Três em cada quatro brasileiros querem reduzir o espaço ocupado por carros nas ruas. O número é forte, mas é acompanhado de uma contradição. Na mesma pesquisa, realizada pelo Datafolha a pedido do Greenpeace, a maior parte dos entrevistados é contra medidas pontuais que promovem justamente a redução de espaço dos automóveis particulares.

Para entender a origem dessa contradição, conversamos com Bárbara Rubim, porta-voz do Greenpeace. Segundo ela, o principal motivo é a falta de um debate mais profundo sobre o tema, mostrando que o desestímulo ao carro tem razão de ser e que ele faz parte da construção das cidades que queremos.

Qual a sua visão sobre os resultados da pesquisa?

Ela mostra que existe vontade do brasileiro de abrir o horizonte de modais de transporte. A escolha do ônibus como modal preferido reforça a vontade de valorizar o transporte coletivo pelo que ele oferece em economia, liberdade e segurança.

Qual o principal desafio para isso acontecer?

É preciso ver a disposição das pessoas de vencer barreiras para chegar às cidades que queremos. Isso ficou evidente em relação a medidas que desestimulam o uso do carro, onde 40% foram contra. Muitas vezes, esse tipo de medida é visto como redução de direitos. Ainda temos muitos mitos a desconstruir, como que a redução de vagas é ruim para o comércio, quando há vários exemplos que mostraram o contrário.

As autoridades já perceberam esse desejo das pessoas de limitar o uso de carros?

O lado triste é que muita gente ainda acha que o sonho do brasileiro é ter um carro. É um mito antigo. Já foi realidade, alimentado pela indústria automotiva, mas não é mais assim. Mas o que as autoridades precisam fazer é, além de perceber essa mudança – e o caso de São Paulo nos últimos anos foi um case -, firmar um compromisso para construir as cidades que queremos. Mostrar que restringir alguma coisa não significa cortar direitos.

Em muitos lugares, o metrô é visto como o melhor sistema de transporte público pela capacidade de pessoas, velocidade e pontualidade. Mas, na pesquisa, ele perdeu de longe do ônibus, mesmo nas cidades grandes. Por que isso aconteceu?

O metrô ainda está ausente do dia a dia do brasileiro, mesmo em muitas capitais. É cobiçado, as pessoas veem o metrô como sinal de progresso e qualidade, mas em muitas cidades é visto como inviável. A expansão é lenta, as obras são caras. O ônibus é mais direto, e ele chega mais perto da casa das pessoas. Não precisa de uma estação, ele tem vários pontos e quase sempre chega muito perto de todo mundo.

Se as pessoas querem limitação dos carros, mas temem o que consideram redução de direitos. Como fazer?

O debate sobre os carros é posterior ao de como queremos nossas cidades. Muita gente diz “não” quando pensam em propostas, mas querem cidade com mais segurança, com mais opções de transporte. É preciso mostrar que uma coisa está ligada à outra. Não fazer o desestímulo ao carro pelo desestímulo, mas mostrar que ele tem uma razão de ser.

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