Ir do Parque Olímpico da Barra da Tijuca para o de Deodoro era fácil. Bastava ir ao terminal de BRT, pegar uma linha expressa criada para a Rio-2016 e trafegar pela TransOlímpica sem praticamente nenhuma parada pelo caminho. Pronto, chegava-se ao destino em 20 minutos. Parecia um mundo à parte, em que o Rio de Janeiro de verdade não tinha lugar. E era isso mesmo.

O torcedor ou jornalista que se dedicasse a olhar pela janela durante esse trajeto veria uma cidade que ficou de lado nos Jogos Olímpicos. A via expressa beneficiará milhões de pessoas quando for aberta ao trânsito comum, mas era exclusiva para o transporte olímpico. Para ter certeza que a grandiosidade do subúrbio carioca não tentaria engolir esse trajeto, caminhões militares cercavam qualquer ponto de contato – acessos, comunidades pelo caminho – da TransOlímpica com o mundo real.

A imagem impressiona, até pela atitude visualmente agressiva de como o universo olímpico e o universo real tinham de ficar separados. Da mesma forma que colocar a pira olímpica na frente da Candelária tinha um simbolismo forte de integrar cidade e olimpismo, mas muito disso se perdia quando alguém que passasse diante da igreja percebesse que a chama estava isolada da praça e do resto do centro do Rio por barreiras, criando um corredor entre o fogo e o Boulevard Olímpico, uma área revitalizada para receber os turistas durante o evento.

No final das contas, o Rio de Janeiro até saiu da Olimpíada com um balanço positivo, inclusive na questão de segurança. Afinal, o caso mais notório de violência contra algum atleta não foi real. Mas os organizadores esqueceram que o carioca, sobretudo o de classe baixa e média-baixa, não deveria ser visto como um potencial criador de problemas. Eles seriam a resposta para muita coisa. Inclusive uma das principais falhas dos Jogos: encher as arquibancadas.

Várias competições foram realizadas diante de assentos vazios. A imprensa internacional apontou esse fato como um dos fatores negativos da Rio-2016, com razão. Um dos motivos é a falta de popularidade de várias modalidades no Brasil, também houve casos de entradas nas mãos de cambistas, mas essas não são as únicas razões. Algumas disputas estavam com ingressos esgotados e, mesmo assim, havia lugares disponíveis.

Caminhão do Exército isola a TransOlímpica da favela Asa Branca, em Jacarepaguá (Ubiratan Leal/Outra Cidade)

Caminhão do Exército isola a TransOlímpica da favela Asa Branca, em Jacarepaguá (Ubiratan Leal/Outra Cidade)

A organização apontou para os patrocinadores, que têm parte dos ingressos em todas as competições e nem todos foram honrados. É bem possível que isso seja verdade, até porque não seria inédito. Em Londres-2012 ocorreu a mesma coisa. E, na época, os britânicos viram nesse caso uma oportunidade de levar os Jogos Olímpicos às comunidades. Escolas públicas receberam esses ingressos, enchendo as arquibancadas e aumentando o contato de crianças, sobretudo em bairros com menor poder aquisitivo, com o esporte.

A Olimpíada carioca não fez essa conexão, em parte porque não pôde. A lei eleitoral impede que a prefeitura doe bens no período de campanha, uma regra que até faz sentido no geral, mas acabou tendo o efeito colateral de impedir uma ação que claramente beneficiaria a comunidade. O objetivo das autoridades municipais era ceder 547 mil entradas para alunos da rede pública com boas notas, entidades ligadas a deficientes e servidores públicos.

De qualquer forma, haveria outras formas de colocar a população nos eventos. Várias competições tinham ingressos acessíveis, entre R$ 20 e 40, o que daria entre R$ 50 e 100 para um casal com um filho. Ainda que esse dinheiro faça falta para muitos brasileiros, está ao alcance de milhões que se disponham a um esforço para um momento único na história da cidade.

O problema é que esses milhões nunca acharam que os Jogos eram para eles, que estavam ao alcance. O marketing não foi voltado a eles, o processo de venda teve fases complexas (como sorteio) e tendia a afastar quem já achava que não teria espaço, que aquilo tudo não lhe pertencia também. Uma impressão perfeitamente compreensível, se considerarmos que os investimentos nas estruturas olímpicas se voltaram ao público de alto poder aquisitivo e que a separação da população comum dos torcedores era garantida por caminhões e mais caminhões do Exército.

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