Política e esportes se misturam, a questão é usar isso positivamente

Às vezes dá um embrulho no estômago quando alguma questão política atrapalha o esportes, seja no desenrolar de uma competição, seja nas decisões dos dirigentes. Mas essa mistura também pode ser positiva, com o esporte ajudando a influenciar sociedades.

Escrevi sobre isso em um artigo à Gazeta do Povo faz um tempo e havia esquecido de indicar no Rodínia. Aqui vai o link. Leiam!

Veja como era eficiente o sistema de transporte dentro do Império Romano

Ontem eu postei um mapa de estradas do Império Romano adaptado à linguagem de mapas de metrô. No caminho, mencionei como essa rede de vias era incrivelmente eficiente para os padrões da época. E um bom retrato disso é outra carta geográfica, mostrando quanto tempo uma pessoa levava para se deslocar de Roma a qualquer outro ponto do império.

O mapa acima é resultado de um trabalho espetacular do historiador Walter Scheidel, da equipe de programação liderada por Elijah Meeks e do geógrafo Karl Grossner, todos da Universidade de Stanford (EUA). Eles criaram o Orbis, o Modelo da Rede Geoespacial do Mundo Romano, uma ferramenta que mapeou 84,6 mil km de estradas, 28,3 mil km de rios e canais navegáveis e 1.026 rotas marítimas do Império Romano. Com isso, puderam calcular o tempo e o custo (em moeda da época) de viagem entre 632 locais dentro do território romano. É como um Waze dos tempos de Júlio César. Cliquem aqui e explorem à vontade.

Na imagem do alto da página, é calculado o tempo de deslocamento a partir de Roma no meio do verão (aqui uma versão mais completa). Cada faixa representa uma semana de viagem no modo mais rápido possível, seja por barco ou por terra. Pode parecer muito para os padrões de hoje, mas imagina ir de Roma à costa da Turquia em um universo em que não há motor e eletricidade. Tudo depende do vento e do esforço físico (humano ou do cavalo).

Para otimizar o tempo de deslocamento, os romanos criaram uma grande rede de transporte. Havia rotas marítimas regulares, em que o passageiro precisava apenas pagar a passagem e viajar. As estradas eram grandes obras de engenharia, e recebiam manutenção proporcional a sua importância. Esse sistema permitia a troca eficiente de mercadorias entre as regiões e, principalmente, garantiam a mobilidade dos militares, que podiam responder rapidamente ao chamado vindo de qualquer parte do Império.

E se as estradas do Império Romano fossem linhas de metrô?

Uma das grandes maravilhas do Império Romano era sua rede de transportes. Com estradas e rotas marítimas bem organizadas e definidas, viajar era uma atividade relativamente fácil para comerciantes, militares, trabalhadores em geral e até turistas. Essa facilidade de locomoção foi fundamental para dar robustez e um nível de organização econômica, política e cultural muito acima dos padrões da época.

Mas, e se fôssemos traduzir essa rede para a linguagem de hoje? Por exemplo, transformando o mapa de estradas em mapas do metrô. Foi o que fez Sasha Trubetskoy, um geógrafo que estuda na Universidade de Chicago. O resultado é sensacional, e ajuda a visualizar ainda melhor como funcionava esse emaranhado de vias.

O próprio autor conta que a pesquisa foi mais trabalhosa do que ele imaginava no início pela falta de informações consistentes em relação a algumas vias. Houve casos também de estradas sem nome histórico definido ou conhecido, que foram batizadas pelo geógrafo (aqui a lista dos nomes reais e dos criados).

Veja abaixo o mapa completo. Se quiser ver em maior tamanho, clique aqui (se não abrir, tente aqui). Ah, e se quiser fazer um pôster dessa imagem, o Sasha manda o PDF em alta resolução por US$ 9.

Estradas romanas em estilo de mapa de metrô (Sasha Trubetskoy)
Estradas romanas em estilo de mapa de metrô (Sasha Trubetskoy)

A praia que se transformou em paralisação dos trabalhadores

Parisienses se reunirem na rua é algo comum, e qualquer lugar da cidade pode ser palco de alguma mobilização. Mas um dos pontos mais conhecidos é a Esplanada da Liberação, conhecida também como Place d’Hôtel de Ville (Praça da Prefeitura). Vários eventos culturais são organizados nesse espaço, também usado para reunir torcedores diante do telão quando tem jogo da França na Copa do Mundo ou na Eurocopa. Há séculos, porém, o local já fincava seu pé na cultura ocidental. E não estou falando das multidões lá se juntavam para presenciar as execuções por guilhotina durante a Revolução Francesa.

