A competição não teve sequência nos anos seguintes, até que, em 1932, o jornalista Mário Filho viu nas escolas de samba uma oportunidade de aumentar as vendas do jornal Mundo Sportivo, onde trabalhava.

No período do Carnaval, o futebol e o remo – principais modalidades esportivas do Rio na época – não tinham competições. Na falta de assunto para preencher páginas e convencer pessoas a comprarem as edições, Mário Filho (hoje nome do Maracanã e irmão de Nelson Rodrigues) teve a ideia de tratar as crescentes escolas de samba como se fossem times de futebol em uma competição mais estruturada. O fato de muitos redatores da publicação serem ligados ao samba foi mais um impulso.

Em 1932, o jornal organizou o primeiro desfile de escolas de samba. Os blocos passaram na rua Marquês de Pombal, apresentando três sambas inéditos cada um. Um grupo de seis jurados ficaria no coreto da Praça Onze para avaliar os desfiles de acordo com critérios pré-definidos e, ao final do Carnaval, anunciar o campeão. Foram 19 participantes, e a Mangueira ficou com o título.

No ano seguinte, o Mundo Sportivo havia fechado as portas, mas a ideia de Mário Filho tinha sido tão boa que o jornal O Globo assumiu a organização do desfile. Nesse ano, a Unidos da Tijuca fez um desfile temático, de acordo com o tema de seu samba. Foi o primeiro “samba enredo”.

Desde então, muitos elementos do desenvolvimento do desfile das escolas de samba lembram o futebol. Houve brigas entre ligas, houve dois campeões no mesmo ano, houve desenvolvimento de regras para diminuir a margem de polêmicas, houve criação de divisões de acesso quando a quantidade de participantes ficou grande demais para uma disputa apenas. 

Uma dica para quem quer saber mais sobre a queda do Império Romano

Uma das coisas mais incríveis de se aprofundar no estudo de qualquer aspecto da história é perceber como cada evento que conhecemos pode se tornar mais complexo e fascinante. Nada é simples, nada é caricato como nosso próprio cérebro quer acreditar.

Toda essa enrolação para dizer que vocês deveriam ouvir o podcast “Fall of Rome”. O jornalista americano Patrick Wyman fez seu doutorado sobre o processo que levou à queda do Império Romano (o do Ocidente) e decidiu criar um podcast para falar sobre o que aprendeu em sete anos de estudos. O nível de detalhe e contextualização é sensacional.

A série já está em seu 11º episódio, falando sobre a situação da economia romana antes da queda. Dá para acompanhar as edições anteriores e as atualizações no blog Fall of Rome ou no Soundcloud. Também é possível assinar o podcast em iPhone e Android.

Por que é tão ofensivo cantar os versos antigos do hino da Alemanha

Era para ser apenas mais um jogo da Fed Cup, a competição feminina entre nações do tênis. A alemã Andrea Petkovic ia enfrentar a norte-americana Alison Riske na abertura da série, realizada em Lahaina, no Havaí. No momento dos hinos, o solista e professor universitário Will Kimble foi ao centro da quadra e começou a cantar: “Deutschland, Deutschland über alles, Über alles in der Welt”.

Erro de hino antes de uma competição esportiva não chega a ser novidade. Na Copa do Mundo de 1986, os mexicanos trocaram o hino brasileiro pelo Hino à Bandeira antes de Brasil x Espanha. Trinta anos depois, os americanos colocaram o hino do chileno no lugar do uruguaio antes de um Uruguai x México na Copa América Centenário.

Mas o caso alemão é pior. Não é apenas uma troca de uma música por outra, por mais inconveniente que isso seja, mas trazer à tona uma letra que virou um símbolo do nazismo – e até hoje é cantada por grupos extremistas no país.

O hino alemão foi composto por Joseph Haydn em 1797 para o aniversário do Imperador Francisco II, último líder do Sacro Império Romano-Germânico. Na década de 1840, o império estava ruindo, mas o movimento de unificação das nações germânicas ganhava força. August Hoffmann compôs uma nova letra, enfatizando justamente essa ideia de que uma união era mais importante do que qualquer coisa. A música começava com o “Deutschland, Deutschland über alles, Über alles in der Welt”, ou “Alemanha, Alemanha acima de tudo, Acima de tudo no mundo”.

