O mapa é mais do que uma ilustração da superfície de um lugar, ele é a própria imagem que fazemos desse lugar. Pode parecer uma diferença sutil, mas não é. Isso embute uma série de conceitos na nossa cabeça, desde orientação geográfica até a forma de visualizar acontecimentos históricos ou a realidade social. Foi com base nisso que Hayden Frederick-Clarke, professor de competências culturais de educação de Boston, decidiu trocar os mapas mundi das escolas públicas da cidade.

Como é comum em vários lugares, incluindo o Brasil, as salas de aula de Boston adotavam o mapa com a projeção Mercator. Ela foi criada em 1569 para a navegação, mas se tornou uma das mais conhecidas e acabou consagrada por ser de fácil visualização. O problema é que ela distorce loucamente a área de territórios localizados em latitudes altas.

Mapa político na projeção Mercator

Mapa político na projeção Mercator

Desse modo, a Mercator apresenta a América do Norte, a Rússia e a Europa muito maiores do que realmente são na comparação com locais próximos ao Equador, como América Latina, África e Sul da Ásia. Por exemplo, a Groenlândia parece maior que a América do Sul, quando, na verdade, ela tem apenas 12,2% da área do continente. Por isso, essa versão de mapa mundi foi considerada muito eurocêntrica e colonialista, privilegiando, ainda que sem ter esse objetivo inicial, os países desenvolvidos.

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Entre as diversas projeções do planeta já criadas, a Gall-Peters teve como objetivo justamente corrigir distorções na área. Assim, ela apresenta cada continente, cada país, com a proporção correta de sua área, mostrando como países latino-americanos e africanos são realmente grandes (veja acima um mapa Gall-Peters com traços da Mercator em cima). E foi o mapa escolhido pela rede de ensino de Boston.

A intenção é boa e a mensagem é bastante válida. Mas a adoção dessa medida precisa vir acompanhado de aviso sobre os princípios desse mapa. Para igualar a proporção da área em cada parte do globo, a projeção Gall-Peters achata os territórios próximos aos polos e estica na região do Equador. Veja como fica na ilustração abaixo:

Ilustração mostrando as distorções da projeção Gall-Peters

Ilustração mostrando as distorções da projeção Gall-Peters

Em princípio, isso não chega a ser muito problemático. Mas, em um mapa com as divisões políticas, há óbvias distorções no desenho de cada país.

Mapa mundi na projeção Gall-Peters com a divisão política

Mapa mundi na projeção Gall-Peters com a divisão política

O Brasil é um dos melhores exemplos desse problema. O país aparece bastante alto e relativamente magro, sendo que, na verdade, a distância entre os pontos extremos leste-oeste (4.394 km) é ligeiramente maior do que a norte-sul (4.319). E é possível interpretar que uma imagem de um Brasil “alto” favorece a visão de que o eixo de desenvolvimento do país precisa ser nesse sentido, seguindo a costa, sem tanta necessidade de se preocupar com o interior (sobretudo regiões Norte e Centro-Oeste).

Além disso, outro problema dessa projeção é que, se usada para visualizar apenas as nações, ela simplesmente mostra um desenhos bastante errado. No final das contas, é uma informação incorreta também, e isso tem de ser considerado pelo professor ou por quem for usar o mapa para ensinar ou explicar algo.

Solução? Não há nenhuma perfeita. Todas as projeções de mapas têm algum nível de distorção, simplesmente porque não é possível passar a superfície de uma esfera para um plano sem fazer adaptações. Cada amante de mapa gosta mais de uma versão, e há quem considere que isso até diz muito sobre a personalidade de cada um. Eu gosto da Winkel-Tripel.

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