Na Idade Média, a praça era muito diferente. Posicionada às margens do Rio Sena, o espaço era uma praia de areia e cascalho, usado como atracadouro pelos barcos que levavam mercadorias a Paris. Esse serviço de desembarque de mercadorias exigia pouca especialização e muita força. Assim, vários parisienses desempregados ficavam nesse porto se oferecendo para ajudar no trabalho e ganhar algum dinheiro.

Na época, o espaço era nomeado de acordo com sua descrição: Praça da Praia, ou Place de Grève. Com o tempo, a praça virou sinônimo de concentração de trabalhadores. Primeiro, em busca de emprego. Depois, como paralisação devido a alguma reivindicação. O termo foi absorvido em português, e a expressão “greve” virou tão convencional como forma de protesto, da greve trabalhista à greve de fome, que nem parece que sua origem é de um porto da Paris Medieval.

Gernika se reconcilia com os descendentes dos homens que a destruíram há 80 anos

Dieprand von Richthofen e Karl-Benedikt von Moreau caminham pelas ruas de Gernika-Lumo ao lado de um amigo espanhol, Luis Iriondo Aurtenetxea. O fato dessa união acontecer significa muito. Os dois alemães são descendentes de aviadores responsáveis pelo ataque aéreo que destruiu a cidade basca, então conhecida pelo nome castelhano de Guernica, em 26 de abril de 1937. Iriondo é um dos sobreviventes.

O encontro foi retratado em ótima reportagem do jornal espanhol El País (aqui, em espanhol). No relato, Dieprand – sobrinho de Wolfram von Richtofen, comandante da operação – e Karl-Benedikt – sobrinho de Rudolf von Moreau, um dos líderes do ataque – contam como carregavam uma culpa pelo que seus familiares fizeram e como foram abraçados pela população de Gernika-Lumo, incluindo Iriondo, atualmente com 94 anos.

Curiosamente, Dieprand chega a comentar sobre o peso de carregar o sobrenome Von Richtofen, família nobre da Alemanha que tem tradição na aviação militar, com Manfred, o Barão Vermelho (um dos grandes aviadores da Primeira Guerra Mundial), e seu irmão Lothar, que participou da operação em Guernica. Ambos foram primos de Wolfram. No Brasil, o sobrenome ficou famoso após o assassinato de Manfred, sobrinho-neto do Barão Vermelho, por sua filha Suzane em 2002.

A visita dos alemães faz parte de uma série de eventos organizados pela prefeitura de Gernika-Lumo para lembrar os 80 anos do ataque que praticamente a destruiu. Em 1937, o local era considerado um centro de comunicações dos republicanos durante a Guerra Civil Espanhola. Assim, Francisco Franco, líder do exército nacionalista, recebeu ajuda de seus aliados Adolf Hitler e Benito Mussolini, que disponibilizaram as forças áereas de Alemanha e Itália para atacarem a cidade.

O número de vítimas não é conhecido até hoje, com versões que vão de 153 a 1.654. O massacre motivou o pintor Pablo Picasso, então radicado na França, a pintar Guernica, uma de suas obras mais famosas. O quadro excursionou pela Europa, arrecadando dinheiro para ajudar as tropas republicanas e refugiados espanhois (após a vitória franquista).

O quadro ficou em Nova York, e, a pedido do autor, só voltaria à Espanha quando uma república democrática fosse restabelecida. Com a morte de Franco, em 1975, o país se tornou democrático, mas sob uma monarquia. Não eram exatamente as condições estabelecidas por Picasso (que havia morrido em 1973), mas foi o suficiente para surgir uma campanha pelo retorno do quadro à solo espanhol, o que ocorreu em 1981. Hoje, a obra está no Museu Reina Sofia, em Madri.

Abaixo, um vídeo colocando em três dimensões as figuras de Guernica.

Precisamos falar sobre Tiradentes

Detalhe de "Martírio de Tiradentes", obra de Francisco Aurélio de Figueiredo e Melo
Detalhe de “Martírio de Tiradentes”, obra de Francisco Aurélio de Figueiredo e Melo

O calendário brasileiro só prevê feriados nacionais dedicados a dois indivíduos. Um é Jesus, que motiva a celebração da Páscoa, de Corpus Christi e do Natal. O outro é Tiradentes, um dos líderes de um movimento independentista organizado em Minas Gerais que ruiu antes mesmo de entrar em ação e virou até bandeira do estado em que ocorreu.

Esse espaço tão destacado passa a sensação de que a Inconfidência Mineira e Tiradentes foram os maiores ícones da luta pela independência do Brasil. Mas não é bem assim. Duas reportagens de Nairim Bernardo (que tive o prazer de editar) no site Nova Escola mostram como o mito foi construído no início da República Velha e elenca nove mentiras e uma verdade sobre a história desse personagem.