A versão de Hoffmann, Deutschlandlied, era composta por três estrofes. Com a unificação alemã, ela foi ganhando força aos poucos e passou a ser adotada em algumas cerimônias oficiais. Em 1922, foi confirmada como o hino alemão.

Na década seguinte, Adolf Hitler chegou ao poder com um discurso fortemente nacionalista. Eventos oficiais eram constantes, sempre marcados pelo hino alemão – tocado só em seu primeiro trecho (o “Deutschland über alles”) – seguido pelo hino do Partido Nacional-Socialista (“Horts-Wessel-Lied”, uma música hoje proibida na Alemanha). De repente, o “Alemanha acima de tudo, acima de tudo no mundo” ganhou um novo significado, muito mais sinistro do que o de uma nação que queria se formar a partir de pequenos estados.

Com o final da Segunda Guerra Mundial e a queda do nazismo, a Alemanha foi dividida. O lado oriental, comandado pela União Soviética, criou um novo hino, mas o ocidental, sob administração anglo-franco-americana, ficou um período sem uma canção nacional. Em 1952, foi aceita a proposta de usar a Deutschlandlied, mas mantendo apenas a melodia e o terceira parte, quase desconhecido na época. Ele começa com “Einigkeit und Recht und Freiheit” (“Unidade e Justiça e liberdade”), palavras que se tornaram um lema não-oficial do país.

Formalmente, os versos iniciais do hino não haviam sido banidos, mas eram rejeitados pela relação com o nazismo. Em 1991, quando a Alemanha se reunificou, foi confirmado que apenas a terceira parte fazia parte do hino do país. As duas primeiros foram retirados.

Não é difícil encontrar na internet a versão antiga do hino alemão, com o trecho vinculado ao nazismo. Em vários casos, aparece como “o hino completo”, mas é um erro de informação. O hino completo, desde 1991, é formado apenas pelo trecho que se inicia com “Einigkeit und Recht und Freiheit”. As demais partes não são reconhecidas e sofrem rejeição pela maioria dos alemães pelo que representam. Até porque são constantemente entoadas em manifestações neonazistas no país.

Por isso, quando o antigo hino começou a ser cantado antes do jogo da Fed Cup, a delegação e torcedores da Alemanha começaram a cantar quase gritando a versão correta, tentando abafar o cantor. Não era apenas corrigir um erro, mas responder a uma ofensa.

Um hino com história parecida com a Deutschlandlied é a Marcha Real. O hino da Espanha nunca teve letra oficial, mas várias versões foram propostas ao longo dos séculos. Uma delas recebeu a aprovação do General Francisco Franco e foi adotada em várias cerimônias durante sua ditadura. Com sua morte, o hino espanhol voltou a não ter letra (um dos únicos do mundo nessa condição, ao lado de San Marino) e recuperar os versos antigos é quase que uma manifestação de aprovação ao antigo regime. E, claro, também houve uma gafe com ele em um evento esportivo. No caso, durante a premiação de Caroline Marín no Mundial de Badminton na Indonésia, em 2015.

Olha o que os livros ensinavam sobre diferenças raciais aos nossos avós

Há racismo no Brasil, sempre houve. Talvez hoje ele se mascare de outra forma, mas o preconceito já foi algo aberto e institucional. Um exemplo veio de um achado do músico, jornalista e remista Lucas Berredo, amigo de jornadas automobilísticas. Sua prima estava vasculhando objetos que pertenceram ao avô e encontrou um livro didático de geografia e história publicado em 1936. Uma obra que revela muito sobre sua época.

Na página 17, o material mostra a seus leitores a diferença entre raças. A “raça branca” é descrita como “mais intelligente, activa, perseverante, emprehendedora e civilizada de todas”. Os “amarellos” são “intelligentes, perseverantes e emprehendedores”, mas não fala nada em civilizado e “activo”. E os negros… bem… eles “estão muito mais atrasados que os precedentes”.

