Londonderry, mas pode chamar de Derry. A cidade ao norte da Irlanda do Norte, quase na fronteira com a Irlanda, é chamada mais pelo nome não-oficial do que pelo formal. Não é um apelido, um diminutivo carinhoso. É uma questão de ajudar a manter uma paz que já foi de frágil a inexistente em uma das regiões mais tensas da Europa Ocidental. E que já está apreensiva com o que pode vir com o Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia.

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A decisão entre permanecer ou não no bloco tinha contornos muito particulares na Irlanda do Norte. Ao contrário de Inglaterra, Escócia e Gales, que dividem uma ilha, os norte-irlandeses têm uma fronteira física com outra nação. Uma divisão que foi motivo de disputa por décadas entre católicos e protestantes, entre os favoráveis à unificação com a República da Irlanda e os defensores da manutenção dos laços com a Coroa.

Londonderry estava no centro disso. A cidade de cerca de 240 mil habitantes (a segunda maior da Irlanda do Norte) tem forte presença católica – parcela da população que prefere o uso de Derry City, para ‘desbritanizar’ o nome – e foi palco de diversas manifestações nacionalistas irlandesas. Em 30 de janeiro de 1972, o exército atirou em civis desarmados durante um protesto, 14 morreram. O dia ficou conhecido como Bloody Sunday* (Domingo Sangrento) e motivou a banda U2 a criar uma de suas músicas mais famosas.

Os problemas se arrastaram por décadas, de atentados terroristas do IRA (Exército Republicano Irlandês) em Londres a coisas supostamente triviais, como jogos de futebol. O time da cidade, o Derry City, é ligado aos católicos e várias de suas partidas eram marcadas por brigas com as torcidas de maioria protestantes de outros clubes norte-irlandeses. Para evitar mais conflitos, a equipe passou a disputar o campeonato da Irlanda em 1985.

A União Europeia foi fundamental para mudar o clima. Com Reino Unido e Irlanda fazendo parte de um mesmo bloco político e econômico, o trânsito de pessoas e mercadoria se tornou livre. Estar do lado britânico ou irlandês da fronteira se tornou menos relevante quando todos estavam dentro de uma fronteira maior, a da UE.

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É o eventual fim dessa situação que cria apreensão entre os norte-irlandeses, sobretudo os que vivem perto da fronteira com a Irlanda. Hoje, é até difícil perceber quando se muda de nação. Placas de boas-vindas na estrada marcam a divisa e a linguagem visual da sinalização de ruas é diferente de um lado e do outro. De resto, é quase como uma coisa só. Há até casos de estradas rurais, usadas apenas por fazendeiros da área que atravessam a fronteira sem chamar a atenção.

Com a saída do Reino Unido da UE, a fronteira irlandesa se tornaria novamente relevante. Pessoas que moram de um lado e trabalham do outro teriam de passar pela imigração todo dia, duas vezes. O mesmo ocorreria a cada visita a familiares no fim de semana, a uma ida à cidade vizinha para comprar algo. Mas, pior que isso, a recriação de um aparato de controle policial reforçaria a percepção entre norte-irlandeses católicos que eles não vivem no país que gostariam, recriando uma insatisfação histórica que andava adormecida.

Esse foi um dos motivos para a Irlanda do Norte ter votado em favor da permanência do Reino Unido na UE. Uma votação que ficou mais reforçada pelos votos dos distritos que ficam na região de fronteira, sobretudo Londonderry, o pontinho azul escuro no noroeste da Irlanda do Norte no mapa abaixo.

Mapa eleitoral do Brexit por distritos. Em azul os que preferiram a permanência na UE. Em vermelho, os que votaram pela saída. Quando mais escura a mancha, maior o percentual de votos para cada lado (New York Times)

Mapa eleitoral do Brexit por distritos. Em azul os que preferiram a permanência na UE. Em vermelho, os que votaram pela saída. Quando mais escura a mancha, maior o percentual de votos para cada lado (New York Times)

Em geral, os unionistas, defensores da permanência da Irlanda do Norte no Reino Unido, foram favoráveis à saída da UE, enquanto que os nacionalistas (defensores da unificação com a Irlanda) e os neutros ficaram do lado da continuidade no bloco. Mas o resultado geral na região foi pró-União Europeia, e o fato de os votos ingleses terem definido a retirada do país causou um misto de revolta com preocupação.

Líderes nacionalistas já falam em articular a saída da Irlanda do Norte do Reino Unido, o que seria um primeiro passo à reunificação com a Irlanda (algo que os unionistas não gostariam). Mas, para o dia a dia das pessoas e das cidades que ficam na região de fronteira, o grande debate é o que será feito para controlar o trânsito de pessoas. Tanto que britânicos pró-UE que têm direito à nacionalidade irlandesa já estão correndo atrás do passaporte com medo de perder os direitos de cidadãos europeus.

O destino depende das negociações do Reino Unido com a União Europeia. Uma das possibilidades seria manter a fronteira entre Irlanda e Irlanda do Norte aberta, mais reforçando o controle em portos e aeroportos do tráfego entre Irlanda do Norte e a ilha da Grã-Bretanha. Essa opção ajudaria a manter a calmaria, mas possivelmente desagradaria os unionistas, pois o território norte-irlandês ficaria mais isolado do resto do país e se tornaria uma área de regime especial, quase intermediária, entre duas nações.

Mas talvez seja a melhor opção. Ao menos, reduziria o risco de reforçar as divisões das maiores cidades norte-irlandesas, ainda marcadas em muros e grafites que já se tornaram parte da paisagem urbana da região.

*O termo Bloody Sunday é usado para diversos conflitos violentos ocorridos em domingos. O de Derry em 1972 foi um dos mais famosos, mas não o único

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