O Dia da Consciência Negra (20 de novembro) não foi mencionado porque não é um feriado nacional. Ainda que seja celebrado em quase todo o Brasil, sua adoção é de responsabilidade dos municípios.

Quem precisa de Google quando dá para mapear TODA a internet? Em 1973, dava

A internet se chama de “rede” (net) e “teia” (web), mas obviamente essas duas metáforas estão longe de ilustrar o que se tornou essa ferramenta. É tanto conteúdo – ainda que parte dele seja descartável – que se localizar no meio da confusão é difícil. O Google está aí para isso, mas muitas vezes ele não dá conta do serviço.

Mas, no comecinho de sua história, era muito mais fácil. Nada de site de buscas: o negócio era mapear a internet. Sim, mapear, ela inteirinha. Recentemente, o desenvolvedor David Newbury compartilhou em seu perfil no Twitter uma imagem com toda a internet mundial, quando ainda se chamava Arpa Network.

Mapa de toda a internet em 1973 (David Newbury / Twitter)
Mapa de toda a internet em 1973 (David Newbury / Twitter)

A Rede da Agência de Pesquisas em Projetos Avançados (Arpanet na sigla em inglês) foi uma rede operacional de computadores criada pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos no final da década de 1960. No início, era uma ferramenta que permitia a comunicação entre diversas unidades das Forças Armadas, sem um comando central (tornando as informações menos vulneráveis a eventuais ataques soviéticos).

No início da década de 1970, universidades que prestavam serviços ao Departamento de Defesa passaram a ter acesso à rede. As quatro primeiras foram UCSB (Universidade da Califórnia-Santa Bárbara), Stanford, UCLA (Universidade da Califórnia-Los Angeles) e Universidade de Utah.

Quando o mapa acima foi feito, outras instituições haviam entrado. Caso da Carnegie Mellon, onde trabalhava Paul Newsbury, que guardou o mapa histórico e presenteou seu filho David, que usou a antiga Arpanet para postar o desenho em uma rede social com mensagens limitadas a 140 toques.

ONU adota resolução histórica para proteger patrimônio cultural

Destruição do partimônio cultural em Palmira, Síria (Unesco/Francesco Bandarin)
Destruição do partimônio cultural em Palmira, Síria (Unesco/Francesco Bandarin)

O Conselho de Segurança da ONU aprovou, no último dia 24, a sua primeira resolução sobre a proteção do patrimônio cultural em conflitos armados. O documento, adotado por unanimidade, encoraja a criação de uma “rede de locais seguros” nos países de origem desse patrimônio.

Veja a nota completa na Nova Escola

A história do primeiro macarrão com molho de tomate de que se tem registro

“Os italianos só aprenderam a fazer massa depois de Marco Polo viajou à China, conheceu o prato e levou a receita a sua terra natal.” Não é raro ouvir essa versão para a origem do macarrão, mas é mentira. De fato, Marco Polo conheceu massa feita à base de arroz quando esteve no Oriente, mas tumbas etruscas de 400 a.C. já registram o preparo de massas na região que hoje é a Itália.

Sabendo disso, já dá para imaginar belos pratos de espaguete ou penne com molho de tomate no Império Romano, na Idade Média, na Florença renascentista. Mas… não, isso simplesmente não aconteceu. Por mais que seja impossível dissociar a cozinha italiana do molho de tomate, o ingrediente é recente de um ponto de vista histórico. Até porque, até o século 16, nenhum europeu sequer sabia que existiam tomates.

Quando estudamos a história da colonização das Américas, muito se fala de como espanhois e portugueses levaram ouro e outros metais preciosos para a Europa. Mas essa não era a única carga. Eles também carregavam vários animais e alimentos diferentes que encontraram no Novo Mundo. Em um período relativamente curto de tempo, a culinária europeia foi enriquecida com a chegada de ingredientes como tomate, batata, abacate, peru, milho, cacau, amendoim e abóbora.

Para ter uma ideia como esse fenômeno mudou o cenário nas cozinhas europeias, veja como pratos tradicionais têm como base um desses ingredientes americanos: fish & chips (Inglaterra), batata assada (Inglaterra), batata frita (Bélgica e França), polenta (Itália), batata rösti (Suíça), chocolate (Suíça, França e Bélgica), pà amb tomàquet (Catalunha) e bolo de batata (Alemanha), entre outros. 