Definições raciais em livro didático de 1936 (Lucas Berredo)
Definições raciais em livro didático de 1936 (Lucas Berredo)

Essas palavras são de revirar o estômago (e não vou gastar linha contra-argumentando esse horror), mas é ainda mais assustador imaginar que isso era usado como material didático no primário (atual ensino fundamental I), para crianças que não tinham repertório para contestar. O livro é colocado como referência para alunos que fossem realizar o exame de admissão no curso secundário ou “commercial”.

O papel desgastado pode até enganar, mas não faz tanto tempo que essas páginas eram usadas em sala de aula: o livro tem 81 anos, e teve novas edições depois. Ou seja, há pessoas ainda vivas que foram educadas dessa forma. Que elas tenham sabido fugir dessa “lição” para não repassá-la para frente.

Não mencionei o nome do livro e de seu autor propositalmente.

Os Três Reis Magos não eram monarcas, muito menos mágicos

Dias após seu nascimento, o pequeno Jesus é visitado por três senhores, os Três Reis Magos. Eles foram guiados por uma estrela e chegaram a Belém levando ouro, incenso e mirra. O evento criou a tradição do Dia de Reis em 6 de janeiro, marcando o final dos festejos natalinos, e da troca de presentes. Uma tradição que e consolidou tanto que pouco se pensa no sentido dos termos. Afinal, os visitantes eram monarcas e mágicos?

Nem um, nem outro. É apenas uma questão de termos que se embaralharam séculos após séculos, misturando significados e permitindo confusão aos desavisados.

“Magos” era a forma como os gregos se referiam aos sacerdotes do zoroastrismo, religião monoteísta de origem persa que influenciou o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Muitas vezes, esses religiosos eram chamados de “sábios” ou “reis”, mesmo que não tivessem posto monárquico algum (não à toa, os “Três Reis Magos” são conhecidos por “Three Wise Men” em inglês).

Os sacerdotes zoroástricos acreditavam na astrologia e usavam a posição das estrelas para interpretar o mundo. Isso levou as línguas ocidentais a usarem os magos como ponto de partida para criar termos ligados a forças ocultas, como “magia” e “mágica”.

Ou seja, os “reis magos” significavam “sacerdotes persas” na antiguidade, sem que ninguém fosse monarca, muito menos tivesse poderes ocultos.

Em que ano estamos em cada calendário usado no mundo

Feliz 2017! Mas não estamos em 5777? Ou talvez em 4713? Quem sabe não estejamos comemorando o ano 29 da era atual? Boa parte do planeta adota o calendário gregoriano de uma forma ou outra, mas o ser humano criou centenas de formas de marcar datas ao longo da história. Algumas delas foram utilizadas por séculos, e algumas ainda são empregadas oficialmente por governos ou têm uso para situações específicas.

Há padrões dos mais diversos, tanto na definição do ponto de partida para a contagem do calendário quanto na divisão do ano em dias e meses. Em alguns calendários, como o islâmico, o ano não tem 365 dias. Outros até tem, mas o padrão para anos bissextos é diferente do que usamos na maior parte do Ocidente.

Então, veja em que ano estamos em alguns dos calendários mais importantes do mundo e como eles iniciaram sua contagem:

JUDAICO

Ano: 5777
Início da contagem: um ano antes do que seria a criação do mundo

ISLÂMICO

Ano: 1438
Início da contagem: fuga de Maomé de Meca para Medina

CHINÊS

Ano: 4713 
Início da contagem: início do reinado de Huang Di, conhecido como Imperador Amarelo. Há outras contagens adotadas, a mais usada nos coloca no ano 105 (a partir do início da República da China, versão adotada em Taiwan)

ETÍOPE

Ano: 2009
Início da contagem: nascimento de Jesus, mas com base em uma datação diferente da usada no calendário gregoriano

PERSA

Ano: 1395
Início da contagem: fuga de Maomé de Meca para Medina. Como o calendário persa é solar, o ano é mais longo que o islâmico (lunar), o que explica a diferença de datas mesmo tomando o mesmo ponto de partida