Não se sabe exatamente quando o tomate foi levado à Europa. Versões creditam desde Cristóvão Colombo em 1493 a Hernán Cortés em 1521. A primeira parada foi a Espanha, mas o fruto estava na Itália em 1548, quando foi mencionado em uma mensagem entre dois funcionários da família Médici, de Florença.

Em princípio, os tomates eram usados de forma ornamental. Aos poucos foi incorporado ao cardápio, de diversas formas. Como molho, o registro mais antigo é do livro de receitas do chef do Rei da Espanha em 1692. Mas ainda demoraria para ele se unir a um macarrão.

O primeiro registro de uma massa italiana com molho de tomate é apenas de 1790. O chef Francesco Leonardi aproveitou sua experiência por toda a Europa – chegou a cozinhar para o Rei Luís 15, da França, e para a Imperatriz Catarina 2ª, da Rússia – para escrever uma grande obra sobre culinária. O “L’Apicio Moderno” (“apicio” era um livro de receitas do Império Romano) tem seis volumes e detalha como fazer pratos das mais diversas regiões da Itália.

No terceiro tomo está a receita do “macarrão à napolitana”, que tem como base molho de carne. No quarto volume, Leonardi aborda o “ragù de macarrão”. Ele dedica apenas duas linhas, sugerindo acrescentar o tomate à receita do macarrão à napolitana.

É assim, discreto e quase imperceptível, o primeiro registro de macarrão com molho de tomate. Claro, isso não significa que tenha sido inventado naquele momento, em 1790. Se Francesco Leonardi o incluiu em seu livro, significa que a receita já era adotada havia alguns anos em Nápoles. Ainda assim, é muito pouco tempo para uma combinação que hoje virou símbolo de uma das culinárias mais importantes do planeta.

Há 100 anos, Canadá ampliava sufrágio feminino e servia de exemplo aos EUA

O Dia Internacional da Mulher foi instituído na primeira década do século 20 dentro de um processo de luta das mulheres por mais direitos. Havia demandas na área trabalhista e social, e o direito ao voto era uma das exigências mais recorrentes, mesmo nas grandes democracias do planeta. Em março de 1917, há 100 anos, o movimento feminista dos Estados Unidos iniciava uma campanha que usava o Canadá como modelo.

Aquele mês marcou a abertura do voto feminino na então província de Ontário. Com isso, praticamente todo o Canadá tinha sufrágio feminino. As exceções eram Quebec, Yukon e Territórios do Noroeste (Terra Nova e Labrador não faziam parte do território canadense na época).

Enquanto isso, os EUA estavam muito para trás. Apenas 12 estados (Alasca, Arizona, Califórnia, Colorado, Idaho, Kansas, Montana, Nevada, Oregon, Utah, Washington e Wyoming) permitiam as mulheres a votarem em todas as situações. Em sete (Dakota do Norte, Illinois, Indiana, Michigan, Nebraska, Ohio e Rhode Island) elas podiam participar só das eleições presidenciais. Em um (Arkansas), a abertura era limitada às primárias dos partidos. E em 29 (incluindo Nova York, Pensilvânia, Massachusetts e Flórida), não tinham direito a nada.

Cartaz de 1917 para campanha pelo sufrágio feminino nos EUA
Cartaz de 1917 para campanha pelo sufrágio feminino nos EUA

O estado pioneiro foi Wyoming, que permitiu as mulheres a votarem em 1869. Logo após a publicação do mapa acima, Nova York, Texas, Arkansas e Oklahoma permitiram a participação delas nas eleições. Ainda assim, o sufrágio feminino só foi garantido em todo o território americano em 1920, com a 19ª emenda constitucional.

O Brasil vivia o mesmo processo. Na década de 1920, as primeiras mulheres brasileiras garantiram na Justiça seu direito a votar, alegando que a lei não mencionava restrição de sexo na participação política. O Rio Grande do Norte foi o primeiro estado a explicitar que não havia distinção de gênero no direito ao sufrágio. Em 1932, Getúlio Vargas assinou decreto permitindo o voto feminino em todo o território brasileiro.

Mas teve lugar que esperou ainda mais. Na Suíça, o sufrágio feminino só foi instituído após referendo em… 1971. E, ainda assim, houve muito debate. O jornalista Jamil Chade, correspondente do Estadão em Zurique, postou no Twitter alguns cartazes da campanha contra o voto das mulheres.

Atualmente, parece um consenso na sociedade que as mulheres devem votar como cidadãs que são. Mas não é preciso voltar tanto no tempo para encontrar uma realidade diferente. Sinal de como a luta feminina é necessária e não é preciso temer as mudanças que elas trazem. No final das contas, todos perceberão que estranho era haver diferença.