JAPONÊS

Ano: 29 da Era Heisei
Início da contagem: subida ao trono do imperador Akihito (“Heisei” é o nome da era correspondente ao atual imperador)

BENGALI

Ano: 1423
Início da contagem: início do reinado de Shashanka em Gauda (reino que unificou a região do atual Bangladesh e leste da Índia)

NORTE-COREANO

Ano: 105
Início da contagem: nascimento de Kim Il-Sung, líder da Coreia do Norte

ARMÊNIO

Ano: 1465
Início da contagem: cisão entre a Igreja Apostólica Armênia e a Igreja Católica Romana

TAILANDÊS

Ano: 2560
Início da contagem: morte de Buda

ASSÍRIO

Ano: 6766
Início da contagem: fundação da cidade de Assur

BÉRBERE

Ano: 2966
Início da contagem: subida de Shoshenk I (por ter origem líbia, seria o primeiro bérbere proeminente) ao posto de Faraó do Egito

BIZANTINO

Ano: 7525
Início da contagem: data estimada para a criação do mundo (entre os calendários mais importantes, é o que nos coloca em uma contagem mais alta de ano)

COPTA

Ano: 1733
Início da contagem: subida de Diocleciano ao trono romano (um marco de martírio, pois o imperador perseguiu muitos cristãos, sobretudo no Egito)

COREANO 

Ano: 4349
Início da contagem: início do período Gojoseon (uma das eras do Reino da Coreia). O calendário foi oficial da Coreia do Sul até 1961, quando foi substituído pelo gregoriano

JULIANO

Ano: 2016
Início da contagem: nascimento de Cristo. A diferença do calendário gregoriano é de apenas 13 dias. Ou seja, o Ano Novo está chegando

Que países não comemoram o Ano Novo em 1º de janeiro?

Dezembro está acabando, janeiro está começando, e bilhões de pessoas estão se envolvendo em algum tipo de evento (de festa a apenas fazer promessas) para a virada de ano. Estamos tão acostumados a ver a numeração do ano e a forma de dividir o calendário estar ligada à eventos religiosos que muitas vezes esquecemos como isso, no final das contas, é uma unidade de medida. E, como unidade de medida, quanto maior a padronização internacional, melhor.

A indústria norte-americana adota o sistema métrico ao lado do imperial, pois isso facilita o comércio internacional de seus produtos. Da mesma forma, ter datas uniformes reduz o risco de confusões na hora de empresas de diferentes países – ou unidades internacionais da mesma empresa – realizarem planejamento conjunto, firmar contratos ou mesmo alinhar a gestão.

Por isso, muitos países não católicos romanos acabaram adotando o calendário gregoriano de alguma forma. O último católico ortodoxo a manter o calendário justiniano foi a Grécia, que resistiu até 1923. Nações não-cristãs muitas vezes mantêm um calendário tradicional para eventos religiosos e o gregoriano para usos civis. 

Há ainda lugares em que o calendário ocidental é seguido na divisão de meses e semanas, mas a contagem do ano não toma como base o nascimento de Cristo. No Japão e em Taiwan, a contagem é por “eras”, ou o período em que cada imperador ou regime político esteve no poder. Na Coreia do Norte, o calendário tem início no nascimento do líder Kim Il-Sung, em 1912 (“juche 1” para os norte-coreanos).

Então, no final das contas, em que países este fim de semana não tem valor simbólico algum?

São poucos:

– Afeganistão, que usa o calendário iraniano e vira a folhinha em 21 de março do calendário gregoriano (20 de março em anos bissextos);
– Países árabes, que segue o calendário islâmico e celebra o Ano Novo em 1º de muharram. A data varia em relação a nosso calendário. O último caiu em 3 de outubro de 2016. O próximo será em 22 de setembro de 2017. Mas desde os últimos meses, o governo já começou a usar o calendário gregoriano para situações civis;
– Etiópia, que adota o calendário etíope e tem sua virada de ano em 11 de setembro (12 de setembro em anos bissextos);
– Irã, que, como é de se imaginar, também segue o calendário iraniano.

Nas nações acima, o calendário gregoriano não tem uso civil ou religioso e este fim de semana não representa nada em especial. Em outros lugares – como a maior parte das nações islâmicas, Israel, Índia, Bangladesh, Tailândia e China -, a grande celebração de Ano Novo se dá no calendário de suas culturas e/ou religiões, mas o calendário gregoriano tem validade civil e o 1º de janeiro também recebe importância simbólica. Em Israel, por exemplo, serve como um marco para a entrada em vigor de novas leis (1º de janeiro de 2017 será feriado, mas por coincidir com o oitavo – último – dia do Hanukkah).

O encontro de Obama, Abe, Pearl Harbor e Sadako Sasaki

Sadako Sasaki era uma garota de Hiroshima que tinha dois anos quando a bomba atômica explodiu em sua cidade, em 6 de agosto de 1945. Em 1954, ela teve diagnosticada uma leucemia, consequência da radiação à qual foi exposta nove anos antes. Sadako foi internada em fevereiro de 1955 e, em agosto, ouviu de um colega de quarto que quem dobrasse mil tsurus (o famoso pássaro de origami) teria direito a fazer um pedido.

A jovem começou a usar todo o papel que encontrasse disponível para uma última tentativa de pedir pela cura, mas não resistiu. Faleceu em outubro de 1955, aos 12 anos, com 644 origamis dobrados. Seus amigos fizeram mil tsurus, que foram enterrados com a estudante. Uma estátua em sua homenagem foi erguida no Parque Memorial da Paz de Hiroshima e, todo 6 de agosto, crianças deixam origamis aos pés da imagem da garota.

O uso da bomba atômica na Segunda Guerra Mundial é bastante polêmico e só pode ser completamente entendido se os argumentos mais comuns (a estratégia de guerra) estiverem acompanhados do lado humano. Por isso, o encontro entre Barack Obama, presidente dos EUA, e Shinzo Abe, primeiro-ministro do Japão, na última terça não foi histórico apenas por marcar o 75º aniversário do ataque a Pearl Harbor, estopim da entrada norte-americana na guerra. Foi também a oportunidade de ambos estarem juntos de um origami de Sadako Sasaki.

Os dois líderes visitaram o Memorial do USS Arizona, encouraçado da marinha norte-americana atacado pelos japoneses em dezembro de 1941. Lá, puderam ver um dos tsurus da garota de Hiroshima, parte do acervo do museu desde setembro de 2013, quando foi doado pela Fundação Legado de Sadako como símbolo de paz e reconciliação.

A família Sasaki guardou os origamis de Sadako após sua morte e cedeu alguns como gestos de paz. A simplicidade da trajetória da garota e sua luta inglória contra os efeitos da radiação não pode ser esquecida jamais. E nem é preciso ir até o Japão ou ao Havaí para ter mais contato com essa história. Entre os tsurus doados pelos familiares da menina, um está no Brasil, na Assembleia Legislativa de São Paulo, desde 2015. O fato é conhecido por pouca gente, um problema compreensível. Uma peça como essa, por seu valor histórico, merecia ser exposta ao público, em um local destinado para isso. Como diria Indiana Jones, “isso pertence a um museu”.

Quando ingleses e americanos ficaram décadas proibidos de celebrar o Natal

Fim de dezembro, já é uma tradição londrina. Milhares de pessoas vão todos os dias ao Hyde Park para visitar e se divertir no Winter Wonderland. Trata-se de uma mistura de parque de diversões com feira de Natal, com atrações que vão de barracas de vinho quente e bolachas de gengibre a castelo de gelo, em que as pessoas podem entrar e até sentar em um trono de água solidificada. Claro, tem montanha-russa também. Tudo com canções natalinas, muitos gorrinhos de Papai Noel e “Merry Christmas” no final de cada diálogo.

A Inglaterra vive intensamente o Natal, mas houve um momento em que celebrar o nascimento de Jesus era proibido no país. E não me refiro a um período muito antigo, antes da chegada do Cristianismo à ilha. Foi nas décadas de 1640 e 50, com a religião mais que consolidada entre os ingleses.

LEIA MAIS: O verão começa hoje, apenas quatro dias antes do Natal. E provavelmente isso não é coincidência

Naquela época, o país vivia o clima da briga por poder entre o Rei Carlos 1º e o parlamento, liderado por Oliver Cromwell. A disputa deu origem à Guerra Civil Inglesa em 1642. O país ficou dividido entre o território dominado pelo rei e o que seguia o parlamento, que acabou vencendo em 1651.

A disputa política também tinha um lado religioso. Os puritanos, grupo dentro do anglicanismo que defendia uma interpretação mais purista dos textos, estavam descontentes com os rumos da igreja. Cromwell era um puritano, assim como vários dos líderes do parlamento. Assim, a Inglaterra sob o governo parlamentar adotou várias regras religiosas do puritanismo. A abolição do Natal era uma delas.

A celebração do nascimento de Cristo era um tema polêmico entre os anglicanos na época. Em 1560, a igreja escocesa havia banido os festejos de 25 de dezembro. A decisão não se manteve por muito tempo, mas os puritanos começaram a transformar essa questão cada vez mais importante.

Eles alegavam que o Natal não representava a palavra de Deus por vários motivos:

– A festa em si (que durava 12 dias, até a noite de 5 de janeiro) era pecaminosa. Afastava-se do caráter de contemplação e reflexão ao promover a bonança e ao se misturar com antigos rituais de origem pagã;
– Não há nenhuma escritura que diz que o nascimento de Jesus deva ser celebrado, tampouco alguma referência à data em que esse evento teria ocorrido;
– O nome “Christmas” (de “Christ’s Mass”, ou “missa de Cristo”) já mostraria uma influência católica no feriado.

Por isso, em 1644, a celebração do Natal se tornou ilegal nos territórios dominados pelo parlamento. Guardas circulavam pelas ruas com ordem de confiscar qualquer comida se desconfiassem que estavam destinada a alguma ceia e de impedir até grupos cantando músicas natalinas pelas ruas.

A não-comemoração do nascimento de Jesus se tornou um dos argumentos dos grupos em favor de Carlos 1º, mas também motivou contestações mesmo entre os defensores dos parlamentares. Protestos começaram a surgir, alguns até violentos, com vandalismo e destruição de lojas que abrissem em 25 de dezembro como se fosse um dia de trabalho qualquer.

O desenvolvimento da guerra e a morte de Carlos 1º em 1649 acabaram esfriando os ânimos pró-Natal. Ainda assim, historiadores entendem que as famílias tenham mantido a tradição natalina, mas apenas de forma privada.

O Natal voltou a ser celebrado apenas em 1660, quando a monarquia retornou ao poder e anulou todas as leis criadas pelo parlamento. Mas ainda havia uma região com forte influência puritana, que mantinha a proibição ao Natal.

Antes da Guerra Civil Inglesa, os puritanos sofriam perseguição das forças reais. Entre 1620 e 1640, milhares migraram para os Estados Unidos, sobretudo na região da Nova Inglaterra (extremo nordeste do país). Eles criaram Massachusetts para ter uma colônia em que pudessem viver dentro de suas leis.

Em 1659, o governo do estado seguiu a lei inglesa e também baniu o Natal. Pastores poderiam ser presos se estivessem comandando alguma celebração natalina e qualquer cidadão que estivesse comemorando a data receberia uma multa de 5 xelins (um quarto de libra, equivalente ao salário semanal de um trabalhador na época).

Com a recuperação da monarquia na sede do império, puritanos temiam perseguição e uma nova onda de imigração chegou à Nova Inglaterra. Isso manteve a proibição ao Natal por mais tempo na colônia norte-americana. A data foi legalizada apenas em 1681, mas ainda era vista como uma manifestação reprovável. Por exemplo, uma pessoa poderia ser processada por distúrbio da paz se cantasse músicas natalinas na rua.

Apenas no século seguinte que o Natal foi recuperando sua força, sobretudo após a onda de imigração de católicos irlandeses. De qualquer modo, o Natal foi um dia qualquer de trabalho, inclusive com aulas normais nas escolas, até 1870, quando o presidente Ulysses Grant decretou que 25 de dezembro era um feriado nacional.

O verão começa hoje, apenas quatro dias antes do Natal. E provavelmente isso não é coincidência

O sol nasceu às 6h17 e a previsão é que se ponha às 19h53 em São Paulo nesta quarta. São 13h36 minutos de sol. Porto Alegre ficará ainda mais tempo ensolarada, 14h05 (das 6h21 às 20h26). O Rio de Janeiro, um pouquinho menos, 13h33 (das 6h05 às 19h38). Isso é normal em um 21 de dezembro. É solstício de verão, o dia com mais tempo de sol no ano no hemisfério sul, o dia que marca o início da estação. Ele ocorre justamente quatro dias antes do Natal, e isso possivelmente não é coincidência.

Ao mesmo tempo que o 21 de dezembro é o dia mais ensolarado do ano e o início do verão na metade de baixo do globo, ele é o dia mais curto e o início do inverno na metade de cima. Durante séculos, o solstício de inverno foi um marco para as culturas da Antiguidade, do norte da Europa ao Oriente Médio. Para algumas delas, era o início de uma temporada de dias progressivamente mais longos, um recomeço após seis meses de dias progressivamente mais curtos. Para outras, era o início do período de escassez de alimentos e era a última oportunidade de se esbaldar (inclusive abatendo animais para não ter de alimentá-los durante o inverno).

Por isso, muitos povos criaram celebrações na segunda quinzena de dezembro. Os nórdicos tinham o Yule, festival que comemorava o retorno do sol e durava até 12 dias a partir de 21 de dezembro. Pais e filhos colocavam fogo em grandes toras de madeira e cada faísca que saía das chamas representava um porco ou bezerro que nasceria no ano seguinte.

No território que hoje é o Irã, era a noite de Yalda, a mais longa e escura do ano. Nesse dia, as famílias se juntavam na casa do membro mais velho e comiam, bebiam e liam poemas.

Os romanos tinham a Saturnália, celebração do deus da agricultura Saturno. Os festejos começavam na semana do solstício de inverno e duravam um mês. Como se imagina de uma festa da Roma Antiga, havia muita comida e bebida. Era também um momento em que a ordem social era invertida. Em dia 25 de dezembro, os adeptos do mitraísmo ainda comemoravam o aniversário de Mitra.

Os judeus também tinham – e ainda têm – uma importante celebração em dezembro, o Chanuká. O motivo da celebração é um acontecimento histórico, não o solstício de inverno. De qualquer modo, a existência de uma importante comemoração judaica messa época do ano também pode ter influenciado o Natal.

No início do Cristianismo, a celebração mais importante era a Páscoa, uma herança judaica. O nascimento de Cristo não era tido como importante, até porque não há menção na Bíblia da época do ano em que ele ocorreu.

O interesse em se festejar o nascimento de Cristo se tornou forte a partir do século 3º. Vários estudiosos da igreja tentaram estimar a data em que ele teria ocorrido. A oficialização veio em 350, quando o Papa Júlio 1º determinou a Festa da Natividade em 25 de dezembro.

Há várias teorias para essa escolha. Uma delas é que marca nove meses a partir da Anunciação, celebrada em 25 de março. No entanto, várias evidências mostram que o fato de o final de dezembro já ser uma época marcada por festas foi fundamental, pois bastava absorver a Saturnália, o aniversário de Mitra e outras festas que já existiam pelo Império Romano. Além disso, a história do nascimento de Jesus menciona pastores com suas ovelhas, um cenário muito mais provável para a primavera (outono no hemisfério sul) do que com o inverno.

Alguns dos costumes natalinos são relacionados a essas celebrações pagãs, sobretudo da Yule (como a árvore de Natal) e da Saturnália (como o banquete e a troca de presentes).